Enquanto gigantes do setor de supermercados movimentam 10% do PIB nacional e acumulam lucros bilionários, 19 milhões de brasileiros ainda enfrentam a insegurança alimentar severa.
Matheus Araújo | Recife (PE)
LUTA POPULAR – Recentemente, a ONU considerou que o Brasil saiu do mapa da fome. Essa manchete foi estampada em diversos jornais e veículos de comunicação e usada pelo Governo Federal, muitas vezes em tom de comemoração. O problema é que, ao tomar essa decisão, a ONU e seus especialistas analisam somente números e dados, ficando longe da realidade do povo brasileiro.
A fome segue presente na vida de milhões de pessoas. Ocorre, na verdade, uma tentativa de fugir e camuflar a realidade. As pesquisas subdividem a chamada “insegurança alimentar” (que nada mais é do que um nome bonito para a fome) em baixa, moderada e alta. Mas fome é fome, e hoje 19 milhões de brasileiros, que a enfrentam diariamente. Sua grande maioria é de mulheres e pessoas negras.
“Quem inventou a fome são os que comem” – Carolina Maria de Jesus
Engana-se quem acha que a fome é uma questão do acaso, um castigo divino ou um problema individual. A verdade é que a fome é um projeto político, de um Estado orquestrado com o objetivo de dar lucro a um pequeno grupo de pessoas em detrimento do sofrimento da maioria do povo.
Segundo o ranking da Associação Brasileira de Supermercado (Abras), só em 2024, o grupo francês Carrefour, envolvido em diversos casos de mortes, como o de João Alberto, há cinco anos, em novembro de 2020, em Porto Alegre, e denunciado por financiar e alimentar o Exército de Israel no genocídio em Gaza, lucrou R$ 120,6 bilhões. Já o grupo Assaí foi o que mais cresceu, aumentando seu lucro para R$ 80,5 milhões, seguido do grupo Mateus, que, mesmo tendo R$ 36,3 milhões de lucro, em 2024, negou cestas básicas às famílias organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e tenta, até hoje, criminalizar aqueles que lutam contra a fome.
Ao todo, esse setor movimentou, no ano passado, quase 10% do PIB brasileiro, e segue se concentrando cada vez mais em grandes conglomerados. Mas de onde vem tanto dinheiro?
Primeiro, não seria exagero falar o óbvio: esses grupos lucram com a fome. Quanto maior a carestia e o preço dos alimentos, maior será o lucro. Segundo, esses grupos exploram cerca de 9 milhões de trabalhadores, a sua grande maioria na cruel escala 6X1, com baixos salários e grandes humilhações. E, por último, esses mesmos grupos desperdiçam R$ 4 bilhões em alimentos por ano, ou seja, é melhor jogar fora do que alimentar aqueles que enfrentam a fome.
Lutar contra a fome não é crime
Pior é que o Estado não só não combate a fome, como é cúmplice daqueles que lucram com ela, além de perseguir aqueles que lutam contra as causas da fome. Não são poucos os exemplos e o mais recente, em Santa Catarina, escancara essa realidade.
Na manhã do dia 27 de novembro, as Polícias Civil e Militar do governador fascista Jorginho Mello (PL) arrombaram e invadiram a sede do partido Unidade Popular (UP), em Florianópolis, além de realizar buscas e apreensões em casas de militantes do MLB. Uma investigação que corre em sigilo e não teve como alvo nenhuma facção criminosa, muito menos algum político corrupto. Foram perseguidos aqueles que ousaram lutar contra a fome e a miséria. Em nota, a PM assume que, entre outros motivos, o protesto contra a fome realizado pelo MLB, no dia 07 de setembro, em uma grande rede de supermercados, é apontado como justificativa para a ação violenta contra os militantes populares.
Ao ouvir uma das centenas de mulheres que foram mobilizadas na ocupação dos supermercados, vemos que o MLB passa longe de ser uma organização criminosa: “O MLB mudou minha vida, eu pagava aluguel, conta de luz, tudo caro. Eu ia no mercado e, aos poucos, eu via as coisas dentro de casa irem acabando. Eu achava que a culpa era minha. Mas depois entendi que a culpa era desse sistema, que só faz a gente trabalhar. Eu moro na Ocupação Anita Garibaldi. Lá eu saí da escravidão do aluguel, e agora eu consigo dar uma alimentação de qualidade aos meus filhos, consigo dormir com tranquilidade. A gente fez o ‘Mães contra a fome’, fomos chamados de vagabundos, mas somos trabalhadoras que lutam pelos seus direitos”, afirma Saionara de Jesus, coordenadora e moradora da Ocupação.
O MLB, há mais de 20 anos, organiza protestos contra a fome. A partir dessas lutas, como o Natal Sem Fome, centenas de milhares de cestas foram conquistadas e distribuídas. “Eu sou mãe de quatro filhos. Antes de conhecer o MLB e participar das lutas contra a fome, eu sofri muito, muitas vezes, sem ter o que dar de comer para os meus filhos. Agora, as coisas são diferentes, eu recebo as cestas da luta e temos o que comer, sem precisar pedir a um e a outro”, Laura Carvalho, 23 anos, moradora de Jaboatão dos Guarapes, Região Metropolitana do Recife.
Por fim, o MLB, em seus 26 anos de existência, deixa claro que sua luta não é só contra a fome ou pela moradia digna. A luta também é pelo fim do capitalismo e pela construção do poder popular e do socialismo.
Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade.