As fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata Mineira no último mês deixaram um rastro de mais de 70 mortos e 8 mil desabrigados, concentrados especialmente em Juiz de Fora e Ubá.
Manoel Vieira | Belo Horizonte (MG)
BRASIL – No último mês, Minas Gerais foi atingida por fortes chuvas, principalmente na Zona da Mata Mineira, causando inundações em cerca de 15 cidades, causando mais de 70 mortes e deixando mais de 8 mil pessoas desabrigadas nas cidades de Juiz de Fora e Ubá.
Infelizmente, isto não é uma novidade. É recorrente vermos a população pobre sofrer com as chuvas por conta da especulação imobiliária e da irresponsabilidade do Estado burguês.
Ano após ano, cenas como essas se repetem. Em 2020, por exemplo, cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, como Sabará, Santa Luzia, Nova Lima e Raposos, contabilizaram dezenas de mortes e milhares de desabrigados com as chuvas. Em 2022, em Petrópolis (RJ), em poucas horas de chuvas, 235 pessoas morreram e, até hoje, a cidade se recupera da tragédia.
Em 2024, 96% das cidades do Rio Grande do Sul foram atingidas por inundações e deslizamentos de terra, tirando a vida de 184 pessoas e afetando 2,4 milhões de habitantes, grande parte perdeu suas casas.
Cidades divididas
A especulação imobiliária e a desigualdade social que é fruto da exploração dos ricos sobre classe trabalhadora, casada com a falta de políticas públicas eficientes, fazem com que as famílias pobres não tenham acesso a uma moradia digna. Hoje, as cidades brasileiras estão divididas entre a cidade dos ricos e a cidade dos pobres. Para os ricos, toda a infraestrutura necessária é aplicada, as áreas são urbanizadas e os impactos são quase imperceptíveis; já as famílias pobres, sem alternativas, são obrigadas a procurar os lugares mais baratos, que são, frequentemente, os de maiores riscos.
Geralmente, para conseguir um pequeno pedaço de terra e construir sua casa, ou até mesmo para diminuir os custos com o valor do aluguel, as famílias mais pobres, que vivem com os baixos salários ou sofrem com o desemprego, acabam morando em áreas que estão sujeitas à inundação, por estarem a beira de rios, ou a risco de deslizamento, por estarem em encostas de barrancos.
Por isso, é preciso ter mais investimentos em drenagem, contenção de encostas, planejamento urbano e prevenção. É preciso, também, mapear áreas de risco e agir antes que a lama desça, pois todas essas tragédias poderiam ser evitadas.
O governador mineiro, Romeu Zema (Novo), fechou completamente os olhos e ignorou a tragédia anunciada. O Centro de Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) já alertava, desde 2020, sobre o aumento de deslizamentos na região da Zona da Mata, sendo Juiz de Fora a terceira no ranking de cidades no país com o maior número de áreas de risco, com cerca de 25% da população vivendo nessas condições.
Mesmo com todas estas informações, entre 2023 e 2025, foram cortadas 96% das verbas que deveriam ser aplicadas na contenção de enchentes e prevenção a desastres, reduzindo de 134,8 milhões de reais (valor que já é extremamente baixo) para apenas 5,8 milhões de reais (destes, apenas 36 mil reais foram executados). A omissão do Estado burguês demonstra mais uma vez o descompromisso com a população pobre.
Brigadas de solidariedade
Nos dias seguintes à tragédia, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), juntamente com a União da Juventude Rebelião (UJR) e a Unidade Popular (UP), realizaram brigadas de solidariedade nas cidades atingidas, organizando mutirões de limpeza, coleta e distribuição de doações e visita às famílias desabrigadas.
Paloma de Oliveira, de 31 anos, é autônoma e morava no bairro Bonfim, em Juiz de Fora. Durante a brigada de solidariedade estava abrigada na Escola Municipal Professora Marlene Barros com suas quatro filhas e o namorado. Ela nos relata assim o momento de terror: “Foi horrível. A defesa civil nos tirou de casa às duas da manhã, minha casa não caiu, mas tá entrando água, tá em risco, o barranco que desabou tomou conta de praticamente tudo. Nos dois quartos entrou terra, não dá nem pra entrar. Aqui no abrigo tem sido muito difícil, não posso reclamar do pessoal da escola, cuidam muito bem da gente, mas não é como nossa casa. Tem muita gente no abrigo, muito barulho, uma das minhas filhas é autista, outra tem problemas e também não pode com barulho”.
Outra atingida pelas chuvas é Silvana Santos, de 24 anos, que também está no abrigo com o marido e os dois filhos: “Moro há 20 anos no bairro Santa Rita. O barranco sempre esteve lá, a defesa civil nunca apareceu, a primeira vez foi agora, quando chegaram, às 01:20h da manhã, dizendo que tínhamos que sair levando o mínimo possível. Nunca foram para tentar resolver o problema. Antes de vir aqui para este abrigo, a gente passou em outro abrigo, que já estava com superlotação, daí trouxeram a gente pra cá, mas liberaram somente quatro salas aqui na escola, cada uma tem cerca de 35 a 37 pessoas, com as crianças, todos juntos”.
É assim que os governos da burguesia tratam as famílias pobres, que sofrem duas vezes: primeiro com as perdas do desastre e, depois, com o descaso do poder público. E continuará sendo assim até o momento que o próprio povo se levante e desaloje os ricos do poder.
Matéria publicada na edição impressa nº 331 do jornal A Verdade