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Entrevista com Gustavo López, candidato à vice-presidência do Uruguai pela Unidade Popular

O Jornal A Verdade esteve com Gustavo López, candidato à vice-presidência nesta eleição, ao lado de Gonzalo Abella, pela Unidade Popular (UP) nas eleições presidenciais do Uruguai.

Priscilla Santos e Hernán Lema


Foto: Reprodução

URUGUAI – No próximo dia 27 de outubro o Uruguai passará por eleições presidenciais. Depois de quase 15 anos e três governos da Frente Ampla, o Uruguai passará pela eleição presidencial mais acirrada desde o início de seus mandatos. O cenário é de candidatos como Lacalle Pou, pelo Partido Nacional e Ernesto Talvi, pelo Partido Colorado, que se apresentam com alianças e apoios de empresários milionários e ex-comandantes defensores de torturadores.

Pela Frente Ampla, em uma coalização chamada de centro-esquerda, o candidato será o ex-prefeito de Montevidéu, Daniel Martínez.

Jornal A Verdade: Qual é o balanço que você faz dos governos da coalização, da Frente Ampla?

Gustavo López: A Frente Ampla é no Uruguai uma força política que tem 45 anos. Em suas origens surge como a síntese do que havia de mais avançado no movimento popular em matéria programática, da fusão do movimento operário com o movimento estudantil e a intelectualidade. Surge no final da década de 60 e início da década de 70, período marcado por uma crise extraordinária pela qual passava o Uruguai. Existia no país um movimento operário muito forte e uma dezena de organizações armadas, entre elas a mais expressiva chamada MLN – Tupamaros (Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros), e um Partido Comunista de orientação reformista que controlava o movimento operário e sindical em seu conjunto. Desta forma, nasce a Frente Ampla como uma união entre marxistas, cristãos, pessoas oriundas dos partidos tradicionais – como são chamados os partidos da direita no Uruguai – em um contexto de uma América Latina marcada pela efervescência social e política. O programa original da Frente, de 1971, era um programa anti-imperialista, anti-oligárquico, que compreendia um conjunto de medidas socializantes tais como o não pagamento da dívida externa, nacionalização do comércio exterior e promover a reforma agrária. O primeiro documento público da Frente Ampla se chama “As 31 medidas de governo” e é um documento interessantíssimo por que defende exatamente o contrário do que a Frente fez quando se tornou governo, ou seja, romper com o Imperialismo, nacionalização do comércio exterior, melhorar condições de aposentadoria, enfim, começar um caminho que na época era popularmente chamado de “libertação nacional”. É claro, é preciso colocar esta concepção em questão, pois o programa não enfrentava o problema da burguesia nacional e seu poder.

No período da ditadura militar, a Frente Ampla enquanto partido e as organizações sociais que aderiam ao seu programa foram um pilar da resistência à ditadura. Durante o período houveram 191 desaparecidos, quase 5 mil presos políticos submetidos a condições terríveis de tortura, centenas de milhares de uruguaios exilados, muitos deles no Brasil, que faziam parte da força social que a partir da Frente Ampla e de um grande processo de luta, enfrentou a ditadura. Em 1985, período de abertura democrática, governado pelo Partido Colorado, a Frente Ampla começa a passar por uma transformação pautada pelo que poderíamos chamar de “adaptacionismo sistêmico”, e chega ao governo pela primeira vez no ano de 2005. 15 anos após a chegada da Frente Ampla ao governo, nenhum dos aspectos centrais da estrutura econômica do país foram modificados, pelo contrário, em alguns casos foram modificados em benefício das classes dominantes, tais como a propriedade da terra e o aparato produtivo, a questão dos direitos humanos e a relação com os trabalhadores. A Frente Ampla hoje transformou-se, de um partido com um programa nitidamente anti-imperialista e anti-oligárquico, em um partido pretensamente socialdemocrata em seu primeiro governo e abertamente social-liberal no segundo. Eu diria muito parecido com a política de Lula, cuja origem foram as greves do ABC paulista e o movimento operário e que termina de mãos dadas com o FMI e a corrupção. Este é o processo natural que percorre o oportunismo e seus governos: resultam em regra em serem sucedidos pela direita e não pela revolução, pois os governos dos partidos oportunistas visam desarticular por um período prolongado, as expectativas de enfrentamento do movimento operário, as lutas do campo popular, enfraquecendo a organização da classe trabalhadora e dividindo sua direção. Temos naturalmente um balanço negativo com relação aos governos da Frente Ampla e acreditamos ser necessário reconstruir a esquerda uruguaia, e esta tarefa cabe de certa maneira a Unidade Popular, ou seja, reconstruir a perspectiva de esquerda socialista no Uruguai, entendendo que essa é uma necessidade da etapa atual, e colocar a luta pelo socialismo de volta como tema central nos debates políticos.

