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Feminismo e marxismo: qual é a contradição?

É muito estranho, para uma mulher de esquerda, não se declarar feminista. Talvez, hoje, essa seja uma das maiores confusões teóricas entre as jovens do movimento feminino – especialmente entre as comunistas. Isso porque, erroneamente, foi imposto para as mulheres que toda conquista ou luta em prol da vida das mulheres se resume ao conceito de feminismo. Para liquidar as dúvidas e equívocos sobre o assunto, é preciso começar a compreender a origem do movimento feminista e as próprias contradições internas dele. Ultrapassando essa barreira, as jovens marxistas entenderão, por fim, seu dever e função na luta das mulheres.

É correto afirmar que as mulheres, sejam elas burguesas ou trabalhadoras, sofrem com o machismo estrutural e as opressões de uma sociedade formada sobre bases patriarcais. No entanto, também é correto dizer que as suas condições de classe promovem níveis de exploração diferentes. Quer dizer, na prática, a mulher burguesa ainda sofre com o elo do matrimônio baseado no dinheiro e a necessidade de desempenhar o papel subserviente de esposa – sem serem levados em consideração seus desejos e aspirações pessoais.

No entanto, a ela não é negada a liberdade de obter conhecimento, de desenvolver suas aptidões intelectuais, de frequentar espaços de lazer e arte, de poder trabalhar sem se preocupar com a educação dos filhos e a manutenção da casa – afinal, essa função compete às trabalhadoras (empregadas e babás, respectivamente) e até de conquistar independência financeira.

As mulheres proletárias, por sua vez, deixam os lares para vender a sua mão de obra em troca de um salário, muitas vezes menor que a remuneração dos homens, pela necessidade do sustento. O matrimônio, nesses casos, é mais comum que seja motivado pelo amor verdadeiro – pois a perspectiva da conservação de herança não é uma realidade. Ou seja, mesmo que o homem trabalhador absorva a ideologia dominante e também tenha manifestações machistas, ele abre mão de ter a mulher em casa para ajudá-lo a pagar as contas no fim do mês.

Entretanto, a tarefa doméstica e cuidados com o marido, filhos e idosos da família é, via de regra, uma tarefa delas. Com a carga de exploração capitalista e alienação do trabalho, não sobra tempo nem disposição para essas mulheres se formarem intelectualmente ou usufruir de algum tipo de lazer. Além de serem excluídas do acesso à arte e educação.

A partir dessas constatações, conseguimos observar que as condições de classe distanciam esses dois tipos de mulheres. É bem verdade que a luta por igualdade salarial sem distinção de gênero, direitos trabalhistas, garantias no período de gravidez, entre outros direitos são pautas que podem convergir entre a mulher burguesa e a trabalhadora. A questão é que as pautas da proletária não param aí. O fim da jornada dupla ou tripla, o acesso ao conhecimento, a arte e ao lazer ficam esquecidas. O motivo? Os interesses de classe. E, assim, chegamos a grande limitação do feminismo.

Para visualizar melhor, vamos esclarecer: o feminismo tem origem no campo burguês, portanto é natural que defenda apenas as pautas que permeiam a superestrutura – as condições de trabalho, a sexualidade, o matrimônio, a representação, a identidade e outros pontos. Ou seja, não promove nenhuma ruptura ou transformação da infraestrutura (no tocante as relações de produção).

Em democracias mais desenvolvidas, como nos países europeus, por exemplo, essas demandas superficiais foram facilmente atendidas em pleno século 20. Mas não nos enganemos, os capitalistas não são bonzinhos por isso: o intuito foi e sempre será desenvolver e “modernizar” o próprio capitalismo. Se não fosse para o benefício da continuidade do sistema, jamais haveria mudança. Na prática, a emancipação da mulher no mercado de trabalho aumenta a concorrência e esse fator faz o liberalismo econômico se fortalecer. “Quanto maior a procura por empregos, mais reféns das grandes corporações haverão”, é o pensamento simplista dos liberais.

No Brasil, a democracia é tão frágil, atrasada e dificultada pelo fenômeno “liberal na economia e conservador nos costumes” que até essas pautas mais simples são travadas. Portanto, é mais do que certo que essas reivindicações estejam no programa de luta das comunistas, mas é imprescindível que olhemos além delas.

Afinal, a realidade atual é que, enquanto grupos se reúnem nas universidades para debater sobre a liberdade sexual das mulheres, a contradição fundamental da mulher trabalhadora é não conseguir ir para o emprego porque não tem creche no bairro onde mora. Isso é: além dessas questões superestruturais (como a sexualidade) não serem sanadas (talvez sejam apenas amenizadas) no capitalismo, elas são completamente transversais a condição econômica. Em outras palavras, a verdadeira libertação das mulheres só será possível com o fim do capitalismo.

