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O álcool e a imprensa contra a Revolução Russa

Nos seus esforços para embrutecer as massas, a burguesia encontrou um aliado excelente no álcool. A cidade estava minada de adegas privadas, mais perigosas do que fábricas de pólvora. Este álcool nas veias da população significava o caos para a vida da cidade. Com este propósito, as adegas foram abertas e a multidão convidada a entrar e servir-se à sua vontade. Os bêbados, de garrafa na mão, saiam dos porões para cair de bruços na neve ou para andar pelas ruas disparando e saqueando.

Os bolcheviques replicaram a estes pogroms partindo as garrafas a tiro de metralhadora, uma vez que não havia tempo para as partir todas à mão. Destruíram três milhões de rublos de vinho nos porões do Palácio de Inverno, e alguns já lá estavam a um século. Os vinhos saíram não para as gargantas do czar e dos seus servidores, mas para uma mangueira ligada a uma bomba de incêndio que os despejava nos canais. Uma perda terrível. Os bolcheviques lamentaram-na muito porque precisavam do dinheiro. Mas precisavam ainda de ordem.

Para resolver esta crise foi afixado um cartaz dirigido aos cidadãos da Rússia: “Cidadãos! – disseram – Não à perturbação da ordem revolucionária! Nem roubos, nem assaltos! Seguindo o exemplo da Comuna de Paris, aniquilaremos todos os ladrões e todos os instigadores da desordem”.

Como a tentativa de envenenar a mente do povo com vinho não foi bem sucedida, tentou-se a imprensa. Estas fábricas de mentiras publicavam uma torrente de jornais e cartazes predizendo a queda iminente dos bolcheviques, dizendo que Lênin fugira para a Finlândia com três milhões em ouro e platina roubados do Banco do Estado, que os vermelhos massacravam mulheres e crianças e que havia oficiais alemães no Smolni (sede do Partido Bolchevique), chefiando as operações.

Os bolcheviques responderam com a suspensão de todos os órgãos “que incitassem à revolta e ao crime”.

“As classes poderosas – declaravam – que possuem a parte de leão da imprensa, procuram confundir o raciocínio e a consciência do povo com uma torrente de mentiras e calúnias. […] Se a primeira Revolução, que derrubou a monarquia, teve o direito de suprimir a imprensa monárquica, então, esta revolução, que derrubou a burguesia, tem o direito de suprimir a imprensa burguesa”.

Contudo, a imprensa da oposição não foi completamente suprimida. Jornais proibidos num dia, apareciam no dia seguinte, sob um novo nome. A Palavra tornou-se A Palavra LivreO Dia apareceu como A Noite, e depois A Noite Escura, Meia Noite, Duas Horas da Manhã, etc. A revista Sátira continuava, alegre e impiedosamente, a ridicularizar os bolcheviques com desenhos e versos. O Comitê Americano de Informação Pública (nota – O Comitê Americano de Informação Pública foi criado pelo presidente Wilson em abril de 1917, pouco depois de os EUA entrarem na guerra mundial. As suas funções incluíam: propaganda de guerra, censura e espionagem. No outono de 1917 foi crida uma delegação russa do Comitê. Na Rússia ele dedicou-se a atividades anti-soviéticas e publicava os Boletins Americanos) continuava a sua propaganda livremente, publicando os discursos de Samuel Gompers (nota – Gompers: Dirigente sindical americano reacionário que apoiou a intervenção contra a Rússia Soviética) sob o título “Socialistas apóiam a guerra”.

Contudo, as medidas dos bolcheviques foram suficientemente eficientes para se impedir a divulgação maciça de mentiras.

O czar tinha feito da Igreja Ortodoxa a sua polícia espiritual e da religião o “ópio do povo”. Com a ameaça das penas do inferno e as promessas de uma vida melhor no paraíso, as massas tinham sido mantidas na submissão à autocracia. Agora a Igreja era outra vez chamada a desempenhar as mesmas funções pela burguesia. Os bolcheviques foram solenemente excomungados de todos os seus ritos e serviços religiosos.

Os bolcheviques não fizeram um ataque direto à religião, mas separaram a Igreja do Estado. Cortaram a torrente de fundos governamentais para os cofres eclesiásticos. Proclamaram o casamento uma instituição civil. Confiscaram as terras dos mosteiros. Transformaram alguns mosteiros em hospitais.

O patriarca protestou contra esses sacrilégios, mas com poucos resultados. A devoção das massas à Santa Igreja mostrou ser quase tão mítica como a sua devoção ao czar. Olhavam para o Decreto da Igreja, que os ameaçava com o inferno se se juntassem aos bolcheviques. Depois olhavam para o Decreto bolchevique que lhes dava terras e fábricas.

“Se temos de escolher – diziam alguns -, escolhemos os bolcheviques”. Outros escolheram a Igreja. Muitos disseram-me, simplesmente: Nitchevo (não tem importância nenhuma) e participavam na procissão religiosa num dia e nas manifestações bolcheviques no dia seguinte.

(Do livro Lenine e a Revolução de Outubro, Coleção Caminhos da Revolução. N° 4. Edições Avante.1977. Lisboa – Portugal.)

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