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Copa do Mundo: a hipocrisia da direita xenofóbica

A Copa do Mundo de Futebol da Fifa de 2018 chamou a atenção por um dado interessante: a grande quantidade de jogadores nas seleções europeias com origem estrangeira, a maioria africanos. Esse fenômeno não é novo, mas ganha destaque com o crescimento da xenofobia e do racismo dos quais os imigrantes são vítimas naqueles países.

Para se ter uma ideia, alguns dados: a equipe francesa foi formada por 78,3% de jogadores com origem estrangeira (nascidos em outro país ou filhos de pais que migraram de outros países para a França) enquanto as pessoas com origem estrangeira no país representam apenas 6,8% da população; a Bélgica possuía 47,8% de seus jogadores com origem estrangeira, mas apenas 12,1% de pessoas com origem estrangeira na população; a Inglaterra possuía 47,8% da equipe e 9,2% da população nessa condição; e a Alemanha, 39,1% da equipe e 11,3% da população.

Atualmente, o mundo vive uma profunda crise humanitária, o número de refugiados de guerra hoje é o maior da história. A política de intervenção dos países imperialistas na África, no Oriente Médio e na América Latina causa guerras sanguinárias e aprofunda cada dia mais os conflitos sociais nesses países. Somado aos frutos da exploração e de centenas de anos de colonização e neocolonização dessas regiões pelos capitalistas, temos um verdadeiro caos marcado por condições de vida desumanas para a população.

Não à toa, a questão dos refugiados e imigrantes tem sido central na política internacional. As eleições para chefe de Estado têm cada dia mais colocado esse ponto no centro do debate, tanto na Europa quanto nos EUA. Crescem, neste momento em que o capitalismo internacional está em crise e que o Estado de bem-estar social está sendo destruído na maioria dos países, dando lugar a políticas de contenção de gastos sociais que massacram a população, a ideias xenofóbicas, racistas e fascistas.

Para a extrema-direita, tanto nos EUA representada pelo presidente Donald Trump, quanto na Alemanha representada pela AFD (Alternativa para a Alemanha, partido fascista em ascensão no país) ou na França, por Marine Le Pen (segunda colocada nas eleições presidenciais de 2017), um dos maiores problemas dos países europeus e dos EUA é o grande número de imigrantes e o alto custo que teoricamente eles dariam para o Estado através das políticas sociais.

Esse discurso, além de ser desumano e servir apenas para iludir o povo e desunir a classe trabalhadora, está completamente errado em sua essência. Primeiro, porque o que causa crises econômicas nos países ao redor do mundo, os altos níveis de desemprego, a queda da condição de vida e mesmo a estagnação da ciência e da tecnologia em muitos casos, é o capitalismo, e não os refugiados.

O Estado não tem dinheiro para garantir o investimento na melhoria da vida do povo porque gasta seus recursos para elevar o lucro dos grandes capitalistas, os mesmos que controlam os governos. Cada dia mais, o setor financeiro domina a economia e a especulação é mais valorizada que a produção de bens reais, o que leva países onde se pode produzir tudo que é necessário para a população a terem seres humanos vivendo na mais completa miséria. Se o objetivo dos governos dos países imperialistas fosse garantir bem-estar para o povo e não lucros gigantescos para os banqueiros, não haveria desemprego e carestia.

Em segundo lugar, as condições de vida desumanas enfrentadas nos países da periferia do capitalismo, de onde saem os refugiados em busca de uma vida mais digna, são em grande parte culpa dos próprios governos dos países ditos desenvolvidos. Não fosse a superexploração do trabalho e dos recursos naturais, a escravização do povo, a destruição da soberania nos países pobres por parte desses governos durante séculos, a situação hoje seria muito diferente.

Os imperialistas, sendo o maior exemplo os EUA e a União Europeia através da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), mas incluídos também Rússia, Israel, China e Japão, promovem guerras e miséria nos países mais pobres, financiam governos ditatoriais ou grupos terroristas que oprimem a população, e tudo com o objetivo de ter nesses países inesgotáveis fontes de lucro. Os culpados pela crise de refugiados no mundo não são os refugiados em busca de boas condições de vida, mas os capitalistas! E estes não podem simplesmente construir um muro ao redor de seus países, colocar crianças estrangeiras em jaulas e fingir que não têm nada com isso, como tem feito o fascista Donald Trump.

Por último, e as seleções da Copa do Mundo são um bom exemplo para ilustrar essa questão, a riqueza dos países desenvolvidos se deve aos países subdesenvolvidos. Fomos nós que financiamos com nosso trabalho, suor e sangue o enriquecimento deles. Foi da África que saiu a mão de obra que construiu as colônias, da América que saiu o ouro e as demais riquezas que financiaram a Revolução Industrial e a expansão econômica da Europa, etc., assim como é dos países pobres que saem os atletas que ajudam a colocar as seleções nacionais dos gigantes europeus no topo do esporte. O maior jogador francês de todos os tempos, por exemplo, Zinedine Zidane, craque da primeira seleção francesa campeã do mundo, é filho de imigrantes da Argélia (país colonizado pela França), e o craque atual desta seleção, agora também campeão mundial, Kylian Mbappé, é filho de pai camaronês e mãe argelina (Camarões também foi colônia francesa). Os dois craques nasceram e se criaram em regiões periféricas da França.

A riqueza dos países ricos foi construída sobre os ombros dos países pobres da América Latina, África e Oriente Médio e, ainda assim, sofremos hoje com dívidas criminosas e impagáveis que os “credores internacionais” nos empurram goela abaixo.

A presença de um grande número de filhos de estrangeiros nas seleções nacionais dos países europeus ilustra a hipocrisia da extrema direita fascista e xenofóbica: os imigrantes dos países pobres não servem para viver em seus países e partilhar dos seus lucros, mas servem para carregá-los nos ombros e fazê-los enriquecer e desenvolver suas nações, seja no esporte, seja na economia.

João Gabriel Coelho, São Paulo

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