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Lembranças de Zaratustra – crônica potiguar

Atheneu

Em 1943, em plena guerra mundial e com Natal repleta de soldados americanos, o Atheneu Norte-Riograndense promoveu uma série de palestras para seus alunos e proferidas por jovens intelectuais potiguares. As conferências foram publicadas no mesmo ano e republicadas pelo Sebo Vermelho em 2012.

Na noite de 5 de agosto de 1943, a conferência ficou a cargo do jovem professor Luiz Maranhão Filho e tinha como tema “Lembranças de Zaratustra”. O texto de Maranhão é belamente construído e muito atual, atualizadíssimo, especialmente porque se renovam, nos dias atuais, pensamentos e propostas antidemocráticas e fascistas.

Luiz Maranhão enaltece, na primeira parte da conferência, a beleza literária de “Assim Falava Zaratustra”. Descreve como “grande e magistral poema, que logo nos sentimos atraídos pela sua poesia, antes de penetrarmos no imenso campo de sua essência”. Ou “a obra de Nietzsche-Zaratustra possui o encanto maravilhoso de todas as nuances, desenrolando-se  dentro de um jogo luminoso e colorido que nos leva a um estado de espírito quase sublime…”.

Prosseguindo na palestra, Luiz Maranhão alerta que apesar da beleza de estilo literário, “as ideias de Nietzsche foram, sem dúvida, antidemocráticas por excelência. Pela boca de Zaratustra, ele pregou a renovação da vida no sentido da aristocracia, aspirando ao reino dos super-homens”.

Comenta ainda o palestrante que “é uma verdadeira característica em Zaratustra, o desprezo pelo povo… E não somente quando despreza o povo mostra-se Zaratustra um antidemocrata. Essa qualidade envolveu-o totalmente, até mesmo quando teve de se referir às mulheres, negando-lhes a posição que viriam a desfrutar no círculo das atividades humanas”. Essa referência mostra uma característica marcante, por toda a vida, de Luiz Maranhão como um pioneiro feminista dentro do movimento de esquerda.

A relação da obra com o nazismo é também detalhada por Luiz Maranhão que comenta que “para muitos, Nietzsche foi apenas um poeta e um louco de gênio. Concordarei que sim, porém não o absolvo totalmente de haver contribuído para a formação nazista no mundo. Sempre o encontrarei proclamando o radicalismo aristocrático e isso não nos conduzirá, jamais, à realização democrática da vida”.

Luiz Maranhão considera que “Zaratustra é, assim, um filósofo individualista e o super-homem o mais alto símbolo de todo o individualismo filosófico”.

Em um instante do texto, quando discute o pensamento de Nietzsche com a concepção materialista, Luiz Maranhão sugere que “tanto os espíritos superiores como as necessidades econômicas governam o mundo. O que acontece, apenas, é que a economia desdobra os acontecimentos na sua grande amplitude, determinando a origem das diferentes épocas. Nestas, então, localizam-se os heróis, os santos e mártires”.

Ironicamente, Luiz Maranhão incorporaria os três espíritos superiores exemplificados. Ele foi um herói pela coragem e determinação na sua luta por um mundo justo e fraterno. Ele foi um santo (“Um Santo Ateu”) na relevância histórica de evocar uma busca do diálogo entre marxistas e cristãos. Essa aliança entre comunismo e o catolicismo progressista seria, assim, a aposta de um ateu convicto, profundamente humanista e solidário. Finalmente foi um mártir que sofreu diversas prisões e torturas que resultaram na sua morte/desaparecimento em 1974.

Cacá Medeiros Filho, Natal (RN)

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