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Jesus, o filho do carpinteiro

“Os cristãos, temos que lutar contra a economia da exclusão e da iniquidade e o mal cristalizado em estruturas injustas” (Papa Francisco)

José Levino

Jesus de Nazaré, o Cristo, é reivindicado pelos pobres, explorados e também pelos exploradores. Falam em seu nome os que defendem que Deus é Amor e os que proclamam que Deus é vingador, e em seu nome bombardeiam países dominados (George Bush) ou oram fazendo o sinal de tiro com os dedos à Bolsonaro. Afinal, Jesus era assim mesmo, abrangente e contraditório, ou há setores usando seu nome em vão, falseando a doutrina e o exemplo do jovem nazareno que desafiou os poderosos do seu tempo? Apesar das limitações dos quatro evangelhos canônicos da Bíblia, aqueles selecionados pela Igreja no século IV d.C, depois de ser cooptada pelo Império romano, é neles que buscarei a resposta.

Jesus nasceu na Palestina. Filho de José, um carpinteiro de Nazaré, aldeia da Galileia, e de Maria, uma bela jovem. Os hebreus eram, em sua origem, um povo asiático nômade, que exercia a atividade pastoril, e se dividia em comunidades tribais. Nelas, não havia propriedade privada, os bens produzidos pertenciam a todos, num regime de comunismo primitivo.

Em 1750 a.C, fugindo de uma terrível seca, emigram para o delta do rio Nilo, em território egípcio, onde servem aos faraós por quatrocentos anos. Deixam o Egito em 1250 a.C, liderados por Moisés, em busca da Terra Prometida, onde chegam 40 anos depois, dominando os cananeus, que ali residiam.

Surge a exploração do homem pelo homem

Em Canaã (Palestina), foi curto o período de tranquilidade, pois vieram os ataques e a dominação dos impérios da época: assírios, babilônios, macedônios e, finalmente, os romanos. Quando Jesus nasceu, a Palestina era província de Roma. O poder político era exercido pelos fariseus e saduceus, aliados dos romanos, que só interferiam para cobrar o tributo, nomear os sumo-sacerdotes (entre as quatro famílias mais ricas) e decidir a pena quando alguém era acusado de crime político.

Os pobres e os setores médios eram contrários à dominação romana. Alguns deles organizaram um movimento armado, chamado ZELOTES, que queria expulsar os romanos e assumir o poder político, representado pela tomada do Templo de Jerusalém, que era, de fato, a sede do governo.

Existiam, ainda nas aldeias, os essênios, movimento de camponeses pobres que nunca abandonaram a vida comunitária. Eles moravam nas aldeias, não utilizavam a terra para fins comerciais, tirando dela apenas o necessário para a subsistência. Viviam como irmãos. Seu princípio maior era o amor ao próximo.

Quem é este homem?

Cedo, o menino revelou-se inteligente e interessado em conhecer as doutrinas da época e a vida do povo. Morando numa aldeia, Nazaré, conheceu os essênios, com quem aprendeu o desapego às riquezas, partilha dos bens, amor ao próximo, vida coletiva. Com os estoicos (filosofia helênica trazida pelo domínio de Alexandre, da Macedônia), identificou-se com o apego à verdade (“A verdade vos libertará”), a dedicação radical à causa (“o Pai não aceita o morno; ou se é quente ou se é frio) e a serenidade em qualquer circunstância (enfrentou o martírio com dignidade e serenidade). Frequentou as sinagogas e bebeu na fonte das profecias, especialmente de Isaias, de quem gostava de citar: “Trago comigo o espírito de Deus, que me enviou para anunciar a boa-nova entre os pobres…”. Assim, as três fontes constitutivas do cristianismo foram: a prática dos essênios, a filosofia dos estoicos e a religião dos profetas hebreus. A isso, Jesus acrescentou uma espiritualidade mais profunda que a de todos eles.

