A história da luta por moradia, terra e trabalho de Francisco Bernardo, líder camponês e símbolo da resistência de Porecatu.
Willian Yukio Araki
De retirante nordestino à posseiro pioneiro.
Francisco Bernardo Dos Santos foi um camponês que morava no estado da Paraíba, uma região dominada pelo grande latifúndio, com poucas oportunidades para a grande massa camponesa formada após o fim da escravidão no Brasil.
Pouco se sabe sobre sua vida antes de se retirar para o estado do Paraná buscando a oportunidade de obter sua terra durante o movimento de “Marcha para o Oeste”, lançado pelo governo Vargas, que prometia terras a quem estivesse disposto a desbravar as áreas inabitadas do interior oeste do Brasil.
Em 1942 chegou com sua família à Região de Porecatu, fixando moradia entre as cidades de Florestópolis e Jaguapitã. Camponês pioneiro na região do Paraná, abriu caminhos, derrubou árvores e estabeleceu estradas para estabelecer os primeiros núcleos habitacionais para a produção de arroz, milho e feijão, além da criação de aves e porcos.
O líder da resistência.
Sua resistência no campo se iniciou em 1950, quando o grileiro e latifundiário Geremia Lunardelli iniciou um processo de intimidação e violência contra sua família, buscando a posse de terras. Após uma invasão à sua propriedade por policiais e jagunços, movido por seu senso de justiça inabalável, iniciou uma jornada à Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro buscando apoio de autoridades aos camponeses da região de Porecatu. Encontrou apoio nos comunistas, especialmente Pedro Pomar do Partido Comunista do Brasil (PCB) e no Rio de Janeiro, enviou uma carta exigindo uma ação do Presidente Eurico Gaspar Dutra.
Sem sucesso por vias legais, inicia seu caminho de volta ao Paraná certo de que o único caminho para garantir a segurança dos camponeses seria a própria organização popular. No entanto, sofreu uma emboscada da polícia na cidade de Regente Feijó, fruto de uma delação do então Deputado Estadual do Paraná Anisio Luz. Apesar de nunca ter sido fichado, sofreu violência policial e tortura: Foi amarrado ao fundo de um jipe por vinte dias, teve suas duas pernas quebradas com o pretexto de “evitar sua fuga” e depois transferido para o município de Jaguapitã. Lá foi amarrado a uma árvore em praça pública e exposto por 18 horas e em seguida fuzilado na frente de toda a população presente. O objetivo era que ele servisse de exemplo para que outros camponeses não denunciassem as práticas violentas dos latifundiários, enterrando a resistência no campo.
A Revolta de Porecatu
Francisco Bernardo serviu de exemplo. Após seu covarde assassinato, os camponeses iniciaram sua organização e luta pela terra, fundaram e organizaram as ligas camponesas, buscaram apoio dos comunistas e resistiram no que ficou conhecido como “Guerrilha de Porecatu”.
Esse conflito armado no campo se estendeu dos anos de 1948 a 1951, envolvendo diversas famílias camponesas da região norte do Paraná, com grande apoio popular em várias cidades do estado e direcionamento político através do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A revolta tinha como principais inimigos os jagunços contratados pelos grileiros, grandes latifundiários do Paraná e São Paulo, além da polícia à serviço do estado burguês.O povo, no entanto, estava com os guerrilheiros de Porecatu. Através de campanhas de solidariedade encabeçadas pelos comunistas do Paraná, além de apoiadores e simpatizantes da causa dos camponeses, conseguiram mantimentos, medicamentos e abrigo durante o conflito. Foi esse apoio popular, aliado à justeza da luta dos posseiros e a política dos quadros comunistas que garantiram quase 3 anos de resistência, encerrada apenas com o deslocamento de 700 militares ordenados pelo representante dos latifundiários Getúlio Vargas, presidente do Brasil na época.

O legado de Francisco Bernardo.
A vida do camponês Francisco Bernardo faz parte da história de lutas do povo paranaense e a revolta dos camponeses perante seu assassinato mostra como seu exemplo de integridade, amor à família e à sua comunidade camponesa era profundamente sentido por todos que o conheceram. Seu legado para os paranaenses e todo o povo brasileiro é o de resistência e luta por seu direito à terra e moradia num país desigual. Que seu exemplo seja seguido por todos aqueles que almejam viver em um mundo mais justo, sem fome e com um lar digno para todos, um mundo socialista.
“Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser O Severino
que em vossa presença emigra.”
João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina.