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“Mulheres não se escondam, vivam!”

 Relato de uma acolhida da Ocupação Mulheres Mirabal
Eu fugi por medo, foi o último caso. Meu ex-parceiro tentou matar a mim e aos meus filhos. Nunca fui ajudada pelo Estado, a Mirabal surgiu como a única solução para mim. Tenho quatro Boletins de Ocorrência motivados por violência doméstica desde 2013. Já morei na rua, estive em alguns abrigos. Nesses abrigos do Estado não tive acompanhamento psicológico, não via ninguém, ficava perdida. Eu sofri outras violências dentro dos abrigos.
A Lei Maria da Penha não funciona na prática, ela existe desde 2007 e nada acontece. Não está funcionando: a Lei em vez de prender o agressor, prende a mulher, sem apoio de nada. O homem fica livre e a gente sai da sociedade, a gente fica escondida. Hoje eu não posso trabalhar de carteira assinada, porque ele pode me achar e eu posso morrer. Ele não. Carteira assinada, casa própria, tudo maravilhoso. Eu denunciei ele por agressão física, psicológica, sexual, tentativa de homicídio. Ele me aliciava, me obrigava a me prostituir.
Perdi oito anos da minha vida. Meus filhos mais novos ficaram muito agressivos, uns com os outros e comigo. Meus filhos mais velhos foram os que mais sofreram, eles apanhavam também. Na última vez, ele tentou atirar em mim. O Estado nunca esteve nem aí. Quando uma mulher morre, é só uma a menos para dar trabalho para eles.
Quando eu cheguei na Mirabal minha vida mudou. A Mirabal apoia as mulheres trans, as lésbicas, as estrangeiras, as de rua. Agora se uma mulher trans for procurar uma casa abrigo do Estado, elas não são aceitas. Na Mirabal todas são iguais. São amadas, são respeitadas, são acolhidas, é tudo igual. Na Mirabal eu tenho acompanhamento psicológico. Meus filhos também. Eles mudaram muito depois que vieram para cá. Mas o maior acompanhamento é a compreensão das meninas do Olga. A Mirabal ajuda homens que estão na rua também, sempre tem um prato de comida, uma roupa.
Eu tenho vontade de militar com outras mulheres. Já comecei e não vou parar quando sair daqui. A união das mulheres resulta em muitas mudanças. Quero levar o Olga Benário para a minha cidade, pois imagino que só acabando com esse modelo de Estado que vamos construir uma sociedade igualitária.
Mulheres, não se escondam. Procurem movimentos de mulheres, como o Olga Benário, não fiquem perdidas. A solução não está no papel, está no movimento.  E o movimento não é esse Estado, o movimento é o povo.
Mulheres não se escondam, vivam.
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