Jornal A Verdade: Qual o programa político da Unidade Popular?

Gustavo López: Nós temos um programa de governo construído a partir da heterogeneidade da própria Unidade Popular. A Unidade Popular é uma força dentro da qual convivem perspectivas ideológicas diferentes, experiências militantes diversas e uma grande heterogeneidade de visões de mundo, digamos assim. De todo modo, o programa da Unidade Popular é um programa que em essência recupera o programa histórico da esquerda uruguaia de 1971. Defende medidas que possuem o objetivo de romper com a dependência do país frente aos grandes centros do capitalismo internacional, a nacionalização de setores estratégicos da economia, o rompimento com a dívida externa com a suspensão de seu pagamento e coloca a classe trabalhadora como portadores de um projeto histórico próprio nas principais disputas políticas do país. Frente a uma visão “mercadocêntrica” hegemônica, nós defendemos um projeto em que a questão do trabalho tenha prioridade, que coloque os trabalhadores no centro do projeto nacional e em posição de enfrentamento com os interesses do capital. Portanto a Unidade Popular, com toda sua diversidade, poderia se dizer que possuí um programa avançado, de esquerda, e de recuperação da tradição de luta do povo uruguaio.

Jornal A Verdade: Quais os impactos da crise econômica e política pela qual passa o Brasil e também da crise econômica argentina sobre o Uruguai?

Gustavo López: O Uruguai é um país pequeno que sempre teve um nível grande de dependência em relação aos seus vizinhos maiores, o Brasil é, por exemplo, nosso maior comprador de produtos lácteos, uma indústria central para nossa economia. As crises na Argentina e no Brasil sempre tiveram um impacto negativo no Uruguai, a indústria do turismo é uma indústria que emprega milhares de pessoas em nosso país e é muito afetada pela das crises argentina e brasileira, portanto há uma preocupação pelos efeitos dessa crise. Do ponto de vista político, diversas organizações em nosso país repudiam ativamente a presença de Bolsonaro e sua política antipopular e fascistizante. A respeito ao governo de Lula reafirmamos nossa avaliação a respeito da tendência histórica dos governos dos partidos oportunistas, como na questão anterior, a decepcionar as massas com suas políticas e abrir o caminho para a restauração da direita. Portanto, não achamos que a alternativa para o Brasil esteja entre Lula ou Bolsonaro. Trata-se, assim, como nos demais países da américa latina de construir uma alternativa de esquerda de verdade, dos trabalhadores, socialista, que não renuncie o comunismo, esta é nossa perspectiva. Sobre a polarização Lula x Bolsonaro, é evidente que não se trata de dizer que ambos são a mesma coisa, acredito que a prisão de Lula é injusta e que se trata de um processo montado, portando sou a favor de sua liberdade, mas não creio que ele represente um projeto a favor dos trabalhadores e do povo, anticapitalista e menos ainda de aproximação ao comunismo.

Jornal A Verdade: Qual é a perspectiva da Unidade Popular para as próximas eleições?

Gustavo López: Temos expectativas em aumentar nossa presença no parlamento, contamos atualmente com apenas um deputado, e acreditamos que podemos conquistar no próximo período pelo menos dois. Existe também a possibilidade de construirmos uma bancada no senado. É um desafio difícil, por conta do estado atual das massas, como falamos anteriormente, e o nível de desenvolvimento de suas lutas, resultado do efeito arrefecedor que gerou a Frente Ampla no campo popular. No Uruguai é muito provável que ganhe um partido de direita nas próximas eleições, então, frente a um panorama complexo nós acreditamos possível desenvolver um crescimento limitado, mas constante, que permita colocar um companheiro no parlamento com a missão de apresentar uma perspectiva no sentido do socialismo.

