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Novo livro sobre as FARC-EP desfaz mitos sobre a guerrilha

O livro Revolutionary social change in Colombia – The origin and direction of the FARC-EP (Pluto Press, EUA, 2010), do sociólogo canadense James J. Brittain, foi considerado pelo também sociólogo James Petras como o “estudo definitivo das FARC-EP, o qual será uma referência básica” pelos próximos anos.

Ainda sem previsão de lançamento para o português, o prefácio da obra, de autoria de James Petras, foi traduzido com exclusividade para o Jornal A Verdade. Além de fornecer uma visão geral da obra, este trecho desfaz alguns mitos sobre as FARC-EP, esclarecendo um pouco de sua história e de sua atual situação.

Prefácio de “Revolutionary social change in Colombia – The origem and direction of the FARC-EP”

James Petras

A prática política da demonização, na qual políticos, jornalistas, autoridades midiáticas e acadêmicos atribuem rótulos depreciativos e comportamentos abomináveis a regimes políticos, líderes e movimentos, baseados em alegações inconsistentes, tem se tornado prática comum. O que é pior, a prática de demonizar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) se espalhou de cima para baixo, da direita para a centro-esquerda, da grande mídia para os sites progressistas.

Em anos recentes, nenhum outro movimento sócio-político de massas na América Latina tem sido mais demonizado que as FARC-EP. Talvez esta seja a recompensa do vício à virtude – pois as FARC-EP, como Brittain documenta largamente em seu livro, é o maior, mais duradouro e mais efetivo movimento de insurgência popular no último quarto de século. Em contraste com as críticas raivosas, altamente caricaturais, pobremente informativas e ideologicamente direcionadas emananando da grande mídia, Brittain apresenta uma detalhada pesquisa histórica baseada em fatos empíricos sobre as origens das FARC-EP, sua trajetória organizacional e politica, assim como um rigoroso relato da matriz socioeconômica da qual ela cresce e prospera. Brittain escreveu o estudo definitivo das FARC, o qual será uma referência básica nos anos que estão por vir.

As acusações mais recorrentes e mais sérias vem de Washington e do atual presidente da Colômbia, que denunciou as FARC-EP como organização “criminal terrorista” e “narcoterrorista”. Washington colocou as FARC-EP em sua lista de “organizações terroristas”, uma política que foi subsequentemente seguida pela União Européia – mas não pela maioria dos governos latino-americanos.

O estudo histórico de Brittain desafia essas afirmações demonstrando que as FARC se originaram no início dos anos 1960 como um movimento camponês de rebelião, que expandiu seu apoio territorial e social pelos 40 anos seguintes – particularmente no interior do país – defendendo os interesses dos camponeses das pilhagens dos esquadrões da morte e da repressão militar financiadas pelos senhores de terras.

A propagação do rótulo de “terrorista” aconteceu depois de 11 de setembro de 2001, como parte da ofensiva global militar-ideológica do presidente Bush, apelidada de “Guerra ao terrorismo”. A base ilusória dessa campanha é evidente no período anterior (1999-2001) quando as FARC-EP foram reconhecidas por todos os grandes países da Europa e da América Latina como uma força beligerante, um interlocutor legítimo nas negociações de paz. Durante este período as FARC-EP foram convidadas à França, Espanha, Escandinávia, Países Baixos, México e vários outros países para discutir o processo de paz. Durante o mesmo período os maiores líderes do governo estadunidense e homens de negócios, junto com dezenas de sindicalistas e políticos engajados no assunto alocaram as FARC-EP em uma zona desmilitarizada na Colômbia, onde as Nações Unidas mediavam negociações de paz entre as FARC e o presidente Pastrana. Enquanto Washington se opunha a todo o processo de paz e o presidente Bill Clinton fazia aprovar um pacote multi-bilionário (Plano Colômbia), os EUA não foram capazes de impedir o processo, ou de imputar o rótulo de narcoterrorista às FARC-EP.

Foi apenas depois que Washington declarou guerra ao Iraque e ao Afeganistão, e a grande mídia dominada pelos EUA lançou uma massiva guerra relâmpago de propaganda rotulando todos os críticos e adversários do militarismo global estadunidense, que o rótulo de “terrorista” foi fixado sobre as FARC-EP. Sob intensa pressão da elite midiática e sob o escrutínio do aparato de segurança dos EUA, muitos intelectuais e escritores outrora progressistas submeteram-se e se juntaram ao coro dos que rotulavam as FARC-EP de “terrorista”. O que é surpreendente nas opiniões precipitadas que caluniam as FARC é a absoluta e total ignorância de qualquer faceta de sua história, prática social, apoio político e seus esforços fracassados de assegurar um estabelecimento político. Entre 1984 e 1988, as FARC concordaram em cessar fogo com o regime de Betancur e muitos de seus militantes optaram pela política eleitoral formando um partido político de massas, a União Patriótica. Antes, durante e depois de obter substanciais vitórias nas eleições locais, estaduais e nacionais, os esquadrões da morte assassinaram três dos candidatos presidenciais da União Patriótica. Mais de 5000 ativistas eleitorais foram mortos. As FARC-EP foram forçadas a retornar à oposição armada por causa do terrorismo de massa patrocinado pelos regimes dos EUA e da Colômbia. Entre 1985 e 2008, dezenas de milhares de líderes camponeses, sindicalistas, ativistas de direitos humanos e líderes comunitários, assim como jornalistas, advogados e congressistas foram mortos, presos ou exilados.

Como Brittain demonstra, a campanha do regime apoiado pelos EUA de terror rural e desapropriação de 3 milhões de camponeses é a principal força responsável pelo crescimento das FARC-EP, e não o “recrutamento forçado” e o “narcotráfico”.

Este livro é baseado em extensas entrevistas de apoiadores das FARC, líderes e camponeses locais cobrindo vários anos, e fornece um relato preciso da relação entre a produção de coca, o comércio de drogas, lavagem de dinheiro, o exército, o sistema político e as FARC. O que suas descobertas revelam é que 95% dos ganhos da cadeia narcótica provem dos partidos políticos, dos oficiais do exército e dos membros do congresso colombiano, todos esses apoiados pelos EUA, além dos bancos estadunidenses e europeus. As FARC cobram uma taxa de tranporte e de carregamento dos compradores da folha de coca em troca de passagem segura pelos territórios controlados por ela.

O livro de Brittain coloca uma questão fundamental para todos os escritores e praticantes da democracia: como alguém pode buscar políticas sociais equitativas e a defesa dos direitos humanos sob um estado terrorista alinhado com esquadrões da morte e financiado e aconselhado por um poder estrangeiro, o qual tem uma política pública de eliminar fisicamente seus adversários? Mesmo atuando como sindicatos legalizados, movimentos camponeses e indígenas e oposição política, eles sofrem altas taxas de atrito; não se passa uma semana sem que sejam relatados assassinatos, desaparecimentos e vôos forçados para o exterior. Corajosos juízes e promotores públicos recebem diariamente ameaças de morte e tem segurança pessoal 24 horas; alguns raramente dormem em suas próprias casas. A política parlamentar, sob ameaças amplamente difundidas, não reforma e nem pode reformar o aparato terrorista, menos ainda fazer justiça aos 4 milhões de camponses deslocados à força de suas comunidades. Sem recurso institucional e enfrentando uma injustiça de longo prazo e em larga escala, a tese de Brittain, de que as FARC-EP representam uma força legítima pela democracia política e pela mudança social é não apenas plausível, mas também altamente convincente.

Tradução de Glauber Ataide para o Jornal A Verdade

Clique aqui e leia a entrevista exclusiva de James J. Brittain ao Jornal A Verdade – “As FARC não serão e não podem ser derrotadas”

 

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8 comments

  1. luiz henrique

    Que bom ,alguém com coragem, que rema contra a mídia mundial
    Pena que muitos líderes de esquerda não declarem sua real visão sobre AS FARC-EP

  2. arlete guimarães

    Mas é esse mesmo o comportamento da esquerda, se omitem quando se trata de manifestar-se a respeito das FARC-EP.
    Entretanto, temos o PCB, o PCR e o PCML, partidos marxistas-leninistas genuínos que reconhecem a importancia do movimento.
    As FARC-EP são um erxécito guerrilheiro de mais de 50 anos
    Guerrilheiro não ganha soldo!!
    Ele luta por uma causa!

  3. sidnei guidi

    bem achei interessante, a verdade tem sempre que prevalecer, doa a quem doer. Gostaria de uma informação, onde consigo esse livro, e se já tem tradução para portugues

  4. sidnei guidi

    Sempre a verdade. Gostaria de adquirir este livro, onde consigo e se já tem tradução para portugues. obrigado

  5. Bolchevique

    Sidnei, ainda não há previsão para lançamento deste livro em português, infelizmente.

  6. Malu

    olá pessoal, eu estou montando um projeto de TCC sobre o imperialismo estadunidense na américa latina, com enfoque na luta das FARC EP, abordando a questão de surgimento do movimento e ocupação da Colombia pelos Mariners na década de 60, mas estou com carência de material, quem tiver livros e documentos para me enviar, favor enviar para meu email…. malu-reyes@hotmail.com

  7. Jorgepaula65

    Luta armada no brasil, vamos criar a FARB- ML (forças armada brasileira marxicista leninisata)E acabar com os corruptos que implantam a miséria em nosso país.

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