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Nas trilhas de Tupac Amaru

Dan Mitrione, agente internacional do Departamento de Estado dos EUA, professor de torturas na América do Sul que veio ensinar os pontos e a medida para aplicação de choques elétricos e outras agressões de modo a provocar dor sem deixar marcas nos prisioneiros, estava atuando e residindo em Montevidéu, no Uruguai, num bairro de classe média alta.  No dia 31 de julho de 1970, saiu de casa com destino ao escritório no qual planejava e articulava a execução de seus crimes. Tomou assento no banco de trás do veículo. O motorista deu a partida e andou 50 metros; ao dobrar a rua Gallinal, o caminho foi fechado por uma caminhonete; outra bateu na traseira do seu Ford.

Parecia um acidente comum, mas quatro jovens armados imobilizaram o motorista e capturaram o sádico agente estadunidense, que utilizava presos políticos e comuns, assim como mendigos, nas aulas de tortura que ministrava no Brasil, Uruguai e outros países da América Latina. No mesmo dia, outro grupo de militantes sequestrava o cônsul brasileiro em Montevidéu, Aloysio Dias Gomide. Qual seria o grupo ousado que praticara duas ações de peso, com repercussão internacional, em um mesmo dia?

Movimento de Libertação Nacional Tupamaros – MLN-T

Na América Latina, o Uruguai era o país que apresentava maior estabilidade econômica e política, até ser atingido por uma crise econômica no final dos anos 1950, a qual provocou desemprego em massa, inflação e alta do custo de vida, gerando grande insatisfação social. Nenhuma das organizações de esquerda apresentava uma saída concreta para o problema. Comunistas e socialistas estavam limitados à via institucional, não representando, nem de longe, qualquer ameaça ao revezamento no governo dos partidos tradicionais das classes dominantes, os colorados e os blancos. Os anarquistas, sempre fomentando greves econômicas e esperando sua evolução para greve política para derrubar o poder da burguesia, também não representavam alternativa ao sistema vigente. O país vivia sob regime de democracia burguesa. A ditadura só veio a se implantar em 1973.

Jovens militantes foram se conhecendo, questionando a estratégia de suas organizações e buscando uma saída. Esta apareceu quando Raul Sendic (1925-1989), advogado, militante socialista, propôs a organização de um grupo guerrilheiro, inspirado na Revolução Cubana (passara uma temporada em Cuba) e a garotada topou a parada. A opção foi a guerrilha urbana, até porque o Uruguai não apresentava condições geográficas – do tipo selvas e montanhas – para desencadeamento de uma guerrilha rural com o objetivo de libertar o país da dependência do imperialismo e implantar o socialismo no rumo de uma sociedade comunista. O nome foi homenagem e reverência a Tupac Amaru, herói indígena que liderou o levante dos nativos contra os invasores espanhóis no século 18.

As ações militares começaram em 1963, basicamente para acumulação de forças – recursos e armas. Eram assaltos a bancos, empresas e quartéis, bem como sequestros. Para obter apoio do proletariado, expropriavam alimentos dos grandes armazéns comerciais e distribuíam nos bairros pobres da capital.  Os sequestros também eram aplaudidos, pois escolhiam o alvo certo: políticos e personalidades conhecidas como corruptas. Não matavam os sequestrados. Apenas exigiam dinheiro para a organização em troca da sua libertação.

O ano de 1968, no Uruguai, como em todo o Mundo, foi marcado por grandes agitações estudantis e greves dos trabalhadores. Os tupamaros sempre planejavam alguma ação que demonstrasse seu apoio e solidariedade com a luta. Um exemplo dessa tática foi o sequestro de um banqueiro importante em apoio à greve dos bancários.

O governo proibiu de a imprensa mencionar o nome tupamaros, mas eles encontraram várias formas de neutralizar essa medida. Criavam suas próprias emissoras de rádio clandestinas, ocupavam lugares públicos (praças, escolas, teatros, cinemas, restaurantes) para divulgar suas ações, seu programa, e conclamar o povo à Revolução. A Polícia, pequena e despreparada, não conseguia conter os “tupas”, não descobria sequer uma célula clandestina ou onde se encontravam os sequestrados.

Com isso, crescia a simpatia popular e a adesão de militantes, que chegaram a cinco mil, exército composto fundamentalmente por professores, universitários e profissionais de nível médio.

Ações espetaculares e contraofensiva da burguesia

Esta correlação de forças começa a mudar no final dos anos 1960, com a estruturação da Operação Condor, quando Fleury (Brasil) e Dan Mitrione (EUA) comandam o treinamento de 20 mil homens da Polícia e das Forças Armadas uruguaias para o combate antiguerrilha.

