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Lima Barreto e a escrita-testemunho da soberania

Lima Barreto foi um autor a frente de seu tempo. Em Diário do Hospício, o escritor carioca retrata o racismo e a luta de classes presentes nos manicômios e nos processos de internação dos homens e mulheres tidos como “loucos” pela sociedade.

Por Marcella Mahara
militante da UJR no Rio de Janeiro


Arte: www.conhecimentoliteratura.com.br

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) foi um escritor negro brasileiro. Sua obra mais conhecida é Triste Fim de Policarpo Quaresma, porém escreveu outros romances como Clara dos Anjos e Recordações do Escrivão Isaías Caminha, além de contos, crônicas e diários. Por volta de 1914, passou a apresentar caso sério de depressão e alcoolismo, o que o levou a ser internado algumas vezes no hospício. Lima Barreto, durante a internação no Hospital Pedro II, exerceu um papel importante de testemunho sobre um racismo que transborda a pessoalidade e muitas vezes se torna institucional. Na sua obra conhecida como Diário do Hospício, o escritor revela o racismo e luta de classes presente no manicômio e nos processos de internação.

As condições no hospício eram perversas no tempo de Lima Barreto tendo em vista que os “loucos” eram tratados com extrema violência, bebiam urina, sofriam abusos físicos das autoridades do hospital, passavam fome. Isso ocorria porque as vítimas da internação eram tidas como um incômodo para o resto da sociedade, muitas vezes sendo indivíduos negros e periféricos. Desse modo, baseando-se em um discurso de higiene mental – o qual caminhava junto na época com um discurso de limpeza racial – essas pessoas eram disciplinados por uma psiquiatria que desprezava tudo que contrariava a tão querida (para ela) racionalidade ocidental. Atirar esses seres “incômodos” ao hospício era uma forma do Estado burguês apagá-los e reiterar sua sentença de morte. Os “loucos” eram isolados, tentava-se anestesiar a loucura através de medicamentos e tratamentos perversos direcionados aos pacientes.

Logo na primeira parte dos Diários, titulada “O Pavilhão e a Pinel”, o escritor relata:

Estive no pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia […] (BARRETO, 1993, p 23)

Lima Barreto foi levado para o hospício como submisso da força policial, visto que essa também é uma maneira de exercer e instituir poder. Logo, é possível perceber que através do poder material, corpos soberanos exercem sentenças decisivas (de morte literal ou simbólica) a corpos marginais, os quais não merecem viver mediante um sistema que segrega indivíduos ao mesmo tempo que os esvazia de subjetividade. Para o capitalismo, não existe indivíduo, existe classe e raça. Existe poder e submissão ao poder. Lima Barreto foi uma voz que forçosamente tentaram calar, mas que não se deixou morrer em silêncio.

Essa questão do álcool, que me tinge, pois bebi muito e, como toda a gente, tenho que atribuir as minhas crises de loucura a ele, embora sabendo bem que ele não é o fator principal (…)

Por que a riqueza, base da nossa atividade, cousa que, desde menino, nos dizem ser o objeto da vida, da nossa atividade na terra, não é também a causa da loucura?

Por que as posições, os títulos, cousas também que o ensino quase tem por meritório obter, não é causa de loucura (BARRETO, 1993, p.40)?

Como bem ressalta o autor, a perpetuação da divisão de classes pode vir a desencadear a loucura, uma vez que pressiona os indivíduos a ascenderem socialmente, além de criar uma imagem de felicidade irreal e ilusória, baseada na obtenção de títulos e riquezas. No testemunho do Diário e no trecho acima, percebemos que Lima Barreto identifica que a culpa do alcoolismo não é somente dele, já que é consequência desse sistema devorador de almas e corpos, o qual gera um ciclo sucessivo de angústias, visto que o capitalismo é uma máquina de criar doenças e ao mesmo tempo não se preocupa em solucioná-las.

Por fim, há um evento curioso que o autor menciona, no qual um paciente, de pé no telhado, atira telhas à rua e o resto dos internos observa e grita para que as telhas sejam jogadas em direção ao interior do manicômio. O paciente, então, responde que somente irá atirá-las para fora, visto que dentro residem apenas seus semelhantes, infelizes como ele.

[…] está seminu e, apesar de saber perfeitamente que está tomado de loucura alcoólica, de pé na cumeeira do pavilhão, destinado à rouparia, como que vi, naquele desgraçado, a imagem da revolta. Esse acontecimento causa-me apreensões e terror. A natureza deles. Espelho (BARRETO, 1956, p.104)

Lima Barreto espelha o acontecimento porque esse é uma extensão de seu próprio eu, visto que não somente a loucura é compartilhada pelos internos, mas a revolta igualmente é um signo compartilhado, a revolta pelo externo, pela força perversa que os mantém ali. O escritor percebe que se assemelha aos outros internos e isso lhe causa terror, já que o sentimento de coletividade é sempre um desafio diante de um sistema que prega o individualismo como mérito, que segrega corpos com o intuito de assim, tornar mais propícia suas mortes, uma vez que a união é uma força irremediável. Enxergar a quantidade de vida que nos convém parece um fardo, mas possui fins revolucionários, e Lima Barreto era um revolucionário, a escrita sua forma de insurgir em si e no outro.

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