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A febre amarela e o desmonte da Saúde Pública

A febre amarela é a doença da vez. Rádio, televisão e jornais dão a todo minuto notícias sobre casos novos, vacinação, tipos de vacina, quem pode ser imunizado, etc. É a grande questão de saúde no país.

O primeiro esclarecimento a ser feito à população é: não existe um “surto” de febre amarela. Há pouquíssimos casos de sujeitos infectados. Quem transmite a febre é um mosquito, que não é o mesmo que infecta macacos. “O mosquito que pica o macaco (Haemagogus janthinomys) é diferente do que pica o homem (Aedes aegypti). O primeiro vive na mata fechada, enquanto o segundo dentro da sua casa”, explica o infectologista Nagil Gorayeb.

O que chama a atenção e merece uma boa reflexão é a irresponsabilidade dos secretários municipais de saúde do Rio de Janeiro e de São Paulo, dos secretários estaduais e do ministro da Saúde. Estão promovendo uma correria aos postos de vacinação sem ter se articulado com a Fiocruz para saber do estoque, do controle e da possibilidade de se promover uma vacinação em massa. Os epidemiologistas não recomendam essa medida, por absoluta falta de necessidade neste momento.

Então, por que o governo e a imprensa estão em campanha pela vacinação massiva?

Primeiro, para distrair a população sobre o corte no investimento em prevenção, medicamentos e custeio, principalmente da atenção primária à saúde. Os salários dos profissionais das Clínicas da Família, que são responsáveis pelo atendimento, vacinação e orientação da população, continuam atrasados na cidade do Rio de Janeiro e os medicamentos estão sendo aguardados desde a primeira quinzena de dezembro do ano passado. Houve, inclusive, um ato dos profissionais de saúde, duramente reprimido com bombas de gás, no dia 11 de janeiro, em frente à Prefeitura do Rio de Janeiro, exigindo a recomposição dos investimentos, medicamentos e o pagamento desses profissionais.

Segundo, com essas ações procuram desqualificar, cada vez mais, a saúde pública. Ou seja, faltará vacina e a responsabilidade recairá sobre o sistema público inteiro, incluindo a Fiocruz, os hospitais federais, estaduais, municipais e os postos de saúde. É uma ação orquestrada, que tem como objetivo apontar a privatização da Saúde como saída para dar mais “eficiência” ao sistema.

Terceiro, querem desviar o foco da mídia do governo e da política, distraindo a população com algo grave e preocupante, que é a saúde de todos.

Os casos de febre amarela começaram no ano passado, em cidades pequenas do interior paulista. O que foi investido em prevenção desde então? Não se produziu vacina suficiente e, agora, a dose terá que ser fracionada, obrigando os vacinados a repetir a vacinação daqui a oito anos. Não foi realizada uma campanha de conscientização para que a população se resguardasse do contágio da febre amarela silvestre e de qual é o verdadeiro transmissor da doença (o mosquito Haemagogus), evitando que macacos sejam mortos. Tampouco há combate ao mosquito Aedes aegypti, que pode transmitir, além da dengue e da chikungunya, a febre amarela urbana.

Além disso, não esqueçamos do crime ambiental da barragem da Samarco em Mariana. Fora as vidas humanas que foram ceifadas, peixes, sapos e outros predadores das larvas e dos mosquitos que transmitem a febre amarela foram dizimados.

Isso tudo é fruto da política do Governo Temer de corte de verbas e congelamento de investimentos na área pública por 20 anos, aliado ao uso político e ideológico que as autoridades de saúde brasileiras fazem da situação, pois desprezam o sofrimento do povo e só têm olhos para o que vão ganhar de propina com a venda de hospitais, postos de saúde e institutos de pesquisa.

Nayá Puertas, diretora do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, e Leonardo Villela de Castro, professor da Unirio

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