No Brasil, o Boxe Autônomo de São Paulo surgiu no final de 2015 como a primeira equipe organizada como ação direta contra o fascismo. Em Manaus (AM), nasceu no Parque Senador Jefferson Péres, a Academia Popular de Boxe de Rua Teófilo Stevenson.
Redação AM
BRASIL – Esportes de luta vão muito além de socos, chutes ou técnicas. São expressões culturais em movimento. Coletivamente, cultivam relações humanas e abrem caminhos para a transformação destas. Individualmente, são como danças estratégicas entre corpo e disciplina, conectando gerações e culturas ao redor do mundo. Mais do que combate, as artes marciais representam um caminho para o autoconhecimento, o respeito e o equilíbrio – um universo onde a força se encontra com a sabedoria para criar a resistência.
Um exemplo marcante é o boxe como símbolo na antiga União Soviética. Outro exemplo está em Cuba, onde o esporte é orgulho nacional, reconhecido pela tradição olímpica e técnica. Também foi importante instrumento na luta do povo negro, como na “Luta do Século”, em 1910, quando o peso-pesado negro Jack Johnson venceu o racista James J. Jeffries durante a segregação racial nos EUA, no dia da Independência daquele país.
Como produtos do crescimento da resistência antifascista, surgiram na Itália, em 1990, os primeiros coletivos organizados de boxe com caráter popular: as Academias Populares (Palestras Popolare). Criadas em resposta ao uso do boxe por instrutores simpatizantes do fascismo, promoviam uma prática baseada na solidariedade, inclusão e resistência. Mais do que treinar corpos, buscavam fortalecer laços sociais e transformar a cultura urbana por meio do esporte, visto que embates com fascistas eram comuns.
A partir dos anos 2000, o movimento antifascista começou a se expandir para diversos países, incluindo Áustria, Inglaterra, França, Espanha e Argentina, onde surgiram as chamadas “Academias Vermelhas”, espaços dedicados ao treinamento fundamentado em valores e ideias de resistência.
No Brasil, o Boxe Autônomo de São Paulo surgiu no final de 2015 como a primeira equipe organizada como ação direta contra o fascismo. Criado na Ocupação Leila Khaled, na Liberdade – que abrigava imigrantes palestinos e migrantes de outras regiões –, o grupo defendia princípios como anticapitalismo, antimachismo e antirracismo.
Em Manaus, capital do Amazonas, no dia 16 de setembro de 2023, numa manhã de sábado, nasceu, no Parque Senador Jefferson Péres, a Academia Popular de Boxe de Rua Teófilo Stevenson, a primeira iniciativa do gênero na região. Nascida pela iniciativa do psicólogo e militante do MLB Jefferson Ramos, a escola popular surgiu para atender, fundamentalmente, a demanda da própria militância e, na medida em que formou instrutores orgânicos, estendeu-se para a comunidade.
A academia recebeu o nome do pugilista cubano Teófilo Stevenson, tricampeão olímpico e considerado por muitos o maior boxeador amador de todos os tempos. Patriota revolucionário, recusou inúmeras ofertas milionárias para se profissionalizar nos EUA, movido por seu amor pela revolução e pelo povo cubano.
Com base na psicologia da aprendizagem e nas ciências do desenvolvimento humano, os treinamentos na Teófilo são transformados em experiências coletivas, promovendo o senso coletivo em vez do individualismo. Respeitando as necessidades individuais, busca-se aumentar o desempenho de forma saudável, usando princípios de aprendizagem cooperativa e reduzindo a tensão típica de treinamentos autoritários, sem perder o rigor marcial e técnico.
Organizada de forma itinerante, a escola social de boxe de rua começou atuando em praças e parques, levando um boxe focado nos fundamentos e adaptado à realidade das ruas. Mais que um esporte, a prática é um ato político: ocupa espaços públicos, propõe formas alternativas de convivência fora das lógicas dominantes e cultiva solidariedade. Educa-se não só a boxear, mas também a responsabilidade moral que deve acompanhar essa habilidade.
Destaca-se a importância do trabalho coletivo, em que os mais experientes apoiam os que têm mais dificuldades, promovendo aprendizado e enriquecimento mútuo, de modo que todos aprendam e se enriqueçam culturalmente uns com os outros. Além dos ganhos pedagógicos, essa cooperação fortalece os vínculos afetivos, o espírito de camaradagem e a constituição enquanto classe. Também favorece o surgimento de lideranças legitimadas pelo grupo e ajuda a superar inibições e baixa autoestima.
Ensina-se que se luta não para dominar, mas para se defender, proteger os outros, divertir-se e crescer socialmente. Afinal, lutar é precisamente o nosso modo de viver!
Matéria publicada na edição impressa nº319 do jornal A Verdade