Foi realizado em 02 de dezembro de 2025, a Sessão Solene de Outorga Póstuma do Título de Professor Emérito ao arquiteto João Batista Vilanova Artigas. A homenagem, realizada no Auditório Ariosto Mila, integrou as comemorações pelos 110 anos do nascimento do arquiteto e marcou o encerramento da exposição “Vilanova Artigas: estruturas vivas”, dedicada a revisitar sua produção, pensamento e legado.
Alberes Simão| Petrolina (PE)
HISTÓRIA- A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), presta uma homenagem histórica e profundamente simbólica ao outorgar, de forma póstuma, o título de Professor Emérito a João Batista Vilanova Artigas, um dos maiores arquitetos brasileiros e uma das figuras intelectuais mais comprometidas com a transformação social no século XX.
Vilanova Artigas não foi apenas um arquiteto de extraordinário talento. Foi um militante da cultura, um intelectual orgânico da classe trabalhadora. Artigas não foi apenas o projetista do icônico edifício da FAU na Cidade Universitária; ele foi o arquiteto de uma pedagogia transformadora. Foi militante histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB) quando teve contato com grandes intelectuais brasileiros como Mário Andrade, Oscar Niemeyer e Mario Schenberg, Artigas acreditava que a arquitetura deveria ser um instrumento de emancipação social, e não um luxo a serviço da especulação imobiliária.
Sua visão humanista e sua recusa em baixar a cabeça diante do autoritarismo fizeram dele um alvo prioritário do regime militar. Em 1969, através do nefasto AI-5, Artigas foi cassado, impedido de lecionar onde teve uma aposentadoria compulsória , assim como os demais professores da USP como Florestan Fernandes, Mário Schenberg, Jean-Claude Bernardet, Thomas Farkas e entre outros . A ditadura tentou apagar seu nome das salas de aula, mas não conseguiu derrubar os pilares de concreto e consciência que ele ajudou a erguer, que compreendeu a arquitetura e o urbanismo como instrumentos de luta política e emancipação social. Sua obra e sua prática docente sempre estiveram orientadas pela defesa do interesse coletivo, pela crítica ao individualismo burguês e pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Fundador e principal formulador da chamada Escola Paulista de Arquitetura, Artigas rompeu com o academicismo elitista e com a arquitetura voltada ao lucro privado. Em seus projetos como o edifício da própria FAU-USP o espaço se organiza a partir da convivência, da transparência e do uso comum, expressando concretamente valores de solidariedade, democracia e coletividade. Sua arquitetura é, antes de tudo, uma arquitetura política, que rejeita a segregação espacial imposta pelo capitalismo e afirma o direito do povo à cidade.
Artigas vem a falecer em 12 de janeiro de 1985, aos 69 anos. Sua esposa, Virginia, não queria que o velório ocorresse no prédio da FAU. Ela acreditava que Artigas morreu de desgosto pela forma como foi tratado pela comunidade universitária no momento de sua reintegração. O velório ocorreu no salão da Câmara Municipal, pelas mãos de um vereador do PCB que não sabia quem era o homenageado.
A importância dessa homenagem póstuma
A concessão do título de Professor Emérito, ainda que tardia, representa mais do que um reconhecimento acadêmico: é um. É a afirmação de que as ideias de Artigas perseguidas ontem permanecem vivas e necessárias hoje, num país marcado pela desigualdade urbana, pela mercantilização do espaço e pela exclusão social. Dentre os requisitos que fizeram o professor Artigas receber a outorga estão: A Defesa da Escola Pública: Artigas via a universidade como o laboratório da futura sociedade brasileira. O Desenho como Arma: Para ele, projetar espaços amplos e sem portas (como o próprio prédio da FAU) era uma lição de democracia e convívio coletivo. Resistência Intelectual: Sua trajetória recorda que o papel do professor vai além da técnica; é a formação de sujeitos críticos e comprometidos com a realidade nacional.
Em tempos de ofensiva neoliberal, em que a universidade pública é atacada e o pensamento crítico criminalizado, relembrar Vilanova Artigas é reafirmar o compromisso da FAU-USP, e de toda a comunidade acadêmica progressista, com um projeto de sociedade orientado pelas necessidades do povo, e não pelos interesses do capital.
Vilanova Artigas vive em cada espaço de convivência que projetou, em cada estudante que formou e em cada luta por uma cidade socialista, democrática e popular. Sua obra e seu exemplo seguem como ferramentas de combate e esperança na construção de um Brasil verdadeiramente emancipado.
Este momento não deve ser encarado apenas como uma celebração do passado. Em tempos de ataques constantes à educação pública e de avanço do pensamento reacionário no planejamento urbano, a figura de Artigas serve como bússola.
Homenagear um comunista é reafirmar o compromisso com uma reforma urbana radical, onde o direito à cidade prevaleça sobre o lucro, e onde a universidade se pinte, definitivamente, de povo.
VILANOVA ARTIGAS, PRESENTE!