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Claudia Jones, uma comunista

Beatriz Behling e Matheus Nunes
União da Juventude Rebelião – UJR

Militante do Partido Comunista dos EUA desde os seus dezoito anos, Claudia Jones ingressou na Liga dos Jovens Comunistas em 1934. Sua motivação para isso foi que, nos Estados Unidos, onde cresceu, o único partido político que lutava contra o racismo institucionalizado era o Partido Comunista. Nascida Claudia Vera Cumberbatch em Trinidad, no ano de 1915, aos noves anos emigrou junto à sua família para Nova Iorque, após a crise do preço do cacau em seu país natal.

Nesta época o racismo nos EUA era institucionalizado pela Jim Crow (1876-1965), leis locais e estaduais conhecidas pela exigência de instalações separadas para brancos e negros, como escolas, banheiros e outros espaços públicos. O fato do CPUSA (Partido Comunista dos Estados Unidos, sigla em inglês) se mobilizar para defender as vidas negras e, no decurso da mobilização, também se posicionar contra a segregação nos serviços públicos e expor o racismo inerente ao sistema legal, fez com que os comunistas ganhassem apoio maciço dos negros da classe trabalhadora. Uma dessas mobilizações foi no caso de nove adolescente condenados injustamente no Estado do Alabama em 1931.

“Fiquei no Partido Comunista porque discordava daqueles que afirmavam que o racismo de esquerda era uma característica inerente e permanente de suas atitudes. Eu senti que, como o racismo fazia parte da estrutura ideológica de uma sociedade capitalista burguesa, esses mesmos camaradas podiam aprender e mudar suas atitudes. Uma característica importante em meu pensamento foi que, para me libertar e a outras pessoas negras, também precisamos ajudar a libertar nossos irmãos e irmãs brancos. Você não pode vencer uma luta sem a outra. Mas o que me convenceu mais do que tudo foi ver como os muitos camaradas negros que deixaram o partido se encontravam no que eu descreveria como um navio sem leme e com que rapidez o carreirismo se tornou de suma importância em suas vidas”, declarou Cláudia Jones.

Após a Segunda Guerra, no entanto, a competição por empregos se intensificou, e era dado como certo que os negros poderiam ser demitidos para dar lugar aos brancos desempregados. A classe dominante dos EUA não teve nenhum constrangimento em explorar as fraquezas racistas dos trabalhadores estadunidenses para se revoltar contra os trabalhadores negros, com brancos frustrados recorrendo com alarmante regularidade ao linchamento de negros, que foram submetidos a um reinado de terror.

Para atacar a classe trabalhadora o governo aprovou uma legislação destinada a impedir as atividades dos comunistas e Claudia Jones, membro do Comitê Nacional do CPUSA e uma das porta-vozes mais ativas do partido, logo se viu sendo processada e perseguida por esta legislação. A Lei Smith proibia que qualquer estrangeiro se envolvesse em “atividades subversivas”, isto é, defender a derrubada do governo dos EUA através de uma revolução social. Em seu julgamento, Claudia foi condenada a cumprir um ano e um dia de prisão, onde ficou extremamente doente, sofrendo ataque cardíaco, até que um tribunal ordenou, em 1950, que ela fosse liberada e deportada para a Grã-Bretanha.

O exílio não conteve sua militância

Em Londres, Claudia fez contato com o Partido Comunista da Grã-Bretanha e foi inscrita como membro, mas entrou em desacordos com a liderança do partido devido a linha revisionista.

Quando Claudia chegou a Londres, os negros eram submetidos diariamente à humilhação. As políticas de segregação racial não eram ilegais e eram encontradas em toda parte. Em Notting Hill, área de grande comunidade negra, mas onde os pobres, pretos e brancos, estavam amontoados em moradias precárias, eclodiram tumultos em 1958. Jovens brancos mobilizados e descontentes começaram a atacar negros indefesos que, por sua vez, formaram grupos de autodefesa e reagiram.

Nessas circunstâncias, o jornal “The West Indian Gazette e Afro-Asian Caribbean News” foi organizado por Cláudia no partido e surgiu como uma ferramenta de apoio às organizações de defesa pessoal, além de campanhas anti-racistas e anti-fascistas, arrecadando dinheiro para a defesa de jovens negros e brancos que estavam sendo processados por colocar resistência à violência fascista.

Claudia Jones também esteve envolvida na fundação da Associação para o Avanço das Pessoas de Cor, que tinha caráter progressista e aglutinava amplas forças para lutar contra a violência racista e o racismo institucionalizado do aparato estatal britânico. Esta organização cumpriu um papel importante na promoção do Carnaval de Notting Hill, que surgiu em resposta aos tumultos de Notting Hill. Claudia Jones viu na situação como uma forma de colocar as pessoas de volta em contato com suas tradições culturais, lembrando-as de tudo de que deviam se orgulhar, e ao mesmo tempo estendendo a mão da amizade aos trabalhadores brancos, compartilhando a cultura com eles.

Claudia faleceu em dezembro de 1964 e foi sepultada ao lado do túmulo de Karl Marx. Por ser comunista, não poderia ser ferida pelo racismo branco. Sua atitude seria de que, como comunista, seu dever era fazer tudo ao seu alcance para ajudar os brancos a superar os preconceitos que os ligavam a seus exploradores e opressores, inimigos comuns dos proletários brancos e negros. Por essa razão, ela nunca poderia ter sido seduzida pelo liberalismo, o pós-modernismo e outras correntes reacionárias e contra-revolucionárias, como prova o registro de sua atividade política. Entendeu completamente a base de classe do racismo e, não apenas isso, ela percebeu por que esse racismo estava infestado na classe trabalhadora devido a aristocracia operária.

“A burguesia tem medo da militância da mulher negra, e por uma boa razão. Os capitalistas sabem muito mais do que progressistas parecem saber que, quando as mulheres negras começarem a agir, a militância de toda a população negra, e assim da coalizão anti-imperialista, vai aumentar muito. Historicamente, a mulher negra tem sido a guardiã e protetora da família negra. […] Como mãe, negra e trabalhadora, a mulher negra luta contra contra as leis segregacionistas que destroem a saúde, a moral e a vida de milhões de irmãs, irmãos e crianças. Nessa perspectiva, não é eventual a burguesia estadunidense ter intensificado a opressão não apenas contra a população negra no geral, mas contra a mulher negra em específico. Nada expõe mais a fascistização de uma nação quanto a atitude vil que a burguesia exibe e cultiva contra as mulheres negras”, escreveu no artigo Um fim à negligência em relação aos problemas da mulher negra.

Claudia era uma comunista leal com uma profunda compreensão do marxismo leninismo. Era uma organizadora nata e possuidora de um espírito indomável. Seu comprometimento são um exemplo para as mulheres negras e todos nós. Neste novembro negro, vamos nos lembrar de Claudia Jones, render homenagem e nos esforçar para seguir o exemplo que ela prestou ao movimento revolucionário.

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