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Silvio Tendler e o Dedo na Ferida

O documentário Dedo na Ferida, do cineasta carioca Silvio Tendler, venceu a 19ª edição do Festival de Cinema do Rio na categoria Melhor Longa Documentário, eleito pelo júri popular. O filme traz para o debate o poder e a influência que o capital financeiro e as grandes corporações têm sobre os governos e as decisões econômicas.

Silvio Tendler produziu e dirigiu cerca de 80 obras de cunho histórico e social entre curtas, médias e longas-metragens e séries e é dono das três maiores bilheterias do documentário brasileiro.

A Verdade foi até sua casa, no Rio de Janeiro, para uma conversa sobre cinema, economia, política e sobre os novos projetos de um cineasta prestes a completar 50 anos de carreira.

Denise Maia, Rio de Janeiro

 

A Verdade – Sua obra no cinema é marcada pelo conteúdo social, com a percepção do povo e da história do nosso país. Dedo na Ferida é fruto da caminhada política da sua vida?

Silvio Tendler – Sim. Se você pegar desde começo, os meus filmes são uma grande construção histórica. Todo filme tem que ter um gosto de quero mais. Tenho que terminar o filme achando que faltou alguma coisa. Serão questões que irão alavancar os meus projetos futuros.

O expectador dos meus filmes deve saber que eles dialogam entre si, mas não obrigatoriamente de uma forma linear. Por exemplo: os filmes Os Anos JK, uma Trajetória Política (1980) e Jango (1984) têm a ver com o filme Tancredo, a Travessia (2011), que foi realizado muitos anos depois. E O Dedo na Ferida com os filmes Utopia & Barbárie (2009) e Encontro com Milton Santos (2006). Assim, vou construindo, numa caminhada longa, pequenas trilogias. Tenho Jango, JK e Tancredo. Milton Santos, Utopia & Barbárie e Dedo na Ferida. O filme Privatizações: a Distopia do Capital (2014) tem a ver um pouco com tudo isso.

O Dedo na Ferida, dentro dessa caminhada, representa a passagem do capitalismo produtivo para um capitalismo de papel, um capitalismo de cassino, como vários entrevistados se referem. As pessoas investem em papel, não existe nada de produtivo. Trocam dólar por real, que compra ações de uma determinada empresa, que depois vende e compra outras ações de outra empresa. Ganha muito dinheiro e não está produzindo nem um par de sapatos. Isso é o que o filme mostra e que faz ligação com os filmes anteriores.

No Dedo na Ferida você buscou várias vozes de economistas, sindicalistas, de gente da cultura, do cineasta Costa Gavras. Posicionamentos pontuais e diferentes, mas que permeiam a questão política e ideológica sobre o atual papel do capitalismo. Foi isso mesmo?

Sim. E tem a questão da justiça. Sobretudo a questão dos valores democráticos e dos direitos sociais. É tudo isso que está ameaçado. Quando se enfatiza a economia dentro do sistema financeiro, ocorre o esvaziamento de todas as questões sociais. Porque só 15 % são investidos na produção e 85% pertencem ao capital especulativo. Com isso, estão destruindo o sistema educacional, da saúde, da seguridade social, estão destruindo toda a qualidade de vida da cidadania. Além de atentar contra o futuro, porque terão que trabalhar mais tempo para garantir uma seguridade social que não irá atender os anseios de uma vida digna.

O personagem que aparece no Dedo na Ferida declara que não teve chance de estudar. Ele tem um curso técnico de podólogo, é autônomo e não tem carteira assinada. Pelas condições de vida desse personagem, pelo que ele descreve no filme, ele não conseguirá proporcionar aos filhos os direitos básicos, como o de estudar, de se formar conforme gostariam. Hoje, 50% do PIB brasileiro, tudo o que a nação arrecada, vão para pagar a dívida com os bancos. Isso não é justo! Quem paga essa dívida com os bancos somos nós trabalhadores. Essa vida que o capitalismo especulativo está construindo é injusta.

O filme aborda a globalização do capital, suas consequências danosas à sociedade, e apresenta como contraponto as mobilizações sociais para frear essas injustiças e a necessidade de pôr regras no mercado. Isso é possível?

O filme foi para abrir esse debate. Não quis fazer um filme doutrinário. Não quis colocar a minha posição. Sou anticapitalista, e dentro do capitalismo não há solução. Minha posição e convicção ideológica é o socialismo. Fiz um filme em que o expectador sai dizendo “sem comunismo não há solução”, mas também “se nós quisermos disciplinar o mercado financeiro, nós temos que desenvolver a economia”. Quis provocar o debate entre duas correntes ideológicas diferentes.

Então é um filme para cutucar, para provocar nas pessoas a reflexão do quanto é perverso e excludente esse domínio do mercado financeiro?

Sim.  O orgulho que tive com o resultado desse filme foi de conquistar uma plateia heterogênea. Tem gente que acha que existe solução dentro do capitalismo. Outras pessoas pensam diferentes. Então, o filme oferece elementos para nos fazer pensar. Nesse sentido, acho que o filme foi muito feliz.

E quais serão os próximos projetos para provocar a nossa reflexão?

Estou com uma quadrilogia para discutir o mundo em que a gente vive. Estou também com um filme sobre o Carlos Zéfiro, um desenhista das histórias em quadrinhos eróticos dos anos 1960, numa época em que a sexualidade era muito reprimida. Hoje vejo a necessidade de aprofundar esse debate porque há grupos muito fechados, com posturas sectárias. Estamos vivendo uma dicotomia no limite de questões doentias. Tem grupos muito fechados, dogmáticos, que estão defendendo que só negros podem falar sobre negros, só mulheres podem falar de mulheres. Esse discurso e prática rompem com uma coisa que é fundamental que é a unidade coletiva. Então, esse filme sobre Zéfiro vai trazer uma provocação necessária para a sociedade.

Outros projetos são Nas Asas da Panam, um filme autobiográfico, uma continuidade de Utopia & Barbárie; Santiago das Américas, um olhar sobre o Terceiro Mundo; Alegria de Palhaço, que estou fazendo com Amir Haddad, uma crítica voraz sobre esse mundo em que estamos vivendo.

Com esses quatro trabalhos fecho um ciclo, em 2018, quando completo 50 fazendo filmes.  

Alguma mensagem para o público do jornal A Verdade?

Vou contar uma conversa que eu tive, em 2003, com o general vietnamita Vo Nguyen Giap, fundador do Exército Popular do Vietnã ao lado de Ho Chi Minh, fundador do Partido Comunista do Vietnã.

Em 2003, o mundo acompanhava as ameaças de Bush contra o Iraque, o que poderia provocar possivelmente uma 3ª Guerra Mundial. Então, perguntei ao general Giap, na época com 94 anos, o que ele achava daquilo tudo e como via aquele momento. Ele me respondeu que, com 54 anos queria resolver os problemas em 15 dias, mas que hoje ele pedia mais de um século para sanar esses problemas. Então, a mensagem para os leitores do jornal A Verdade é: “calma, paciência, perseverança e tenacidade, porque iremos vencer essa parada!”.

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