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A importância do feminismo para o socialismo

Já se ouviu de vários setores ditos de esquerda que a existência do feminismo ou do movimento negro significa uma divisão na “luta principal”: a luta de classes, entre o proletariado e a burguesia. Mas essa visão pode nos levar a cometer muitos erros e, por isso, é importante entender por que ela não está correta.

Devemos sempre nos lembrar de que não são os que lutam pelo fim de sua opressão os responsáveis por criar a divisão. Também, como disseram Marx e Engels, “segundo a concepção materialista da história, o fator que, em última instância, determina a história é a produção e reprodução da vida real”. Por isso, neste texto, tentaremos mostrar por que os movimentos de mulheres são importantes e até mesmo essenciais para a libertação de toda a humanidade. Nas palavras de Samora Machel, “a emancipação da mulher não é um ato de caridade, não resulta de uma posição humanitária ou de compaixão. A libertação da mulher é uma necessidade fundamental da Revolução, uma garantia da sua continuidade, uma condição de seu triunfo. A Revolução tem por objetivo essencial a destruição do sistema de exploração, a construção de uma sociedade libertadora das potencialidades do ser humano e que o reconcilia com o trabalho, com a natureza. É dentro deste contexto que surge a questão da emancipação da mulher”.

Há uma exploração específica das mulheres e o capitalismo se aproveita dela

Segundo F. Engels, em seu livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado, a exploração da mulher surge junto com o nascimento da propriedade privada. Isso se dá por dois motivos, principalmente: produção de um excedente econômico (produz-se além do necessário que a comunidade precisa para viver) e a descoberta da participação masculina na procriação. Esses dois fatores permitem a transmissão de herança. É a partir de então que se fixa um modelo patriarcal de sociedade. Patriarcado é uma palavra que significa “poder do pai”, ou seja, é um termo que define o poder nas mãos dos homens adultos.

O que aconteceu foi que, desde de seu surgimento, o capitalismo se fundiu com o patriarcado. Hoje não temos exatamente o mesmo modelo patriarcal, mas um novo modelo, que é a fusão do patriarcado-capitalismo-racismo. Nessa fusão, o capitalismo se aproveitou do machismo (e do racismo) para aumentar a exploração sobre os trabalhadores e, especialmente, as trabalhadoras, e a situação é ainda pior se for uma trabalhadora negra. O trabalho considerado feminino (a reprodução da vida social: gerar e educar os filhos e cuidar do lar) é muito importante para que a sociedade continue funcionando. Mas este é um trabalho invisível, que não é pago, nem sequer é visto como trabalho. Por isso, dizemos que as mulheres têm dupla (e, muitas vezes, tripla) jornada de trabalho. É injusto com as mulheres, mas isso garante altos lucros aos patrões.

A classe trabalhadora tem dois sexos

Segundo pesquisa do IBGE, em 2013, as mulheres representavam 51,4% da população brasileira e 37,3% dos responsáveis pelo sustento da família. Às vezes, trabalhamos até mais que os homens, pois, também temos que trabalhar quando voltamos para casa depois do serviço. Por isso, uma transformação na sociedade que acabe com a exploração interessa muito às mulheres trabalhadoras. E não só nos interessa, como sem nós ela não seria possível, pois somos mais da metade da população.

Mas, infelizmente, no nosso processo de educação e de criação, não somos ensinadas a pensar em política. Somos metade da população e menos de um quinto dos altos cargos políticos! Mas política não são cargos de poder. Política vai muito além disso. Desde organizações sindicais, partidos, grêmios escolares, movimentos sociais: tudo isso é política, e nós, mulheres, enfrentamos muitas dificuldades para estar nesses espaços. Por exemplo, para uma mulher participar de uma assembleia ou manifestação fora de seu horário de trabalho, ela costuma ter que se preocupar com quem fará a comida na sua ausência; onde ficarão seus filhos; quem irá lavar a louça, arrumar a casa. Os homens, em geral, não pensam nisso, pois sabem que suas esposas ou mães já estão cuidando disso para eles. Assim, muitos desses espaços de discussão política têm muitos homens e poucas mulheres.

Nesse sentido, é importante que nós tenhamos espaços específicos só para mulheres, pois, como foi colocado, temos mais dificuldade de organização que os homens. Isso nos deixa “atrasadas” em relação a eles, que em toda sua vida foram estimulados a algo que nós não fomos. Nesses espaços só de mulheres podemos compartilhar nossas experiências e nos formar em conjunto. Discutir política e nos enxergarmos, nós mesmas, como sujeitos políticos! E é através da organização autônoma e das discussões feministas que as mulheres se percebem umas nas outras, e compreendem sua situação de mulher, a necessidade de transformá-la e, para que isso seja possível, de transformar toda a estrutura da sociedade que nos explora e domina.

Tudo isso é muito importante para a luta da classe trabalhadora. Se nós, tão numerosas, não estivermos organizadas, os homens sozinhos tampouco conseguirão alcançar a liberdade.

O que queremos que o mundo seja

Por fim, devemos pensar: o que nós queremos construir? Uma nova sociedade, livre de exploração e dominação, uma sociedade justa e igualitária, na qual homens e mulheres não sejam superiores ou inferiores. Esta sociedade é a sociedade socialista! A sociedade socialista é o caminho para uma sociedade livre de classes, livre da exploração. Mas, para chegarmos até ela, há um longo caminho a trilhar. E esse caminho necessita que estejamos organizadas e organizados para combater o patriarcado-capitalismo-racismo.

Para nos organizarmos é importante entender as especificidades e as diferenças que estão entre os trabalhadores e trabalhadoras, entre negros, brancos e indígenas na nossa sociedade. Compreender as especificidades e demandas dos diversos grupos que compõem a classe trabalhadora não significa dividi-la, mas sim permitir que se fortaleça de forma coesa pautando o fim de todas as formas de exploração. Logo, a questão da mulher não é de interesse apenas das mulheres. É de interesse de todos que se propõem a construir o socialismo.

As mulheres devem estar no centro dos movimentos políticos revolucionários, e é dever dos homens não criar obstáculos para isso, mantendo constante vigilância de sua conduta pessoal, evitando a reprodução de atitudes machistas e misóginas.

Lembremos sempre da palavra de ordem “sem mulheres não há Revolução”. Seguiremos em luta até que todas sejamos livres.

Letícia Teixeira, Belo Horizonte

Fonte: “Feminismo e consciência de classe no Brasil”, de Mirla Cisne.

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