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“O movimento popular retomou as ruas no Equador”

A Verdade entrevistou com exclusividade Geovanni Atarihuana, 45 anos, diretor nacional da Unidade Popular (UP) do Equador. Militante desde os 13 anos, Geovanni começou sua vida política na Juventude Revolucionária do Equador (JRE). Foi presidente da Federação dos Estudantes Secundaristas do Equador (FESE), da Federação dos Estudantes Universitários (FEUE) e diretor da Organização Caribenha e Latino-Americana de Estudantes (OCLAE). Nesta entrevista, concedida durante o 21º Seminário Internacional Problemas da Revolução na América Latina, realizado em julho, em Quito, Geovanni Atarihuana relata como foi o processo de construção da UP e quais são os principais desafios da esquerda equatoriana hoje. Por Heron Barroso 

A Verdade – Quando nasceu a Unidade Popular no Equador?

Geovanni Atarihuana– AUnidade Popular nasceu em 2014, após o Movimento Popular Democrático (MPD) ter sido ilegalizado inconstitucionalmente pelo governo de Rafael Correa e pelo Conselho Nacional Eleitoral. A militância do MPD tomou, então, a decisão de continuar a luta e fundar uma nova organização política que representasse a continuidade do MPD, mas, ao mesmo tempo, que abrisse suas portas a novos setores sociais, à juventude, etc., e fosse uma alternativa para que esses setores se organizassem para lutar por um governo revolucionário. Em 2015, iniciamos o processo de recolhimento das assinaturas para conseguir o registro eleitoral. A lei equatoriana exige um mínimo de assinaturas de 1,5% dos eleitores, algo em torno de 200 mil assinaturas. Em um ano, nós conseguimos recolher 500 mil assinaturas. Apesar de todas as dificuldades, foi uma grande vitória, pois, desde o primeiro dia, o presidente Rafael Correa tratou de nos atacar e impedir que alcançássemos o registro.

Como foi o trabalho de recolhimento de assinaturas?

O mais importante foi o trabalho de base que já possuíamos e saber utilizar a nosso favoro momento político que vivia o país. Em 2015, o movimento popular equatoriano retomou as ruas contra as medidas antipopulares do governo Correa, e esse ambiente de luta social foi o melhor cenário para irmos ao povo, às bases sindicais, estudantis, aos bairros, para conseguirmos apoio para essa nova alternativa política.

Que avaliação a UP faz das últimas eleições no Equador?

As últimas eleições foram marcadas pelo desgaste de dez anos de correísmo, pela crise econômica e pela resistência da população ao autoritarismo do governo. Por isso, Rafael Correa não foi candidato, porque percebeu que não conseguiria se reeleger, e colocou em seu lugar Lenín Moreno. Nós, da Unidade Popular, trabalhamos pela construção de uma alternativa das forças democráticas e de esquerda, que foi o Acordo Nacional pela Mudança, cujo candidato a presidente foi Paco Moncayo. Por diversos problemas enfrentados durante a campanha e pelos próprios limites políticos do nosso candidato, não conseguimos polarizar a disputa eleitoral entre o candidato do governo e uma opção à esquerda do correísmo. Assim, o chamado voto útil foi conquistado por um candidato da direita tradicional, Guillermo Lasso. Apesar disso, avaliamos que a votação que obtivemos, cerca de 7%, é uma boa base de partida, ainda mais se tratando de um país que enfrentou dez anos de um governo que se apresentava de esquerda, mas que, na verdade, era essencialmente antipopular. Muita gente foi às urnas responsabilizando a esquerda pela crise e pela corrupção que tomam conta do país. Somado a isso, o nome da Unidade Popular ainda não era conhecido pela grande massa da população, que não se identificava ainda com nosso partido. Devido à fraude eleitoral, em várias cidades não conseguimos eleger representantes no parlamento, um problema que estamos trabalhando para reverter nas próximas eleições.

E no segundo turno?

No segundo turno a eleição se converteu num plebiscito, num referendo para decidir se o país continuaria sendo governado pelo correísmo ou não. Tomamos a decisão de votar contra Correa, de votar no candidato da oposição. A todo momento afirmamos expressamente que isso não significava assumir o programa de Lasso, mas que se tratava exclusivamente de derrotar um governo autoritário e possibilitar melhores condições de luta para os movimentos sociais. Lasso fez uma campanha no segundo turno assumindo as propostas dos setores populares, como anistia para os perseguidos políticos, fim da criminalização dos movimentos sociais, livre acesso à universidade, não ao ajuste fiscal, etc. Dessa forma, ele saiu de 28%, no primeiro turno, para praticamente 50% no segundo. É importante saber que esses votos não foram votos de direita ou neoliberais, mas votos contra o correísmo. Várias centrais sindicais, movimentos indígenas e a maioria da esquerda seguiram essa votação. Nas cidades com mais tradições democráticas e de esquerda, o candidato oficial foi derrotado. Ou seja, a decisão que tomamos no segundo turno modificou a correlação de forças e forçou o governo a recorrer à fraude para vencer a eleição.

