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A violência doméstica: crianças também sofrem na pandemia

VIOLÊNCIA – Com a pandemia, se acentuou a violência contra as crianças no Brasil. (Foto: Reprodução/Jornal A Verdade)

“A solução para acabar com esse sofrimento é lutar pelo fim desse sistema capitalista patriarcal, que explora homens, mulheres e crianças das mais perversas formas e atrelado à cultura sexista.”
Emanuele Rodrigues
Movimento Luta de Classes

RECIFE (PE) – Violência doméstica é todo tipo de violência causada por alguém no âmbito de convívio dentro de casa. Como cita Bell Hooks, em sua obra “O feminismo é para todo mundo” de 2015: “A violência patriarcal em casa é baseada na crença de que é aceitável que um indivíduo mais poderoso controle outros por meio de várias formas de força coercitiva. Essa definição estendida de violência doméstica inclui a violência de homens contra mulheres, a violência em relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e a violência contra crianças. ” A sua causa é acima de tudo a cultura sexista de dominação masculina.

Existe um ciclo de violência na sociedade que reflete o que ela é. Em um mundo dividido em classes sociais, “ricos e pobres”, “patrão e trabalhador”, “explorador e explorado”, o seu reflexo é existente também quando formamos famílias. Quem manda na casa? Precisamos de uma “autoridade”, pois no mundo do trabalho é nosso chefe, as leis do Estado etc., mas em casa? Na sociedade patriarcal, o provedor (quem traz o sustento) é essa autoridade, o responsável pela família. Em nosso país, por exemplo, registra-se mais de 71 milhões de família e em 42% destas as mulheres são as responsáveis pela casa mesmo recebendo menos que os homens, de acordo com dados da pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Chamamos atenção para a violência patriarcal pois ela está estreitamente ligada à exploração, ao sexismo que o sistema capitalista exerce sobre trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo. Quantas vezes não ouvimos em nossas casas, dos nossos pais ou cuidadores “quem come do meu pirão, prova do meu cinturão” como forma de demonstrar autoridade? Nosso sistema social educou e educa a sociedade de que autoridade e respeito só se conquistam através de violência coercitiva, sendo esta de formas variadas, algumas delas fundamentais para manter o poder econômico-político-social nas mãos da classe burguesa. Quando vamos consultar pesquisas sobre o tema, obtemos dados alarmantes sobre como se é dada a continuação da violência patriarcal também refletida dentro dos lares.

O ciclo é: patrão explora trabalhador, trabalhador explora sua cônjuge e filhos. Ainda neste ciclo há o resultado dessa exploração em forma de violência física, psicológica e sexual que o “provedor (a)” exerce nos filhos. Crescemos ouvindo e vendo que a responsabilidade de criar e educar as crianças são unicamente de mulheres (“se prestar foi o pai, se não prestar é culpa da mãe”).

Ainda em “O feminismo é para todo mundo”, Bell Hooks afirma: “Uma vez que mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados de filhas e filhos, os fatos confirmam a realidade de que em um sistema hierárquico de uma cultura de dominação que empodera mulheres (como o relacionamento mãe-criança), é muito frequente que use força coercitiva para manter domínio… Grupos dominantes mantêm poder através da ameaça (aceita ou não) de que castigo abusivo, físico ou psicológico, será usado sempre que estruturas hierárquicas em exercício forem ameaçadas.”

No nosso país, 68% das crianças brasileiras com até 14 anos, o equivalente a 30,3 milhões de crianças, já sofreram violência corporal em casa. Quase 7 em cada 10 crianças (67%) da América do Sul e do Caribe com idades entre 1 e 14 anos já sofreram punições corporais. Os principais tipos de violência denunciadas são: negligência (61.416), violência psicológica (39.561) e violência física (33.105). O dado é do estudo “Ending Violence in Childhood: Global Report 2017. As vítimas mais frequentes são meninas negras (pretas e pardas) com idades entre 4 e 17 anos. Um relatório da UNICEF diz que, em todo o mundo, uma em cada quatro crianças menores de 5 anos vivem com uma mãe que é vítima de violência por parte de um parceiro. Esse índice corresponde a 176 milhões de crianças.

A Vida de Quem Sofreu Violência na Infância

Conversando com Beatriz da Silva, de 22 anos, vítima de violência doméstica quando criança, ela comenta: “meu pai batia na minha mãe que batia em mim, e eu em meus irmãos. Me recordo de sofrer abuso sexual, físico e psicológico do meu pai. Claro que eu não entendia o que ele dizia e nunca ninguém conversou sobre sexualidade, sobre meu corpo, sobre nada que pudesse me fazer compreender que o que ele fazia era errado.” Quando perguntamos a Beatriz quando acontecia os episódios de violência física, ela afirma: “quando ele estava bêbado, chegava em casa e brigava com minha mãe porque tinha que ter roupa e toalha passada, comida quente e sexo na hora que ele quisesse.

Eles discutiam e quando eu e meus dois irmãos percebíamos ele estava em cima dela, agredindo com murros, chutes, cinto, puxava o cabelo, batia a cabeça dela na parede, se a gente se metesse apanhava também… A forma como minha mãe encontrou de educar a gente foi também através da violência, lembro de apanhar por tudo, se não cuidasse dos meus irmãos, não lavasse os pratos, não fizesse comida, não ensinasse as tarefas deles, me recordo de trabalhar muito dentro de casa para ajudar minha mãe. Foi muito sofrimento, situações traumatizantes, que nunca vou esquecer. Hoje, consigo contar sobre tudo, mas antes tinha medo e vergonha. Cresci não sabendo dizer não e isso prejudicou muito minha saúde mental.”

Na pandemia, ficar em casa é importante para se proteger do coronavírus, mas as crianças estão consequentemente mais dentro de casa e em todo o mundo muitas das violências a que meninas e meninos estão submetidos acontecem dentro de casa. Segundo dados da UNICEF de 2017, três em cada quatro crianças de 2 a 4 anos no mundo (cerca de 300 milhões) são regularmente submetidas a disciplina violenta (punição física e/ou agressão psicológica) por seus pais ou outros cuidadores em casa.

O que fazer quando uma criança sofre? A solução para acabar com esse sofrimento é lutar pelo fim desse sistema capitalista patriarcal, que explora homens, mulheres e crianças das mais perversas formas e atrelado à cultura sexista. Diariamente nas mídias ouvimos e vemos notícias de abandono, mortes de crianças por familiares ou cuidadores, expondo a crueldade em que estamos submetidos. E se for uma menina pobre e negra, o Estado é cego, surdo e mudo, pois a violência patriarcal desde cedo reprime os pobres e alivia para os ricos.

É importante que toda a população esteja atenta, conheça os canais de denúncia e não se cale diante da violência. E cabe aos governos garantir a continuidade dos serviços de proteção à criança e ao adolescente em todo o País. Se você for vítima ou se testemunhar, souber ou suspeitar de alguma violência, pode acionar o Conselho Tutelar da sua região, ligar no disque 100 ou, se necessário, procurar a polícia.

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