A nomeação de cerca de 3 mil docentes no Distrito Federal é fruto da luta organizada de professoras e professores que enfrentaram anos de contratos precários e reafirmam que a conquista é apenas o primeiro passo na defesa da educação pública.
Vítor Ventura e André Rosa- Brasília
Apesar da conquista, docentes reforçam que a nomeação é só o início de uma luta ainda maior em benefício dos trabalhadores e da educação brasileira
Cerca de 3.000 professores e professoras do Distrito Federal que foram recém-nomeados passaram pela Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (Eape) nesta segunda-feira (2). Os trabalhadores enfim puderam escolher onde irão ministrar aulas como efetivos servidores públicos. O Jornal A Verdade e os docentes do Movimento Luta de Classes (MLC) do DF estiveram presentes na ocasião para ressaltar a importância da mobilização da classe e para reforçar que essa conquista é resultado da pressão da categoria organizada.
A escolha das escolas é um passo importante para esses novos professores efetivos do DF, mas não significa que a luta para por aí. O professor de história e militante Guilherme Amorim contou sobre a realidade de grande parte dos docentes do país, que vivem por anos sob a incerteza do contrato temporário tendo que conciliar o trabalho em condições precárias e os estudos para conseguir um cargo efetivo.
“Eu fui professor temporário por 14 anos. Ou seja, desde quando eu estava na faculdade, comecei a dar aula, eu tive essa experiência em Minas Gerais pela rede estadual, depois eu passei por várias prefeituras também nesse regime de contratação temporária. Eu queria destacar que é um negócio muito precário, um negócio muito ruim, porque você não tem segurança financeira, não tem a segurança do seu trabalho. A qualquer momento você pode perder o seu emprego. É uma situação muito precária. Aqui no DF, eu fui professor temporário por 4 anos”, relatou Guilherme.
Mesmo com a conquista, o professor sabe da importância de continuar a luta para conseguir ainda mais avanços para a categoria. “Não quer dizer que agora eu tomei posse, agora que nós tomamos posse, que vamos ficar numa situação confortável. Pelo contrário. Primeiro que 2026 começou com uma conjuntura muito difícil. No aspecto internacional, o imperialismo norte-americano mais uma vez demonstrando as suas garras, influenciando a política do mundo inteiro, inclusive aqui a nossa. Segundo que nós estamos visualizando a nível nacional a crise do Banco Master, que para nós aqui do DF tem relação direta com o BRB, que tem relação com o nosso fundo de previdência”, destacou Guilherme.
Ele ainda ressaltou: “a escola é um ambiente de luta. Salas superlotadas, infraestrutura, ventilação. Nós temos que lembrar que a categoria dos nossos companheiros de educação é uma categoria extremamente precarizada, muito vulnerável, que a gente não pode esquecer”, completou.
Mobilização de professores no DF cresce a cada dia
Quem também conviveu anos no regime temporário foi a professora de artes Juliana Seixas. Depois de 13 anos nesse tipo de contrato, agora efetivada, ela relatou que segue firme na batalha para que a categoria conquiste mais avanços no DF. “Tem muita coisa para lutar ainda. A gente não conseguiu nem colocar em prática as metas de 2014, tanto para para os professores quanto para melhoria da educação. Todas as metas que a gente traçou de 2014 para cá, com a pandemia teve uma precarização maior dentro de sala de aula, na estrutura das escolas, então é muita luta. É luta para a vida toda”, declarou Juliana.
Já Bruna Carla, professora de Educação Física também nomeada, relembrou que no Brasil a educação não é pensada por educadores, e que isso acaba por prejudicar tanto os trabalhadores quanto os próprios alunos. “É um desafio porque parece que as ordens superiores não vêm da realidade que é a sala de aula, e a gente tem que se virar para atender”, contou Bruna.
Bruna aposta na continuidade da luta da categoria: “A nossa categoria, eu acho que é uma das mais prejudicadas. Se a gente for comparar o nosso salário com o dos servidores públicos, é bem abaixo. A nossa profissão é muito difícil. Por exemplo, tem muitas escolas aqui no Plano Piloto que não têm quadra coberta. Tem muitas coisas para a gente enfrentar ainda. A educação pública, ela nunca foi valorizada do jeito certo”, apontou a professora.
Um levantamento nacional realizado pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE), vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF) e nascido de parceria com o Ministério da Educação (MEC), apresentou um panorama preocupante sobre uma forma de violência sofrida por profissionais da educação em razão do seu ofício. Um estudo quantitativo da perseguição a educadoras/es no Brasil analisa dados produzidos junto a 3.012 educadores de todo o país, da educação básica e superior, no âmbito da educação pública e privada.
MLC continua a luta
A luta continua porque quem lucra com o projeto da educação pública sucateada sabe que a classe trabalhadora organizada conquista melhorias. Tanto é assim, que no Brasil pelo menos 90% dos docentes de cada uma das regiões do país já sofreram, presenciaram ou souberam de casos de censura a colegas do seu entorno. O objetivo é claro: intimidar professoras e professores. O dado é do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE) divulgado no ano passado. O estudo também mostra que existem picos das situações de censura em anos eleitorais, especialmente em 2018 e 2022. Para esse ano, quanto mais professores mobilizados e organizados, mais difícil será para aqueles que lucram com a educação precarizada.
Como bem disseram o professor e as professoras, apesar da conquista, ainda há muito o que se fazer para que a categoria seja de fato valorizada no Brasil. Sob o sistema capitalista, os direitos conquistados podem ser facilmente arrancados pela classe dominante que realmente detém o poder político. O Movimento Luta de Classes vai continuar a tarefa de organizar e mobilizar não só os professores, mas as mais variadas categorias de profissionais para que a realidade da classe trabalhadora seja de fato transformada.