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Vladimir Maiakovski: Poeta da Revolução

A Revolução Bolchevique, que implantou o socialismo na Rússia e uniu em torno de si várias repúblicas, criando a União Soviética, completa um século. A Revolução não é um mar de rosas, é certo, pois rios de sangue correm para assegurar sua vitória. Se bem que, na Rússia, a tomada do poder foi incruenta; o sangue foi derramado graças às superpotências capitalistas que vieram em socorro aos seus sócios russos e provocaram a guerra civil de três anos (1918-1921). Mas o sangue das revoluções proletárias é provocado pelas classes dominantes, que não aceitam perder seus privilégios. Os revolucionários pegam nas armas e derramam sangue por amor, como dizia Che Guevara. Amor pelos oprimidos, pelos injustiçados e visando à construção de uma sociedade sem classes, sem exploração do homem pelo homem: o socialismo, gerador do comunismo, no qual “todos partilham os bens e não há necessitados” e “cada um contribui para a coletividade de acordo com suas capacidades e recebe de acordo com as suas necessidades”.

A revolução tem poesia também. Aliás, ela é uma verdadeira obra de arte, a qual tem como sua expressão maior na Rússia o poeta bolchevique Vladimir Vladimirovitch Maiakovski, o homem que pegava na caneta como um soldado pega a metralhadora. Exatamente, era a caneta a sua arma, pois, como afirma o romancista revolucionário brasileiro Jorge Amado, “a palavra é mais forte que bala de fuzil, corta mais que faca amolada”.

Vladimir Maiakovski nasceu numa pequena aldeia, chamada Bghadati, na Geórgia, numa família de camponeses pobres. Com a morte do pai, ainda criança, se mudou com a mãe para Moscou. Ela sobrevivia entregando marmitas nas pensões, local em que o garoto, que a acompanhava, teve acesso à literatura marxista, que o empolgou. Aos 15 anos, ingressava na ala bolchevique do Partido Operário Social Democrata da Rússia (POSDR), no ano de 1908. Tornou-se militante com a tarefa de propagandista, que fazia muito bem. Foi preso três vezes. Nas duas primeiras, logo foi liberado por falta de provas de sua militância, e na terceira amargou onze meses de detenção, período que aproveitou para ler os clássicos da literatura universal.

Um Poeta Futurista

Solto em 1910, entrou para a Escola de Belas Artes, da qual foi expulso algum tempo depois, em decorrência de sua adesão ao Movimento Futurista. Este Movimento nasceu na Itália em 1909, tendo como marco um manifesto assinado pelo poeta Filippo Marinetti. O Futurismo negava tudo o que era passado, defendia a liberdade de criação do artista, seja na literatura, seja nas artes plásticas.

O Futurismo europeu, em seu conteúdo, expressava os interesses da burguesia, valorizando as novas tecnologias e exaltando as guerras imperialistas. Mas a sua forma era revolucionária, razão pela qual os melhores artistas russos aderiram ao movimento, dando-lhe, porém, um caráter proletário, revolucionário. Apoiavam a Revolução Bolchevique e a propagandeavam em suas obras de arte.

Viva Lênin

Maiakovski foi o maior desses propagandistas. Instalado o governo bolchevique, ele se responsabilizou pela confecção de cartazes e panfletos estimulando a participação popular, o aumento da produção, as mudanças coletivas; criou também slogans e livros didáticos.  Fez um conceituado poema em homenagem a Lênin após sua morte (1924), no qual proclama: “Dessa bandeira / de cada dobra / novamente / vivo / Lenin conclama: / – Proletários, / formem-se / para a última batalha! / Escravos, / endireitem / as colunas e os joelhos! / Exército dos proletários, / levante-se esguio! / Viva a revolução, / radiante e veloz! / Essa – / é a única / grande guerra / de todas / que a história já viveu.

Um exemplo das conclamações feitas aos trabalhadores, por intermédio do poeta: “Haverá por acaso/liga de maior força/que a solidariedade da colmeia operária?”. Escrevia também peças de teatro, roteiro de filmes e outros textos. Fundou, em 1923, a revista Frente de Esquerda, buscando unir as diversas correntes que apoiavam o regime bolchevique.

Terminada a Guerra Civil, a tarefa é reconstruir o país, investir na produção, retomar o desenvolvimento econômico. O momento é mais do fazer que do lutar. A poesia de Maiakovski fora forjada na luta, e ele sente dificuldades. Os Comissários do Povo para a Cultura lhe pressionam para adotar formas mais simples de escrever para que os operários compreendam com mais facilidade. O poeta não recua e diz que não basta o conteúdo revolucionário; a forma artística precisa ser revolucionária também. Stálin lhe faz elogios, classificando-o de “o melhor, o mais talentoso poeta da nossa era soviética”.

O grande poeta anda entristecido por causa de sua relação conturbada com Lilia Brick, que não conseguiu romper o casamento para viver com ele.  No poema “Em Lugar de Uma Carta”, Maiakovski escreve para Lilia:

Afora o teu olhar/
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Maiakovski pôs termo à sua vida com um tiro no peito no dia 14 de abril de 1930. Deixou uma carta-despedida, na qual afirma:

“A todos:

De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso./Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída./Lília, ame-me./Ao governo: minha família são Lília Brick, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia./Caso torne a vida delas suportável, obrigado./Os poemas inacabados entreguem aos Brick, eles saberão o que fazer./‘Como dizem:/caso encerrado,/O barco do amor/espatifou-se na rotina./Acertei as contas com a vida/inútil a lista/de dores,/desgraças/e mágoas mútuas’./Felicidade para quem fica”.

Haveremos de vencer as ameaças!

Devemos, todos que acreditamos numa sociedade sem explorados nem exploradores, seguir o exemplo de Maiakovski, exceto quanto ao suicídio, mas na firmeza de quem em momentos difíceis, escreve: “…As ameaças e as guerras/havemos de atravessá-las e rompê-las ao meio/cortando-as/como uma quilha contra as ondas”.1

José Levino é historiador

1Trecho do poema “E então, o que quereis”, musicado pelo compositor brasileiro João Bosco, gravado no CD “Na Esquina Ao Vivo”.

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