Somente aos 30 anos de idade se sentiu preparado para levar a mensagem ao povo. Inicialmente, a impressão é de que se tornaria um líder zelote, pois dizia: “Não vim trazer a paz, e sim a guerra; quem não tiver arma, venda seu manto ou seu arado e compre uma”. Mas logo mudou de estratégia. Concluiu que de nada adiantaria expulsar os romanos e tomar o poder político, se as pessoas permanecessem egoístas, ambiciosas, adoradoras do deus Mamon (riquezas). Era preciso que os pobres se convertessem, se tornassem essênios. E, para isso, é preciso “amar ao próximo como a si mesmo”. Este mandamento é tão importante como aquele de Moisés, que dizia: “amar a Deus sobre todas as coisas”.

Jesus não buscava confronto com o poder romano ou local, mas este aconteceria inevitavelmente porque sua pregação implicava mudança radical nos costumes. Deixava que seus discípulos colhessem aos sábados, pois a necessidade humana está acima da lei que mandava guardar este dia. “o homem não existe para o sábado, mas o sábado para o homem” (Marcos, 2); condenava a exploração de classe: “Benditos vós, os pobres, pois o Reino de Deus é vosso; malditos os ricos, porque já estão fartos”, e “Os pobres possuirão a Terra”. (Sermão das Bem-Aventuranças).

Escolheu um grupo de 12 auxiliares diretos (os apóstolos) para a missão entre os pobres, especialmente pescadores. “O Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu para levar boas notícias aos pobres, para anunciar a liberdade aos presos, dar vista aos cegos, libertar os que estão sendo oprimidos” (Lucas, 4-18). Multidões (de pobres) o seguiram e ele mostrou os benefícios da economia de partilha, alimentando cinco mil pessoas com o pouco que cada um trazia, a partir dos cinco pães e dois peixes dos apóstolos. Quer dizer, quando se colocam os bens em comum, o pouco de cada um se multiplica e ninguém passa necessidade. E os ricos não poderiam aderir à Boa-Nova? Sim, desde que coloquem seus bens em comum. Foi o que ele disse ao jovem de família rica que pretendia segui-lo.

Três anos depois de pregar pelas aldeias palestinas, resolve entrar na capital, Jerusalém, centro do poder econômico e político. Simbolicamente, foi à frente da multidão montado em um jumento, para dizer que não queria guerra (os zelotes andavam em potentes cavalos), mas apenas dizer a Palavra para os peregrinos de todos os lugares, pois era a celebração da Páscoa (passagem da escravidão do Egito para a liberdade).

Quando chegou ao Templo, encontrou-o tomado por mercadores de todo tipo. Chamou seus seguidores e – no único momento de ira registrado pelos evangelhos – expulsou os comerciantes à força, bradando: “A Casa do meu Pai é casa de oração e não covil de ladrões”. O Poder sentiu-se ameaçado; achou que por trás do pacifismo de Jesus, então conhecido como o Cristo (enviado, ungido), gestava-se um movimento de massa contra a dominação romana e o poder local. O Conselho do Sinédrio mandou prendê-lo. Mas não queria fazê-lo no meio da multidão. Taticamente, à noite, Jesus e os mais próximos iam dormir em um dos morros próximos da cidade, sem informar onde estavam. Um dos apóstolos, entretanto, Judas Iscariotes, o traiu.

Barbaramente torturado em via pública, Jesus foi levado para um dos morros, o Gólgota, e crucificado, pena máxima reservada para os grandes salteadores e para os insurretos zelotes. O Cristo morria, apenas fisicamente, pois como acontece com todos os seres especiais, sua mensagem permaneceu e se propagou pelo mundo inteiro.

Fonte de libertação

Depois da morte de Cristo, os apóstolos organizaram seus adeptos em comunidades, tanto na Palestina quanto nos países vizinhos e em Roma. Estas comunidades praticavam o comunismo primitivo dos essênios: “Vendiam tudo o que tinham, colocavam em comum, e não havia necessitados entre eles” (Atos dos Apóstolos). Eram comunidades autônomas, não havia centralização.

Setores médios e ricos vão aderindo cada vez mais à nova religião, cuja moral se apresenta muito superior ao judaísmo e ao paganismo decadente. Mas os ricos não colocam seus bens em comum. Para aceitá-los, o princípio é flexibilizado – basta ajudar os necessitados com uma pequena parte do que se tem (a esmola substitui a partilha).

