Durante a ditadura militar fascista de 1964, as mulheres tiveram destaque na resistência durante esse período no trabalho operário, no campo e na luta pela Anistia.
Catarina Matos | Fortaleza (CE)
MULHERES – Em 1961, em meio a uma conjuntura mundial polarizada entre países capitalistas e socialistas, tomou posse na Presidência do Brasil o democrata João Goulart, após grande pressão popular. O país ansiava por mudanças, e os debates acerca das Reformas de Base passaram a ser uma crescente daquele período. Em março de 1964, o presidente convocou o histórico Comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde se reuniram mais de 200 mil trabalhadoras, trabalhadores e estudantes. Foi nesse ato que Jango apresentou as propostas das Reformas de Base: fim do analfabetismo, Reforma Agrária, Urbana, Bancária e estatização dos setores estratégicos.
Porém, as Forças Armadas brasileiras, asseguradas pelo governo norte-americano imperialista, já tinham um plano arquitetado para impedir a concretização das reformas e tomar o poder do Estado. Em 01 de abril do mesmo ano, o presidente João Goulart tomou a decisão de não resistir ao aparato bélico colocado nas ruas do Rio de Janeiro, ao reforço que vinha dos EUA e à imprensa nacional golpista, e exilou-se no Uruguai. Contudo, o povo brasileiro, durante 21 anos, ficou e lutou.
Durante esse período, as mulheres tiveram destaque na resistência à ditadura militar fascista no trabalho operário, no campo e na luta pela Anistia.
Classe operária feminina
O primeiro ataque das forças militares fascistas foi contra as entidades sindicais populares e organizações estudantis. Direções foram cassadas, dirigentes presos e a imprensa sindical e popular amordaçadas. O objetivo era impedir a continuidade das históricas lutas que avançavam a consciência e as condições de vida do povo brasileiro.
Um exemplo disso, aconteceu em 25 de novembro de 1968, quando as trabalhadoras castanheiras cruzaram os braços e realizaram piquetes na porta da empresa Cione, em Fortaleza (CE). Elas lutavam pelo pagamento de horas-extras e contra os atrasos constantes nos salários, que as deixavam numa situação de imensa miséria.
A greve foi dura, com enfrentamento entre as operárias e os seguranças da fábrica. Muitas foram agredidas e precisaram ser atendidas em hospitais da região. “Elas não deixaram barato. Pegaram pedaços de madeira para não entrarem à força. Eles tentaram duas ou três vezes, mas não conseguiram. Nunca vi uma coisa tão dramática”, relata Jaime Liberio, diretor do Sindicato do Óleo, à época. O movimento ficou conhecido como “A Guerra das Castanheiras” e durou sete dias. Suas lideranças foram presas no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão de perseguição da ditadura militar.
Luta armada
Não conseguindo frear o movimento popular e operário, mesmo com intensas perseguições, os militares resolveram dar um golpe dentro do Golpe. Em 1968, fecharam o Congresso Nacional, cassaram parlamentares e partidos políticos, suspenderam direitos e a Justiça foi amordaçada.
Em tais condições de clandestinidade impostas, nasceram diversas organizações revolucionárias. Destacam-se o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); a Ação Libertadora Nacional (ALN), dirigida por Carlos Marighella; a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sob o comando do capitão Carlos Lamarca; e o Partido Comunista Revolucionário (PCR), sob a liderança do camarada Manoel Lisboa de Moura.
Iara Iavelberg, natural de São Paulo (SP), foi uma das mulheres que esteve na vanguarda dessas lutas. Como liderança do MR-8 e da VPR, participou do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher. Em 1971, foi cercada e encurralada pela polícia, presa e assassinada.
Outras guerrilheiras não podem deixar de ser lembradas, aquelas que atuaram no campo, como na Guerrilha do Araguaia: Jana Barroso, Helenira Resende e Dinalva Conceição Teixeira. Todas assassinadas após uma expedição e cerco do Exército brasileiro. Seus corpos nunca foram encontrados.
Essas companheiras não se contentaram em viver num sistema ditatorial, patriarcal e misógino, que impunha às mulheres uma vida de opressão. Do campo às cidades, elas combateram a ausência de direitos, a fome, o desemprego, a violência, os papeis de gênero e tudo aquilo que explorava nossa classe.
Contra a carestia e pela anistia
Foi na periferia de São Paulo, a partir dos clubes de mães organizados nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, em 1972, que se iniciou um movimento contra o aumento do custo de vida. As mulheres e mães reivindicavam que os “senhores do poder” tomassem uma providência sobre a situação na qual a classe trabalhadora vivia. “Porque o Brasil é uma terra tão rica e as mães choram na hora de pôr a panela no fogo pra fazer a comida pros filhos”. É assim que tem início o documento que deu origem ao movimento intitulado Movimento Contra o Custo de Vida, ou Movimento Contra a Carestia.
Essas mulheres, donas de casa, perceberam que precisavam sair de dentro de seus lares e conseguiram organizar um abaixo-assinado contra a carestia e a política econômica do governo. Com mais de um milhão de assinaturas, enfrentaram corajosamente, com seus filhos nos braços, a força policial da época para garantir a entrega do documento popular ao ditador-presidente Ernesto Geisel.
Naquele momento também nascia um forte movimento em defesa dos presos e desaparecidos políticos da ditadura militar. Eram filhas, mães, esposas, irmãs que incansavelmente batiam nas portas das delegacias e prisões buscando notícias de seus familiares.
O Movimento Feminino Pela Anistia conseguiu formar uma rede internacional de denúncias aos crimes políticos, o que pressionou o Congresso Nacional a aprovar a Lei da Anistia, em agosto de 1979. Infelizmente, esta foi deturpada, inocentando também os militares assassinos e torturadores do período. Um erro que deve ser corrigido. E as mulheres continuam a lutar por Memória, Verdade e Justiça no Brasil dos dias atuais.
Apesar da imposição patriarcal da história, que pretende invisibilizar a participação ativa e criadora das mulheres na luta pela libertação dos povos, o legado das mulheres deve ser reconhecido como instrumento de ânimo, força e energia para aquelas que hoje continuam nas “trincheiras” de luta pelo fim da sociedade capitalista e pela construção do socialismo no Brasil e no mundo.
Matéria publicada na edição impressa nº319 do jornal A Verdade