Em julho de 1970, o poder dos “tupas” está praticamente intacto, quando sequestram o agente estadunidense e o cônsul brasileiro. O primeiro foi comemorado e gerou admiração em toda a esquerda latino-americana.

Em troca da libertação dos dois sequestrados, os tupas pediram a libertação de 150 presos políticos. O governo não cedeu. Com as forças repressivas mais bem preparadas, passou-se à ofensiva e, no dia 7 de agosto, localizaram o aparelho onde se encontravam Raul Sendic e mais sete dirigentes dos Tupamaros. Foi um rude golpe. Apesar das ameaças de morte contra os prisioneiros e seus familiares, os tupas não recuaram e, no dia 10 de agosto, executaram o agente Dan Mitrione. Decidiram manter em cárcere o diplomata brasileiro. Diante da recusa do governo em negociar, a família entrou em campo e conseguiu a libertação mediante o pagamento de 250 mil dólares, após 205 dias de sequestro.

Se a soltura de Mitrione seria sinal de fraqueza, seu justiçamento aumentou a credibilidade perante a esquerda mundial, mas reduziu a simpatia entre o povo uruguaio, que, em sua maioria, não concordava com assassinatos por razões de ordem política.

No ano de 1971, houve eleições presidenciais; os tupamaros fizeram campanha para o candidato da Frente Ampla, um agrupamento de esquerda em oposição aos partidos dominantes blanco e colorado. A simpatia do povo com os “tupas” não se refletiu no resultado eleitoral, pois a Frente Ampla só alcançou 20% dos votos. Nesse mesmo ano, outra ação espetacular dos tupamaros foi a fuga da cadeia de 106 presos políticos, entre eles os principais dirigentes Raul Sendic, Fernández Huidobro e José Mujica.

Juan Maria Bordaberry assume o mandato e passa a governar ditatorialmente, com o respaldo das Forças Armadas. Em 1972, desfecha golpe fatal contra os tupamaros, prendendo novamente seus principais dirigentes. Estes sairão da cadeia 13 anos depois, em 1985, com o fim da ditadura cívico-militar. Raul foi o mais castigado de todos, tendo passado 11 anos numa solitária.

Trocando as armas pelas urnas

A saída dos dirigentes tupamaros foi televisionada. Não esqueço Raúl Sendic. 60 anos de idade, mas parecendo 80. Magro, alquebrado, apoiado em muletas, o repórter tasca: “Valeu a pena 11 anos de solitária por uma luta derrotada?”. Raúl: “É assim a história, amigo. A luta continua. De derrota em derrota, até a vitória final!”. Punhos cerrados, firmeza exemplar!

Mas a luta continuou da forma antes rejeitada pelo MLN-T.  Libertados, os dirigentes tentam reconstruir a organização e acabam fundando o Movimento Participação Popular – MPP, que se integrou à Frente Ampla, fundada em 1971. Elegeram deputados, senadores e até um presidente da República, José “Pepe” Mujica, sucedido por Tabaré Vasquez, atual presidente, que tem como vice o filho de Sendic, Raul Fernando Sendic.

Mas nem todos os ex-militantes aderiram à nova estratégia. Por eles, fala Maria Elía, irmã gêmea de Maria Lucia (esposa de Mujica), ao órgão Sul21: “A imensa maioria dos tupamaros não participa das esferas do governo, não têm vez nem voz. Isso é muito doloroso porque nesse caminho ficaram vidas, torturas, longos anos de cárcere, exílios… Sabemos que perder não significa vacilar; reconhecer erros não significa renegar a luta e suas razões, que valem ainda hoje”.

Avaliando o governo de Mujica, declara: “Estamos numa sociedade capitalista. Nestas condições, um governante tem dois caminhos: adapta-se às normas dessa sociedade ou desconhece-as e apoia as lutas do povo organizado, estabelecendo um governo de tensão. Quando se faz a primeira opção, se concilia, e, aos poucos, vai vacilando, a luta pela memória e verdade incomoda e se busca justificativas como afirmar que ‘não se pode viver olhando para trás’”. Elía não concorda e enfatiza: “Aquilo que foi vivido deixa marcas indeléveis. Elas aparecem no percurso de nossas vidas. É necessário pensar nelas e compreendê-las para carregá-las. A liberdade também foi um caminho duro de percorrer. Por isso, não queremos, nem podemos esquecer”.

José Levino é historiador

Veja no YouTube o filme Estado de Sítio de Costa Grava. 1973

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