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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Contra o racismo religioso no Brasil

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Dia 21 de janeiro é Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, data que precisa ser lembrada e discutida, especialmente por vivermos uma onda de violência e perseguição aos cultos e religiões de matriz africana. 

André Luiz- Petrolina (PE)


SOCIEDADE- Nosso país tem enfrentando cada vez mais a letalidade, violência e perseguição ao povo preto das periferias. Por isso o dia 21 de janeiro é uma data importante em nosso país, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, data que homenageia Mãe Gilda de Ogum, Ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador (BA), que em 1999 sofreu um infarte após uma onda de perseguição e ataques ao Candomblé, tendo sua imagem como foco das difamações por parte de fundamentalistas religiosos. Mas é importante entender o que significam discriminação, preconceito, racismo e raça para compreender a importância de substituir o termo intolerância religiosa por racismo religioso e como isso está presente em nosso dia a dia.

Raça, preconceito racial e racismo

O conceito de raça surgiu inicialmente na classificação de plantas e animais, sendo posteriormente elevado para categorizar os seres humanos. Esse fenômeno, oriundo do século XVI, forneceu substância teórica para a definição e aprovação de hierarquias raciais. O projeto expansionista mercantilista e o ‘descobrimento’ do Novo Mundo, aliados ao pertencimento a uma comunidade política ou religiosa, consolidaram o modelo de “homem universal”, baseado, evidentemente, no europeu.

A padronização cultural deveria seguir o tradicionalismo ocidental; caso contrário, seria taxada como primitiva e necessitaria de “domesticação”. Em resumo, o europeu era considerado o modelo de sociedade e sapiência, legitimando sua missão de levar conhecimento aos chamados povos do Novo Mundo.

Por isso, quando falamos em Racismo Estrutural, estamos nos referindo a uma prática homogênea, mantida e pensada, resquício do passado escravagista brasileiro e que atua de forma intrínseca em todas as instituições, sejam públicas ou privadas. Ou seja, nosso país foi fundado sobre o sangue do indígena e do negro sequestrado dos países africanos. E isso desperta o ódio justamente da classe que enriqueceu e se mantém no poder lucrando com esses crimes, até hoje não resolvidos.

A discriminação consiste em atribuir tratamento diferenciado a membros de grupos racialmente identificados, tendo como requisito fundamental o poder, ou seja, a possibilidade efetiva do uso da força, sem o qual não é possível atribuir vantagens ou desvantagens por conta da raça. Já o preconceito refere-se a um juízo baseado em estereótipos acerca de indivíduos pertencentes a determinado grupo racializado, podendo ou não resultar em práticas discriminatórias. O racismo, por sua vez, é um método de discriminação que tem a raça como fundamento e que se manifesta por práticas conscientes ou inconscientes, culminando em desvantagens ou privilégios para indivíduos, a depender do grupo racial ao qual pertençam. Essas três visões são reforçadas de modo sistemático há tanto tempo que é até naturalizado.

As origens do racismo religioso no Brasil

Antes de mais nada, é preciso reconsiderar o termo discriminação como racismo religioso. Historicamente, os registros de ocorrência policiais e notícias sensacionalistas de jornais sempre usavam os termos do racismo científico, prática aceita pela elite brasileira, para tratar da perseguição aos terreiros, as religiões dos negros brasileiros, suas manifestações culturais e sua presença. No início do século XX, com os processos de remanejamento dos ex-escravizados, a religião dos negros foi ressignificada. A umbanda surgiu como forma de suprir as necessidades da classe média carioca. A discrepância central estava no sacrifício presente no candomblé, considerado bárbaro e visto como obstáculo ao projeto higienista civilizador.

Um exemplo dessa perseguição é de 1951, quando a revista O Cruzeiro publicou uma reportagem intitulada As noivas dos deuses sanguinários. A partir de então, a perseguição às casas de candomblé passou a ser retratada como ato heroico, intensificando ainda mais essa visão racista e preconceituosa. Em Pernambuco, no chamado Estado Novo (1937-1945) o interventor do estado, Agamenon Magalhães, foi responsável por perseguir e proibir os cultos afro e todas as atividades dos terreiros.

Ou seja, quando se fala em racismo religioso, não se trata apenas da perseguição ao indivíduo, mas da negação da própria existência dos afro-brasileiros e da coletividade da humanidade dos adeptos dos cultos de matrizes africanas. Sendo que muitos desses terreiros foram fundamentais para guardar nossa cultura e abrigar inclusive militantes perseguidos pelo regime, o mesmo aconteceu durante a ditadura de 1964-1985, permanece em nossos dias e é instrumento usado e mantido pelo capitalismo para nos dizimar, dividir e exterminar. Enfrentar o racismo e organizar o nosso povo contra o racismo é fundamental e estratégico para transformar nosso país.

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