Apesar de somarem cinco milhões na indústria, as operárias brasileiras enfrentam uma realidade de assédio e salários 20% menores que os dos homens.
Ana Carolina Sales | Movimento Luta de Classes (MLC)
MULHERES – Nos galpões das fábricas brasileiras, onde se mede a vida em turnos, metas e lucros, são quase cinco milhões de operárias. De acordo com o levantamento feito pelo Ideies, as mulheres representam 25% da mão de obra nas indústrias e se concentram ainda em fábricas têxteis.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), as mulheres ganham em média 20% a menos que os homens, mesmo quando desempenham funções iguais. Ainda, são as que mais sofrem pela humilhação, assédio e principalmente a violência (moral, psicológica ou sexual). Segundo a pesquisa da assessoria empresarial KPMG, mais de 81% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio no trabalho; 41% relatam violência moral ou psicológica; 26%, assédio sexual.
Em vários ramos da indústria, as mulheres são minoria e, por isso, os casos de assédio são agravados. Ao denunciarem, as operárias se deparam com o descaso das direções das fábricas, como relata esta operária de uma montadora de São Bernardo do Campo (SP), que preferiu não se identificar: “Um operário assediava minha amiga no trabalho e, quando ela fez a denúncia, a fábrica foi lá e mudou ele de setor para um setor com maioria de mulheres só para dizer que fez alguma coisa. As mulheres do setor ficaram incomodadas com a presença dele lá, mas a fábrica não fez nada”. E ela acrescenta: “quando precisamos ir ao banheiro, temos que pedir para o supervisor vir, para não termos que parar a linha. Muitas vezes, chamamos e ele nos ignora”.
Ainda nessa mesma montadora, as operárias de um setor relataram que passaram a ter que trancar a porta do banheiro feminino, pois sofriam assédio e tinham medo de serem violentadas nos banheiros. Também há diversos casos de assédio realizados pelos próprios chefes, o que muitas operárias não denunciam com medo de serem demitidas.
Um caso que deixa claro o nível de exploração a que as operárias estão submetidas foi o da a BRF, uma multinacional de produção, processamento e comercialização de carnes e produtos alimentícios. No ano passado, uma operária venezuelana, grávida de oito meses de gêmeas, foi submetida a parir na portaria da fábrica após cumprir um turno de mais de oito horas de trabalho (iniciado às três da manhã). Ao sentir dores enquanto trabalhava na linha de produção do frigorífico, pediu para sair e procurar atendimento médico, mas ouviu um “não” do seu chefe, pois “atrapalharia o funcionamento da linha de produção”. Horas depois, entrou em trabalho de parto na frente da fábrica. As bebês nasceram ali, no chão, e não sobreviveram.
Incentivadas a não denunciar e a não se organizarem, uma operária metalúrgica de uma fábrica em Rio Grande da Serra (SP) relata: “Quando fui assinar o contrato de admissão, a moça dos Recursos Humanos me aconselhou a não me filiar ao sindicato porque os filiados eram mal vistos pelos outros operários”.
Organizar as operárias
O lucro dessas grandes fábricas vem da exploração da classe operária e, mais ainda, das operárias, que recebem salários menores e têm direitos como licença-maternidade e creche nas empresas, negados. E ainda sem nenhuma atitude real para acabar com o assédio e tornar o ambiente de trabalho digno.
Por isso, organizar as mulheres operárias é fundamental. Devemos nos unir, pressionar nossos sindicatos para que garantam encaminhamentos aos casos de assédio, sem expor as vítimas, realizem a luta por salários iguais e jornadas de trabalho dignas.
Como afirmou a grande revolucionária comunista Clara Zetkin, em 1889: “A questão da emancipação das mulheres não é isolada, mas sim parte da grande questão social. Elas sabem muito bem que essa questão na sociedade atual não pode ser resolvida sem uma transformação básica da sociedade. A questão da emancipação das mulheres é uma filha dos tempos modernos, nascida na era das máquinas”.
Matéria publicada na edição impressa Nº 327 do jornal A Verdade