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Febre Amarela: mais um descaso com a saúde pública

Erradicada no século passado, a febre amarela não preocupava e não integrava a caderneta de vacinas obrigatórias e parecia uma realidade distante do Estado do Rio de Janeiro. Estava enterrada no passado. A epidemia, que matou 60 mil pessoas entre 1849 e 1907, retorna à vida da população fluminense.

A tentativa de exterminar o mosquito Aedes aegypti, principal vetor urbano da doença, começou com o médico sanitarista Oswaldo Cruz, que desenvolveu a vacina e comandou, no início do século 20, um exército de cinco mil homens na destruição de focos. Até fábricas, como a de tecidos Aliança, em Laranjeiras, foram transformadas em hospitais. As investidas de Oswaldo Cruz, mesmo contrariando as Forças Armadas e parte da população – que desencadeou o movimento conhecido como “Revolta da Vacina” (1904) – deram resultados. Na época, o Rio tinha 800 mil habitantes. Hoje, são mais de 6,5 milhões.

Desmatamento e falta de investimento social

Umas das prováveis causas do ressurgimento da doença seria o desmatamento, que causa desequilíbrio ecológico, deixando escassos os predadores dos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, transmissores do vírus no meio rural, onde macacos são os principais hospedeiros. O desastre da Samarco no Rio Doce também é apontado como causa para o desequilíbrio ecológico.

Nas cidades, onde o homem é o único hospedeiro, as falhas são históricas no combate ao Aedes aegypti. O Estado, que tem a responsabilidade de investir em saneamento básico, assim como a aplicação de inseticida, método conhecido como “fumacê”, além da disponibilização de vacinas, não está cumprindo com sua função de proteger a população de um surto como esse.

As enormes filas que se formaram nos postos de saúde para a vacinação, como no dia 25 de março, demonstraram o temor da população com mais esse descaso do governo.

Nayá Puertas, médica de família do Centro Municipal de Saúde José Messias do Carmo, no bairro de Santo Cristo, centro do Rio de Janeiro, e diretora do Sindicato dos Médicos do RJ, afirma: “Não temos casos de febre amarela urbana no Brasil desde 1942, porém a disseminação do mosquito Aedes aegypti, que é o transmissor, preocupa e é a razão da vacinação em massa”.

Com o desmatamento e desastres ambientais criminosos, como a ruptura da barragem de Mariana (MG), os predadores naturais do mosquito Haemagogus, que transmite a febre amarela silvestre, e que são principalmente os sapos, desaparecem. Aumenta, assim, a quantidade desses mosquitos, que picam os macacos (reservatórios naturais), se infectam e transmitem a doença aos humanos. Quando uma pessoa infectada é picada pelo Aedes, o mosquito contrai o vírus e através de sua picada dissemina a doença nas cidades.

A população procura os centros de saúde, mal informada pela imprensa, que ressalta o número de pessoas infectadas – como os casos do município de Casimiro de Abreu –, sem esclarecer que eram moradores da zona rural. Há a necessidade de se imunizar a população e as autoridades públicas de saúde precisam garantir o abastecimento de vacinas e condições de trabalho aos profissionais das unidades de saúde.

Denise Maia, Rio de Janeiro.

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