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O verdadeiro empoderamento das mulheres

Empoderamento é uma palavra muito em voga no momento e que exprime a ideia de “poder”, comumente relacionada à conquista de “poder” pelas mulheres.

Recentemente, numa propaganda partidária na TV, um representante de um partido chamou as mulheres a se filiarem em sua agremiação, já que o “empoderamento feminino” fazia parte de sua plataforma política. Hoje a maioria dos partidos faz um chamado direcionado às mulheres para que se filiem, mas não pelo que elas representam, e sim pela obrigação legal de um mínimo de 30% de mulheres em seus diretórios e como candidatas nas eleições. Na verdade, esta lei foi fruto da luta feminista e está longe de representar a real necessidade da participação das mulheres nos espaços políticos.

Programas televisivos e artigos de revistas destinados às mulheres também falam de empoderamento feminino, como o rompimento com padrões de beleza e com o comportamento de submissão e paradigmas que a sociedade considera papel social das mulheres. Para estes meios de comunicação, sair do padrão de moda das lojas de departamento, cortes de cabelo ou de pintura de unhas é estar empoderada. Então a bela negra, apresentadora do programa da GNT, Karol Conka é apresentada como a empoderada que rompeu com os limites de sua comunidade de baixa renda, com sua baixa autoestima, pinta os cabelos de cor de rosa, usa unhas supercompridas, quilos de maquiagem e cremes de cabelo, e somente assim é tida como empoderada, considerada até como exemplo para as meninas negras da periferia.

A opressão das mulheres é uma herança maldita

A sociedade capitalista, patriarcal, machista e homofóbica, de dominação branca, espera das mulheres comportamentos que reflitam a herança de milhares de anos de escravidão e opressão nos quais as mulheres tinham seus passos tolhidos pelo papel que desempenhavam nos espaços privados de suas famílias com suas tarefas domésticas.

Mesmo que a sociedade capitalista as tenha convocado para fazerem parte como explorada na sua engrenagem de produção, tirando-as em parte de seu aprisionamento, aumentou ainda mais sua opressão e não as livrou dos trabalhos domésticos.

É evidente que a entrada das mulheres como trabalhadoras sociais criou várias contradições dentro do sistema e permitiu que as mulheres fossem “ocupando espaços”, especialmente as mulheres das classes abastadas que puderam se livrar dos trabalhos domésticos explorando o trabalho de outras mulheres. Para as mulheres das classes menos favorecidas, a dupla jornada de trabalho as mantêm duplamente oprimidas e sobrecarregadas, e ainda esmagadas, subjugadas e inferiorizadas.

Mas não somos livres, nossos direitos são limitados e não temos poder

Se os espaços de poder podem ser exercidos por algumas mulheres, que conseguem individualmente se desvencilhar da escravidão assalariada, dos modelos sociais impostos, esses espaços são fruto de uma luta coletiva das mulheres e de heroínas da história que sintetizaram em suas épocas as lutas coletivas de muitas anônimas, que ao longo da história lutaram para romper a opressão de classe e de gênero que esteve presente na vida das mulheres desde o início da divisão da sociedade em classes: opressores e oprimidos/as, exploradores e explorados/as.

No entanto, para a grande maioria das mulheres, a realidade continua de opressão e sem poder: ocupamos apenas 11% das cadeiras parlamentares no Brasil, nossos direitos continuam cerceados; mesmo que recentemente uma mulher tenha assumido a Presidência da República, nossos salários continuam a ser 30% menores que os dos homens; mesmo que sejamos, em média, 40% das famílias sejam chefiadas por mulheres, estas famílias têm uma situação econômica precária, suas moradias não têm saneamento e muitas nem água encanada; apenas 18% das mulheres têm direito a colocar seus filho em creches; isso sem falar da violência sexista que mata uma mulher a cada hora e meia e estupra uma a cada 11 minutos.

Falar em empoderamento no capitalismo é criar ilusão

Podemos nos livrar da baixa autoestima, podemos ter força interior para romper com a situação de violência, de relacionamentos abusivos, romper padrões; trocamos a roupa, o cabelo, mas não mudamos o sistema individualmente. Rompemos o relacionamento abusivo, mas 85% das mulheres têm medo de serem abusadas sexualmente, segundo pesquisa da Datafolha. Denunciamos a violência, mas não nos livramos dos assédios nos ônibus e metrôs. Estudamos e nos esforçamos muito, mas o cargo que buscamos ocupar na empresa, quando assumido por uma mulher, tem seu valor reduzido.

Lutar por liberdades individuais não rompe com a lógica do individualismo, pois a grande maioria das mulheres continua humilhada, espezinhada, oprimida. Não interessa à maioria das mulheres vítimas da opressão deste sistema que algumas tenham regalias, assumindo papeis considerados masculinos, mantendo privilégios apenas para algumas ou alguns. A cor, a raça, a origem, a religião não podem ser motivos nem de opressão nem de prerrogativas.

A opressão das mulheres é uma das bases de sustentação do sistema capitalista e só pode ser extinta coletivamente, se entendermos que as origens da nossa opressão coincidem com as origens deste sistema; a partir da nossa tomada de consciência coletiva dos malefícios deste sistema e que a opressão de gênero é uma expressão da opressão de classe.

O verdadeiro empoderamento das mulheres só vai ser possível em uma sociedade sem opressão de classe, onde todos possam ser valorizados pelo que representam para a sociedade e o poder seja coletivo e um direito de todos. Para construir esta sociedade, precisamos estar organizadas, denunciando todas as expressões do machismo, todas as discriminações que sofremos, lutando para destruir o verdadeiro causador de nosso sofrimento, o capitalismo, e construir em seu lugar uma sociedade onde possamos ter direitos iguais, o socialismo.

Guita Marly, Movimento de Mulheres Olga Benario Pernambuco

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