Jornal A Verdade: No Brasil enfrentamos dificuldades com o atual governo que suspendeu os trabalhos de investigações dos crimes da ditadura. Como se dá a política de investigação dos crimes da ditadura no Uruguai?

Gustavo López: Essa questão é um tema, do ponto de vista simbólico, talvez afetivo, de um dos golpes mais duros sofridos pelo campo popular em nosso país, ou seja, a ausência de uma política séria para resolver o problema a respeito da justiça e a falta de punição aos terroristas de estado e de uma política no sentido de conhecer a verdade e fazer justiça aos mortos e desaparecidos. Aqui no Uruguai há uma lei de impunidade chamada de “caducidade punitiva do estado”, que supõe que o estado não pode julgar os delitos do passado. Foram abertos alguns caminhos tímidos de investigação no período da Frente Ampla, no qual foram encontrados restos de cinco companheiros, enterrados em quarteis militares, mas que ainda não foram identificados. Entretanto, ainda outros 186 não foram encontrados. Atualmente apenas meia dúzia de fascistas estão presos e os demais seguem usufruindo de todos os privilégios de uma vida em liberdade, inclusive muitos de boas aposentadorias, portanto há uma dívida pendente com o povo em matéria de impunidade. As mães dos desaparecidos aos poucos estão morrendo, uma a uma, sem terem notícia de seus filhos e filhas desaparecidos. Recentemente morreu Lúcia Cuesta, que foi um exemplo de mulher, mãe lutadora durante toda sua vida pela justiça aos desaparecidos. Temos uma dívida pendente e acreditamos que é uma tarefa do campo popular não abandonar nunca essa bandeira. Não sei aonde estariam estes desaparecidos hoje, se com nós ou não, mas tenho certeza que não foi em nome deste projeto atualmente vigente que deram suas vidas. Não deram suas vidas para ver o Uruguai sendo vendido aos países imperialistas, os patrões enriquecendo, os fascistas caminhando impunes pelas ruas, Tabaré Vasquez abraçado com Bush, para estas coisas com certeza não deram suas vidas! Então, de alguma maneira se nós estamos fazendo o que fazemos e estamos aqui hoje, é por que eles deram a vida por um projeto diferente. Lutar pela memória, verdade e justiça e pela punição aos torturadores, é para nós uma bandeira irrenunciável e inegociável.

Jornal A Verdade: No Brasil a Unidade Popular Pelo Socialismo (UP) recentemente conquistou 1 milhão e duzentas mil assinaturas de apoio para o registro como partido eleitoral. Partido de esquerda, popular e dos trabalhadores, aguardamos uma última audiência no TSE. Que palavra pode dizer à Unidade Popular no Brasil? 

Gustavo López: A democracia burguesa sempre trata de complicar a burocracia com o objetivo de impor obstáculos aos partidos da classe trabalhadora e sua organização e isto evidencia que tipo de democracia é a deles, a dos ricaços, a dos “de sempre”. Nós vemos com muita alegria que vocês tenham conseguido as assinaturas necessárias e que tenha sido um esforço feito pelo trabalho militante, temos uma identificação ideológica e programática muito forte com vocês. Tomara que essa entrevista seja o ponto de partida para novos encontros aqui no Uruguai ou no Brasil e para reforçar nossas lutas, então, se nossa humilde experiência de construção da Unidade Popular nos últimos anos aqui no Uruguai pode ser útil para o processo que vocês enfrentam ai no Brasil, estamos as suas ordens e dispostos a aprender com o povo brasileiro, que foi o povo de Prestes, de Marighella, de tantos e tantos lutadores. A mim, me deu uma alegria grande de saber que a Unidade Popular conquistou o número mínimo de apoiadores. É um partido que deve ser muito respeitado pela sua trajetória e forma como se construiu, pela sua firmeza na defesa dos interesses dos trabalhadores, então, tomara que possamos desenvolver uma relação estreita de solidariedade internacional pautada nos valores do internacionalismo proletário.

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