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“Estupro como ato de amor?”: Mulheres da UFABC realizam ato contra professor misógino

Na noite do dia 3 de outubro, estudantes da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo (SP), mobilizaram um ato contra um professor misógino, que durante uma aula de Bases Matemáticas fez piada com casos de estupro, inclusive simulando ser uma mulher vítima desse tipo de violência.

Essa não é a primeira vez que as mulheres da UFABC enfrentaram casos de machismo em sala de aula. No mesmo ano, um professor de engenharia expôs uma estudante em uma sala composta predominantemente por homens, afirmando que para passar na matéria a mesma precisava apenas mostrar que sabia cozinhar, restringindo a capacidade das mulheres às tarefas domésticas. Além disso, em julho, um dos banheiros femininos da Universidade foi invadido por um homem na tentativa de fotografar uma aluna em situação de nudez.

Tais casos insistem em nos mostrar que as mulheres estão organizadas para lutar contra o machismo e a misoginia, sem jamais tolerar que temas como a vida da mulher se transforme em piada.

O ato teve início com a confecção de cartazes com mensagens de repúdio que foram
colados em todas as paredes do auditório onde a declaração do professor havia sido feita, três dias antes. Em seguida, todos os homens se retiraram, de modo que ao entrar no ambiente o professor foi surpreendido por um auditório repleto de mulheres em protesto, nos projetores que ficam à frente da lousa encontrava-se projetada sua fala. O mesmo começou afirmando que podíamos tirar os cartazes, pois aquilo, nas palavras dele, não o representava, já que a piada havia sido um “mero” deslize. Então, a presidente do DCE, Sara Lorena, militante da UJR, o interrompeu mostrando que o espaço deveria ser das mulheres, que declararam em alta voz a mensagem dos cartazes:

“Nem todo homem é estuprador, alguns estupram, alguns riem do estupro, alguns
gravam o estupro do ‘parceiro’, alguns contam piada de estupro, alguns riem das piadas, alguns acobertam os parceiros, alguns incriminam as vítimas. No Brasil, ocorrem 12 casos de feminicídio e 135 estupros contra a mulher. Na boca de machista isso vira piada, não aceitaremos caladas: Pede pra sair. Estupro é crime, não toleramos!”.

Em seguida, foi lida a seguinte nota de repúdio:

“No dia 01 de outubro de 2018, em uma conjuntura que forçou o levante das mulheres
nas ruas contra a perpetuação do machismo e o fascismo e após a ocupação realizada por mulheres de um espaço para que se torne uma casa de referência no ABC(1) para outras mulheres vítimas de violência sexual, física ou verbal, em uma sala de aula na Universidade Federal do ABC, que se diz à frente no que toca o respeito à diversidade e às minorias políticas, ouvimos de um professor um discurso explicitamente machista, que não só incita, como romantiza o estupro e o coloca como passível de agradecimento por parte da vítima, em suas palavras, citamos: ‘Você consegue responder por que você nasceu? Você nasceu de um ato de amor. Até se fosse de estupro não tinha problema… Até se fosse de estupro. Você é metade de papai e metade de mamãe: ‘quem é papai?’ ‘o cara que estuprou a mamãe’… Ué… Mas não tem isso? Não existe? Agora vai chegar pro teu filho e falar assim… Eu, por exemplo, se fosse uma moça hoje e tivesse um filho nessa condição, eu ia valorizar o pai dela, da criança né… Eu ia falar assim ó: ‘Você nasceu de um ato de amor, um pouco forçado, mais nasceu né’ […] Diante de toda trajetória, o Diretório Central de Estudantes, junto ao Movimento de Mulheres Olga Benario – SP, o Coletivo UFABC, o Coletivo Negro Vozes – UFABC, todos os estudantes que presenciaram, mas, essencialmente, todas as mulheres, repudiam a postura adotada pelo professor. Não aceitaremos que esse tipo de situação acometa nossas mulheres e saia impune. Não aceitaremos que continue se perpetuando a ideia de normalidade do que constitucionalmente é um crime, mas, que para além do papel, traz consequências profundas e irremediáveis, ferindo, oprimindo e dizendo que espaços como as salas de aula não são para nós. Nesse momento exigimos ações concretas para além do apoio verbal de sempre. Não basta se dizer contra o machismo, o assédio, o estupro e permitir que tais discursos se propaguem livremente. Logo, queremos não somente a punição verbal, como o afastamento do indivíduo e a punição legal. Acreditamos que essas sejam as medidas mínimas para mostrar a todas que se sentiram pessoalmente atingidas que machistas e estupradores não passarão […]”

No mesmo dia, o professor informou o pedido de afastamento e, assim como a nota, o
vídeo do ato foi postado na página do DCE, com intuito de servir para fortalecer a luta das mulheres, pressionar os órgãos institucionais a dar o devido encaminhamento frente à denúncia que foi formalizada e divulgar o compromisso das estudantes e dos coletivos citados contra toda forma de opressão que acomete as mulheres, contra o fascismo que se alastra e se reflete no descaso com a vida daquelas que são diariamente vulnerabilizadas. Enfatizamos ainda o contato feito pela Universidade com o DCE para a construção conjunta de políticas sólidas de combate ao assédio e amparo das vítimas.

A solidariedade das estudantes que não estavam na aula e a força daquelas que lutaram mesmo abaladas pelo gatilho da fala do professor, demonstram que a conjuntura exige que atitudes como essas sejam combatidas através da luta organizada de todos aqueles que se colocam contra as opressões!

Jady Oliveira, Movimento de Mulheres Olga Benario (SP)

Nota:

1 Menção à Ocupação realizada pelo movimento de Mulheres Ola em Mauá para que se torne Casa de Referência da Mulher – Helenira Preta.

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