Apesar dessa constatação ser facilmente absorvida pelas marxistas, elas ainda apelam para aderência a correntes do feminismo – como, por exemplo, o “feminismo classista”. Essa confusão não é um grande problema, é apenas uma vontade inconsciente de se encaixar nos meios acadêmicos e o pouco conteúdo teórico que as comunistas têm produzido sobre o assunto. No entanto, o próprio nome (“feminismo classista”) carrega um paradoxo intrínseco.

O feminismo é de origem burguesa e se baseia na ideia que a contradição fundamental para o bem-estar da mulher na sociedade é oriundo da contradição homem-mulher, logo não é encontrada na luta de classes. Pelo contrário, é restrito a manutenção do próprio capitalismo como uma espécie de humanização do sistema excludente do capital. Portanto, camaradas, o marxismo vos contempla. E mais: não é nosso dever combater as feministas, mas elevar suas consciências.

Segundo a dirigente, líder do Movimento Feminino internacional e comunista, Clara Zetkin, em seu discurso no Congresso do Partido da Social Democracia da Alemanha (1896), em Berlim, não podemos nos deixar enganar pelas tendências socialistas no movimento feminino burguês – que só persistirá enquanto a burguesia feminina se sentir oprimida. “As lutas pela emancipação das mulheres proletárias não podem ser comparadas às lutas que as mulheres da burguesia enfrentam contra os homens de sua classe.

Ao contrário, elas devem empreender uma luta unitária com os homens de sua classe contra toda a classe capitalista”. Vale ressaltar que as mulheres pequeno-burguesas, oscilantes pela natureza de sua classe, precisam ser disputadas com o objetivo de compreender que a opressão das mulheres só terá fim quando os trabalhadores e trabalhadoras estiverem no poder.

Um exemplo prático e próximo de que tal proeza é inteiramente possível é a experiência da União Soviética (URSS). Antes mesmo do crescimento do movimento feminista, que se deu durante o século 20 na Europa (principalmente na Inglaterra e na França), a URSS já estava muito a frente na implementação de políticas para as mulheres. Sob a ditadura do proletariado, o governo do Partido Comunista juntamente com os sindicatos se alçaram incansavelmente para eliminar os atrasos dos homens e das mulheres a fim de destruir a velha mentalidade.

A mulher foi introduzida na economia social, no poder legislativo e no governo; as portas das instituições educacionais foram abertas para elas aumentarem sua capacidade intelectual, profissional e social; o aborto foi legalizado e considerado um assunto de saúde pública (embora o aborto tenha voltado a ser repreendido no período entre guerras); o direito ao divórcio foi garantido; foram criadas cozinhas comunais e restaurantes, lavanderias, laboratórios, creches, jardins de infância, casas para crianças e institutos educacionais de toda espécie.

Além disso, foram elaboradas as leis protetoras mais avançadas do mundo que os dirigentes sindicais puseram em prática; foram construídas maternidades e clínicas femininas; e foram organizados cursos de puericultura¹ e exposições para ensinar as mulheres a cuidar de si e dos seus filhos.

Quer dizer, foi criado um sério programa de transferência para a sociedade as funções educativas e econômicas do núcleo familiar. Nem em centenas de anos de capitalismo tais avanços foram vistos como em uma experiência socialista no mundo. Essas informações podem ser encontradas na conversação entre Lênin e Clara Zetkin sobre os trabalhos do movimento feminino (1920).

Na atualidade, o discurso pós modernista² universitário está crescendo e tomando conta da consciência dos nossos jovens como uma metástase. As performances, o vulgo “textão” nas redes sociais e os atos lúdicos são meras alegorias e símbolos de uma luta mais profunda e complexa. E mais: não atingem e não transformam as principais mentes desse processo, que são as das trabalhadoras.

Apesar de bem-intencionado, o movimento feminista é raso, não contém uma teoria nem uma prática completa para a libertação das mulheres e de todas as vítimas do capitalismo. O marxismo nos dá a compreensão teórica através do materialismo histórico e dialético, além de nos permitir adaptá-lo a nossa realidade a fim de encontrar as nossas táticas e estratégias.

Não é a toa, camaradas, que o feminismo foi um dos principais inimigos do movimento feminino (de concepção marxista) outrora. Financiado pelos burgueses, o feminismo disputou a consciência das mulheres trabalhadoras no intuito de adormecer seus ímpetos revolucionários. Portanto, vamos além. A luta é árdua, profunda e desgastante. O nosso dever é de emancipar a mulher no capitalismo, mas também sua mentalidade e capacidade combativa. O papel das comunistas é trazê-las para o nosso lado e educá-las para defender seus interesses enquanto trabalhadoras.

Lembremos: sem as mulheres, não haverá revolução.

Tatiana Ferreira – PE

¹ – Ciência que reúne todas as noções, desde as fisiológicas, de higiene até sociológicas, favoráveis ao desenvolvimento físico e psíquico da criança desde a gestação até a puberdade.

² – Conceito sociológico que surgiu no século 20, após a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, e marca o capitalismo da era contemporânea. Esse movimento sociocultural se tensiona em tentar responder questões superestruturais, considerando a sociedade um universo imagético, de signos e ícones, relativo e transcendente.

 

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