A mãe do jovem Gabriel Ferreira Messias da Silva, assassinado pela Política Militar em São Paulo, Fernanda, denuncia a execução do filho, que não estava armado. Em 2023, as polícias mataram 6.393 pessoas no país, sendo 82,7% delas negras, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Larissa Mayumi e Catarina Matos | Coordenação Nacional Olga Benario
MULHERES – “Meu filho é trabalhador! Meu filho não tava fazendo nada, ele tava andando de moto. A única coisa que eu quero é justiça, porque mataram um inocente, tiraram a vida de um menino de 18 anos. Ele é trabalhador, ele é inocente. Foi a Polícia que matou. O meu filho tava vindo de moto e fizeram boletim de ocorrência. A Polícia informou que meu filho tava armado, mas meu filho nunca pegou numa arma. Eu só quero justiça pela vida do meu filho! Pra que outras mães não chorem o que eu tô chorando hoje.”
Este foi o relato da Fernanda, mãe de Gabriel Ferreira Messias da Silva, um jovem de 18 anos, assassinado pela Polícia Militar em São Paulo (SP), em dezembro passado. Assim como Fernanda, milhares de mães brasileiras passaram a viver o luto e a revolta de perderem seus filhos assassinados pela polícia. Somente no ano de 2023, foram 6.393 mortes por policiais no Brasil, sendo 82,7% das vítimas pessoas negras, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número de mortes pelas mãos da Polícia triplicou em 10 anos.
A Bahia, governada por Jerônimo Rodrigues (PT), foi o estado com mais assassinatos, 1.699, somente em 2023. Para aprofundar essa violência de Estado, o governador comprou 200 fuzis de Israel, gastando quase R$ 1,8 milhão. Uma das principais justificativas é que as vítimas eram bandidos, que foram conflitos com troca de tiros de ambos os lados, quando, na verdade, muitas das pessoas assassinadas não estavam armadas.
Assim demonstra Marília, moradora da Ocupação Carlos Marighella, em Salvador: “Eu me sinto muito triste, porque toda vez que eu vejo uma notícia como esta passando na TV, lembro do meu irmão mais novo e do meu primo, que foram mortos pela Polícia Militar. É como se eu tivesse revivendo aquele momento. É revoltante a gente saber e ter a certeza que isso irá sempre se repetir na vida dos nossos jovens negros e periféricos”.
Já no Estado de São Paulo, governado pelo fascista Tarcísio de Freitas, vários casos têm ganhado repercussão, como o caso de Ryan da Silva, de 4 anos, que foi baleado pela Polícia Militar. Somente nos primeiros meses de 2024, o estado teve um aumento de 78,5% das mortes por policiais em serviço, se comparado com esses mesmos meses do ano anterior. Foram 441 mortes contra 247, entre janeiro e agosto (Instituto Sou da Paz). Mesmo assim, o governador defende o aumento de armamento da Guarda Civil e do uso da violência, como ficou claro nas Operações Verão e Escudo, realizadas na Baixada Santista e que acumularam quase 90 pessoas mortas. Além disso, uma de suas propostas para a educação é a militarização das escolas.
Somada às mães que perderam seus filhos na mão da Polícia, está Claudineide Seixas, de Alagoas, que perdeu seu filho Jonas Seixas, um trabalhador, pedreiro, sequestrado por policiais militares e está desaparecido desde 2020, seu corpo nunca foi encontrado. “Foi muito difícil! Ele era meu amigo, ele era meu filho! Ele era aquele filho apegado, era um bom dono de casa, um pai excelente. Eu queria respostas, eu queria saber por que levaram ele, eu queria saber o que fizeram com ele, onde ele tá? Cadê esse mandado de prisão que nunca apareceu?”, questiona Claudineide.
Já Luciana Oliveira, de Sergipe, teve seu filho, Wagner Junior, assassinado pela Polícia Militar no início do ano passado. Luciana transformou seu luto em luta e, junto a outras mães e pais, constrói o coletivo Saudade. “O grupo foi criado para encorajar outras famílias. Para poder fazer a denúncia da Polícia do nosso estado. Para encorajar muitas famílias que têm medo de enfrentar isso que vem acontecendo: eles matando os nossos adolescentes e fingindo falsos confrontos. Confrontos esses que só existem da parte deles”, explica. Ainda sobre o assassinato de seu filho, Luciana acrescenta: “Meu filho Wagner só tinha 18 anos e teve sua vida ceifada com quatro tiros no peito. Que confronto foi esse que meu filho já estava rendido de joelho? E mesmo assim foi executado?!”.
Basta de militarização
Os relatos das mães que perderam seus filhos mostram uma das trágicas consequências do aumento da violência do Estado. Nesse período de crise econômica, uma das propostas dos grandes ricos e seus parlamentares é o aumento das operações policiais e a militarização das Guardas Civis.
Se quem está no poder realmente se importasse com a segurança, o Estado deveria intervir nos grandes bancos que lavam dinheiro, ver efetivamente onde são produzidas as drogas (pois as drogas andam de jatinho, em avião da Força Aérea Brasileira). Aumento da ostensividade policial não resolve o problema, porque já vivemos num Estado extremamente armado.
A solução para os problemas que aumentam a violência passa por moradia digna, acesso à educação pública e de qualidade, emprego digno, cultura e lazer. Mas não só. A superação da sociedade capitalista deve estar no horizonte de cada trabalhadora e trabalhador, jovem, dona de casa, enfim, daqueles que produzem as riquezas e têm o direito de usufruir delas.
Matéria publicada no jornal A Verdade impresso na edição nº 307