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O veneno está na mesa, denuncia filme de Silvio Tendler

Há cerca de 11.000 anos (segundo registros arqueológicos), surgiam as primeiras formas rudimentares de agricultura. O homem conseguia sair do estágio de nomadismo que o obrigava a não planejar sua vida, etapa em que dependia da caça e da pesca para sobreviver; e começava a estabelecer laços com a terra a partir do plantio, da colheita e do armazenamento de comida.

Desde então, o homem lida com pragas nas plantações, pois existe uma cadeia alimentar, e gafanhotos, lagartas e outros insetos, “pragas” e “pestes”, se alimentam de milho, feijão, hortaliças, leguminosas, tubérculos, grãos e outras culturas. Existe registro disso nas mitologias antigas, inclusive na Bíblia, com as pragas do Egito.

De lá para cá, a humanidade viu evoluírem seus conhecimentos, inventou novas tecnologias para melhor produzir e aperfeiçoou a técnica de extrair do solo o alimento. Na década de 1960, aconteceu o que os historiadores costumam chamar de “revolução verde”. Tal revolução multiplicou milhares de vezes a capacidade produtiva do solo, expandiu as fronteiras agrícolas dos países exportadores de grãos (como é o caso do Brasil) e introduziu de uma vez por todas a cultura de envenenar as lavouras e fazendas no intuito de matar as pragas e bichos que se alimentavam da colheita. Os chamados agrotóxicos. Sobre eles, várias entidades da sociedade civil, sob a direção de Sílvio Tendler, produziram um documentário chamado O veneno está na mesa.

Segundo o documentário, o Brasil é o país que mais aplica agrotóxicos, alguns proibidos em diversos países porque comprovadamente causam males irreversíveis à saúde. No filme, vários são os depoimentos de agricultores que enfrentaram complicações de saúde e até mesmo de agricultores que chegaram a falecer por inalação desses “defensivos agrícolas” – como os chamam seus apologistas.

A comparação com as armas químicas usadas nas guerras imperialistas na Ásia e na África é inevitável. Componentes químicos como o “agente laranja” usado na guerra do Vietnã até hoje produzem crianças com necessidades especiais (sem braços, com pernas e braços atrofiados ou com problemas mentais). Pasmem: a mesma empresa que produziu o agente laranja, a Monsanto, hoje produz agrotóxicos. Essa empresa – juntamente com a Syngenta, a Basf, a Bayer, a Dow e a Dupont – domina o mercado mundial de venda e distribuição de agrotóxicos, com 68% da comercialização.

Empresas como a Bayer e a Basf estiveram diretamente ligadas à produção de tecnologia de assassinatos em massa, por meio de gases e compostos químicos, no tempo do nazismo na Alemanha de Hitler. Portanto, há bastante tempo vêm com a tradição de envenenar pessoas.

Mesmo com vários depoimentos de especialistas no assunto (cientistas, ecologistas e médicos) sobre os males causados à saúde humana pelos agrotóxicos, os representantes do agronegócio e dos latifundiários do nosso país os defendem com unhas e dentes, inclusive utilizando-se de argumentos “progressistas”. O cinismo que marca um dos depoimentos do documentário, o da senadora Kátia Abreu (DEM-GO), liderança maior do agronegócio, é enorme. Ela diz que os “irresponsáveis” que denunciam o agrotóxico querem que o preço dos alimentos subam, porque o povo só tem dinheiro para comer alimento com agrotóxico, uma vez que só dessa forma os alimentos ficariam mais baratos (impossível não fazer comparações com a argumentação do deputado federal Aldo Rebelo [PCdoB-SP] na defesa do Novo Código Florestal Brasileiro).

Segundo dados apresentados no documentário, 5,2 litros de agrotóxico por habitante são ingeridos por ano no Brasil e que a multiplicação de doenças como o câncer tem a ver com esses dados. “Os movimentos sociais precisam conscientizar e mobilizar a população; isso é um caso de saúde pública”, afirmou o cineasta Sílvio Tendler sobre o filme. Já João Pedro Stédile, coordenador do MST, disse: “O filme é mais eficiente do que mil discursos. Esse documentário é uma importante ferramenta de conscientização”.

De fato, o filme nos faz repensar duas coisas: qual o preço que pagamos por essa produtividade da terra? E qual o preço que a própria terra paga, já que esse modelo esgota sua capacidade produtiva em poucos anos?

Neste ponto, o documentário poderia explorar mais a contradição do tanto de alimento que produzimos para a quantidade de famintos e desnutridos do planeta. Pois, em seu discurso, defensores do agronegócio argumentam que é preciso produzir mais e mais para alimentar cada vez mais pessoas. Escondem, no entanto, o fato de que a humanidade produz o suficiente para alimentar cerca de 21 bilhões de pessoas, isto é, três vezes a população da Terra, segundo dados da ONU. O problema, portanto, não está na produção, mas na distribuição e no enorme desperdício das classes dominantes. É a política de tudo para os ricos e nada para os pobres.

Importante instrumento de conscientização, o filme deve estar presente em todos os cine-debates das universidades, escolas e bairros populares de nosso país. É preciso muita mobilização porque O veneno está na mesa.

Yuri Pires, crítico de cinema de A Verdade

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