Podemos dizer, então, que o resultado eleitoral enfraqueceu o correísmo?

Sem dúvida. Esse resultado e a fraude deslegitimam a presidência de Moreno. Aspessoas têm consciência de que seu governo será a continuidade do Governo Correa e que seguirá dando impulso ao desenvolvimento do capitalismo e à renegociação da dependência do país às potências estrangeiras. Por isso, Moreno tem sido obrigado a modificar seu comportamento e se distanciar da figura de Rafael Correa. A principal demanda da população hoje é de que se resolvam os problemas em âmbito social, educativo, da habitação, anistia aos perseguidos políticos, etc. De fato, há esse sentimento nas massas do povo e acreditamos que as forças de esquerda devem tomar a ofensiva para reconquistar direitos e posições políticas perdidas nos últimos anos.

Qual a posição da Unidade Popular frente ao novo governo?

Defendemos que é preciso reanimar o movimento social e recompor as organizações sindicais, indígenas, estudantis, etc. Uma questão central é exigir que o governo tome uma atitude em relação à crise econômica. Hoje, o peso da dívida pública é tremendo. A perspectiva para este ano é de que a economia não vai crescer e haverá um grande déficit fiscal. Diante disso, mais cedo ou mais tarde, o presidente Moreno terá que fazer ajustes econômicos. Evidentemente que o campo popular deverá fazer frente a essas medidas e combatê-las, pois o ajuste não pode ser feito em cima dos mais pobres. O presidente convocou um diálogo nacional, se diferenciando de Correa, que dizia que não precisava conversar com ninguém, que tinha a maioria, etc. Nós, então, temos dito: “bom, vamos dialogar, temos propostas, temos exigências”. Isso tem nos permitido colocar a esquerda, o movimento social, no centro do debate nacional e mostrar ao povo quais medidas devem ser adotadas em favor do país e dos setores populares.

 

E que medidas são essas?

Ao todo, nós defendemos um conjunto de vinte medidas urgentes. Em primeiro lugar, uma auditoria pública das contas do país, da situação da dívida, das obras, dos contratos petroleiros e das explorações minerais. Segundo, um duro combate à corrupção. Terceiro, que se priorize a dívida social em lugar da dívida externa. Defendemos também que se estabeleça um teto salarial para os altos funcionários públicos. Feito tudo isso, o governo terá condições de investir seus recursos em projetos produtivos, na geração de emprego e nas áreas sociais como moradia, saúde e educação. Isso é urgente, pois atualmente apenas quatro em cada dez equatorianos possuem emprego formal. A maioria está na informalidade, em subempregos, ganhando menos que o salário mínimo e sem acesso à previdência social. Por isso, é indispensável uma nova auditoria da dívida externa, especialmente da dívida que temos com os chineses. Ninguém sabe em que condições essa dívida foi contraída, nem quem são exatamente os credores. É uma caixa preta.

Por fim, que mensagem você deixa aos companheiros que estão hoje na campanha pela legalização da Unidade Popular no Brasil?

Quero dizer que, para vencer esse desafio, é preciso ter gana, persistência e, principalmente, se vincular com o povo. Um militante político não pode jamais menosprezar a relação com o povo. Quando falamos a verdade às pessoas, partindo de seus próprios problemas, percebemos que o povo está ávido de não ser apenas simples expectador, mas fazer algo para transformar a realidade em que vive. Há uma campanha forte para que os trabalhadores não participem da política, se distanciem dela. Mas quando conseguimos tocar no ponto sensível, falar de seus problemas mais imediatos, nos conectamos e aí conseguimos nos organizar e lutar. Hoje estamos num processo de fortalecimento da Unidade Popular para enfrentar as eleições municipais de 2019 e empenhados em construir uma alternativa de esquerda para disputar o governo em 2021. Isso implica promover a Unidade Popular, formar quadros e nos vincular cada vez mais com as bases sociais. Essa é uma luta intensa e precisamos compreender que a luta eleitoral é parte da luta política. As eleições são resultado de um processo de acumulação de forças, de formação de lideranças e de visibilidade de nosso programa. Lutamos no campo de batalha da burguesia, que tem o dinheiro e os grandes meios de comunicação a seu favor, mas nós temos a convicção e o povo ao nosso lado, e, por isso, vamos vencer.

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