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Esperança dentro do trem

Andar de trem ressalta muitos sentimentos. Lembro-me ainda de quando era criança e pegava o trem com minha mãe e meus irmãos. Tudo acontecia dentro do trem.

Como criança, queríamos, sempre, tudo o que passava vendendo. Não entendíamos sobre o valor das coisas e, sobretudo, os doces que passavam vendendo, aos nossos olhos, eram maravilhosos. E realmente eram…

Sem delongas, olhávamos um para o outro, querendo tudo o que passava. Nossa mamãe, destituída de quase tudo, olhava para nós, e pelo seu olhar sabíamos que não era possível comprar. Tinha dias que era possível comprar algo, mas, na maioria das vezes, nada podíamos comprar.

O balanço do trem me dizia muita coisa. É esse vaivém que nos remete às turbulências da vida. E, de vez em quando, à calmaria depois das grandes tempestades.

Eu, particularmente, gostava de ir contando todas as estações. Uma forma mágica de me esquecer dos doces e ficar no mundo de cada bairro que, vagarosamente, ia passando.

Gosto do mundo da lua desde sempre, na maioria das vezes, de um mundo revisitado apenas por aqueles que gostam de pensar, pensar, pensar…

Um dia desses, já adulta, dentro do trem, percebi que um menino chorava muito e fazia pirraça, pois queria comprar um livro de mágica. Logo, remeti à minha infância e lembrei que naquela época não se vendiam livros de mágica. Ainda bem, porque não sei qual seria a minha atitude se vendesse um desses. O menino continuava num berreiro só e a mãe, não sei por que, cochichava ao pé do ouvido desse garoto que, talvez pela pequena idade, não compreendia que não era possível ter um livro lindo daqueles.

Fiquei observando aquela cena e tive que me manter em silêncio e logo tomar uma atitude, uma vez em que sempre estou no ímpeto de vagarosos lampejos de memórias. Fazer o bem é sempre uma experiência sem pormenores.

Ontem, eis que estou dentro do trem mais uma vez, e me deparo com um grupo de jovens, todos para mim desconhecidos, mas quando se luta pela causa torna-se de imediato um rosto conhecido. Esses jovens abriram a boca como quem tem fome de mudança e de justiça e começaram a discursar sobre o caos em que vive o nosso país. Um discurso bem arrojado porque sabem o que querem dizer.

Levantavam inúmeras bandeiras, por compreenderem que falavam em nome das juventudes que foram, que são e que ainda estão por vir: causa de mudança, quando nós adultos, muitas das vezes não temos muito em que ou em quem acreditar.

Essa lateralidade de tempos verbais, muito me encanta; quando se pensa unilateralmente pouco se ganha, mas quando se pensa universalmente, a luta é grande, traz fadiga, porém nunca esmorece. São incansáveis!

Em meio ao caos, à baderna, tudo se refaz, pelas mãos e pela sabedoria dos que não têm medo e que acreditam no que fazem. Falavam sobre várias situações limites vividas por tantos brasileiros, desde a reforma agrária e urbana, reforma política e social até a erradicação da fome, do extermínio do povo negro e pobre.

São jovens, e pulsa dentro deles a esperança, assim como na minha infância, quando não sabia o significado dessa palavra, mas que enquanto jovem ressoou inúmeras vezes dentro de mim, que sonhava um dia não mais comprar todos os doces dentro do trem, mas comprar aquele doce que me trouxesse esperança de um amanhecer melhor, mais justo, mais fraterno para todos. De um dia poder comprar o doce, seja qual fosse, para as minhas filhas.

E hoje, ao andar novamente pelo trem, fico a observar os vendedores ambulantes proibidos, que caminham de vagão em vagão, lutando pelo pão de cada dia e sabe lá mais o que. Isso não importa. Mera casualidade de um efeito que há de vir.

E se me perguntarem se hoje posso comprar os doces para as minhas filhas, não tem resposta. Simplesmente deixo para você pensar que dentro do trem acontece tanta coisa, inúmeros afetos e desafetos, que prefiro contemplar e dizer que nunca devemos permitir que calem os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas vozes.

Não pestanejei: tirei uma foto com eles e, de repente, de desconhecidos passaram a ser conhecidos. Juventude: minha causa, minha dedicação, minha missão, onde está o meu coração.

Suzete Trindade é usuária de trem no Rio de Janeiro e encontrou uma equipe da Unidade Popular pelo Socialismo no seu vagão recolhendo assinaturas para a legalização do partido

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