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Tráfico de animais ameaça preservação ambiental

Ao longo da história, as riquezas naturais do Brasil sempre foram vistas sob o prisma da cobiça e ganância. Nosso primeiro grande saque, o que abriu as portas para a exploração das matas brasileiras, é estudado em todas as escolas de nosso país: o do pau-brasil. No final do século 16, portugueses e franceses, entre outros, já haviam derrubado a absurda quantia de dois milhões de árvores. Em 1605, a realidade de hoje já estava deflagrada: o pau-brasil estava quase extinto. E a fauna, desde essa época, também já era pirateada: animais exóticos, coloridos e barulhentos da “nova terra” eram comercializados nas ruas europeias, por preços absurdos. Possuir papagaios, araras, tucanos e macacos era sinônimo de poder e riqueza.

De tão rentável que era o negócio, logo as indústrias entraram no jogo: penas de guarás, flamingos e garças da ilha de Marajó eram exportadas para Europa e Estados Unidos, onde eram usadas em adornos para chapéus femininos. O imperador dom Pedro II exibia-se nos salões, com um manto de gala todo confeccionado com penas de galo-da-serra. Antes dele, seu pai encomendava um manto real com penas amarelas do papo de tucanos. Para isso, em 1822, o ministro José Bonifácio exigiu que o Museu Nacional entregasse todos os tucanos-de-bico-preto mantidos em sua coleção. Milhares de beija-flores foram empalhados e ornamentavam casas e salas de concertos na Europa. Só em 1932, as penas de 25 mil dessas aves foram enviadas à Itália para decorar caixas de bombons.

Tal situação não mudou até hoje. Mesmo com toda a legislação vigente e as entidades responsáveis pela defesa do meio ambiente, nossos animais e plantas continuam sendo roubados de nosso país. Muitos remédios norte-americanos são feitos com princípios ativos extraídos de plantas brasileiras, comercializados aqui a preços caros, e o Brasil nada ganha com isso. E até hoje os animais, quando são apreendidos (juntamente com seus vendedores), perambulam muitas vezes por mais de três horas até serem registrados nas delegacias. Os próprios policiais consideram isso um “caso menor” e o despacham para outros distritos policiais. Espremidos em gaiolas e machucados, após tantos sofrimentos, a maioria desses animais, transportados sem nenhuma condição que garanta sua sobrevivência, acaba morrendo ou sofrendo lesões.

Mal fiscalizadas, as estradas no Norte e do Nordeste do País escoam a fauna brasileira. A cidade de Belém, capital do Pará, é o ponto de encontro de uma das maiores rotas de tráfico interno e internacional. Feira de Santana, na Bahia, que fica num entrocamento viário que leva para o Centro-Oeste e Sul (grandes pólos exportadores de mercadoria ilegal para a América do Norte, Europa e Ásia) também é usada como rota pelos traficantes. Só na Bahia uma pesquisa registrou o comércio de 159 espécies da fauna brasileira em feiras e mercados do Estado. Quem viaja pela BR-116 em direção a Milagres, se depara com cenas realmente absurdas. A dez quilômetros de um posto da Receita Federal, crianças vendem jabutis e filhotes de mico, a 25 reais o casal. “Pode levar, eles aguentam viagens longas. Se tu quiser, tenho mais em casa”, garante a A Verdade um garoto de dez anos de idade. “Tem um americano que sempre vem comprar comigo. Ontem, um caminhoneiro levou dez macaquinhos”, conta, excitado com a “qualidade” de sua mercadoria. A poucos metros dali, três rapazes vendem maritacas depenadas, com asas cortadas e cabeças pintadas de azul e vermelho (com pincel atômico): “São filhotes de papagaio”, tentam enganar.

Com os olhos cegos pela aproximação de brasas de cigarro, corrupiões ficam dóceis e são vendidos como “animais domesticados”, quietos nos dedos dos vendedores nas BRs do País. Outros vendem macacos com os caninos mutilados por cortadores de unha, como garantia de que não morderão ninguém. “Já encontramos bichos que nem são desta região, uma prova de que chegam de vários lugares do País”, afirmam alguns biólogos baianos, após grandes apreensões no Estado – que não são divulgadas com o destaque merecido, em nossa mídia.

Tantos casos demonstram um fato incontestável: o de que é impossível conciliar a preservação do meio ambiente com o avanço indestrutível do capitalismo. Criam-se de leis a planos nacionais, que não são respeitados de forma alguma, e a cada dia que passa mais e mais espécies entram na já extensa lista de animais extintos. E hoje o governo, junto com grandes empresários, divulga, com grande alegria, que são empresas sustentáveis que respeitam a natureza, a fauna e flora, como se fosse possível uma relação amigável entre a humanidade e a natureza no sistema capitalista.

Estamos presenciando no Brasil, um país extremamente rico do ponto de vista ambiental, o avanço de práticas e políticas destrutivas (como o novo Código Florestal) que promovem, a longo e médio prazo, a degradação da natureza, e, em consequência, a degradação da vida humana.

Emanuel Portela,  militante da UJR-CE

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