Os cristãos, antes perseguidos e massacrados pelos imperadores romanos, no governo de Constantino (312 d.C) veem o cristianismo tornar-se religião oficial do Império romano e adotar a estrutura da Corte (hierarquia, culto, vestes, etc.). Nasce a Igreja Católica, integrante ou aliada das classes dominantes no fim do Império romano, por toda a Idade Média, promovendo a Inquisição, abençoando a colonização da África e da América na era Moderna, ditando que negros e índios não têm alma e, por isso, podem ser escravizados. A Reforma Protestante, ocorrida no século XVI, não teve caráter popular; ao contrário, teve como objetivo adequar o “cristianismo” aos interesses da nova classe dominante (burguesia), visto que a Igreja Católica estava comprometida com a velha ordem feudal.

A Teologia da Prosperidade é cristã?

Ora, se Jesus endureceu quando viu o comércio na porta do Templo de Jerusalém, imagine-o diante das suntuosas igrejas, especialmente as neopentecostais com sua Teologia da Prosperidade, estimulando o enriquecimento individual e a doação de tudo o que a pessoa tem, pois o Senhor restituirá em dobro? O que diria o Nazareno ao ler no Jornal Folha Universal o bispo Edir Macedo escrever que sua relação com Deus é uma relação de negócio exitosa, pois sua Igreja tem se espalhado pelo mundo inteiro? Ao observar que autoproclamados servos fiéis colocam suas igrejas a serviço de candidaturas que adotam a violência contra os pobres, retiram direitos históricos, abrem caminho para retorno às relações de escravidão? Não se surpreenderia, pois afirmara aos seus seguidores: “Muitos virão em meu nome, muitos falsos profetas, e enganarão muitas pessoas” (Mateus, 24), mas, certamente, ficaria mais colérico que no episódio de Jerusalém.

Onde estão os verdadeiros cristãos?

A essência da mensagem transformadora de Jesus Cristo sempre ressurgiu. Na Idade Média, os movimentos heréticos procuraram mantê-la e refundar as comunidades até serem exterminados pela Inquisição e pelas Cruzadas. Renasce durante a invasão das Américas com a criação das comunidades comunistas guaranis no Sul do Brasil, com as Comunidades Eclesiais de Base após o Concílio Vaticano II. Fomentadas por bispos do povo do quilate de dom Helder Câmara, dom Fragoso, dom Paulo Evaristo Arns, dom Tomás Balduíno. E numa homenagem especial, pela passagem recente para a eternidade (08/08/2020), dom Pedro Casaldáliga.

Dom Pedro, que faleceu aos 92 anos de idade, era um sacerdote espanhol que deixou sua terra, seu trabalho de professor e diretor de uma revista para viver e dedicar-se durante 50 anos aos indígenas, camponeses pobres e peões, assim chamados trabalhadores rurais sem terra de todo o país que migravam para trabalhar nas grandes fazendas do Mato Grosso em regime de semiescravidão.

Chegou a São Félix do Araguaia em 1968, quando o Brasil já vivia sob ditadura militar endurecida com o AI-5 em dezembro daquele mesmo ano. Mas isso não o atemorizou. Em 1970, enviou para a CNBB e para autoridades o documento de denúncia “Escravidão e Feudalismo no Norte do Mato Grosso”. Daí em diante, passou a ser perseguido, caluniado, recebeu ameaças de morte, mas não recuou nem se escondeu. Nomeado bispo da Prelazia de São Félix em 1971 pelo papa Paulo VI, continuou morando numa casinha de madeira, usando um chapéu de palha no lugar da mitra e um cajado indígena em vez do báculo. Manteve-se a serviço dos oprimidos. Poeta que era, disse no poema Canção da Foice e do Feixe: “Me chamarão subversivo e lhe direi: eu o sou. Por meu povo em luta, vivo. Com meu povo em luta, vou”.

Hoje, as comunidades de base, pastorais, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Pastoral da Terra, Movimento de Trabalhadores Cristãos, Teologia da Libertação, Teologia da Enxada e outros expressam o verdadeiro cristianismo, autêntico, fundamentado nos evangelhos e na prática das primeiras comunidades cristãs. Desse modo, a Religião verdadeiramente cristã, está longe de ser “ópio do povo”, sendo, ao contrário, energia libertadora de toda forma de opressão.

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