O setor de call center consolidou-se em 2025 como um dos principais eixos de adoecimento mental no Brasil, registrando mais de 40 mil afastamentos por transtornos psiquiátricos.
Ignis Medina | Fortaleza (CE)
TRABALHADOR UNIDO – Todos conhecemos companheiros, colegas, amigos ou familiares que trabalham em algum call center. Apesar de seus patrões estarem de bolsos cheios (com empresas faturando até 10 bilhões de reais por ano), a categoria enfrenta, além de salários baixos e constante “flexibilização” de direitos trabalhistas, um crescente adoecimento físico e mental.
Faz dois anos que nosso país bate recordes históricos em número de afastamentos do trabalho devido a transtornos mentais e comportamentais. Só em 2025, foram 546 mil benefícios por incapacidade temporária concedidos por questões psiquiátricas. Só no call center, que está no ranking nacional de ocupações com maior número de afastamento por saúde mental, são mais de 40 mil licenças formais.
Quem vive dentro das operações sabe bem como o dia a dia dos agentes adoece qualquer um: operadores tendo que ficar mais de três horas sem poder ir ao banheiro, ameaças de gerentes, constante interação negativa com o público, supervisores constantemente vigiando se você está cumprindo com a qualidade os scripts que impõem àquele produto, etc. Sem falar na média salarial, que vai de R$ 1.584,00 à R$1.704,00. Mesmo os supervisores ganham cerca de R$ e mil apenas. Fica claro que as operações de call center são verdadeiros moedores de gente, o que explica o alto número de rotatividade dentro da categoria, de 44% em grandes operações.
Essa categoria é majoritariamente composta por trabalhadoras, muitas sendo mães. As empresas vendem a imagem do call center como uma “oportunidade” para mulheres que precisam conciliar trabalho e família devido à jornada de seis horas. Quando contratada, porém, a mulher se depara com situações comumente denunciadas pelas operadoras que entraram em contato com o MLC no Ceará: supervisores usando do fato de que aquela mulher tem que cuidar de seus filhos no contra-turno para ameaçá-la de troca de horário caso não melhore seus resultados, assédio moral e sexual constantes e chefes usando de suas vulnerabilidades econômicas para impor ritmos de trabalhos desumanos. Não é por acaso que, em 2025, as mulheres representaram 63% de todos os benefícios concedidos pelo INSS por incapacidade mental.
Uma dessas trabalhadoras afastadas foi Ariane Martins, que já tinha buscado licença do trabalho por questões de sua saúde mental anteriormente. Algumas semanas depois, Ariane retirou sua própria vida dentro da empresa em que trabalhava, a Concentrix. Mesmo com a morte de uma colega em pleno expediente, os operadores foram ameaçados por supervisores para que voltassem imediatamente ao trabalho, caso contrário teriam descontos nos salários.
Capitalismo é causa do adoecimento
Por mais que, muitas vezes, tentem dizer que esses problemas são devidos a um gerente ou a uma empresa ruim, é importante enfatizar que o adoecimento mental e o assédio moral são sistematicamente utilizados pelo capitalismo para espremer o máximo de lucro possível dos trabalhadores.
Dessa forma, o problema tem raiz no capitalismo e somente se enterrarmos esse sistema é que finalmente poderemos garantir não só melhores salários, fim da escala 6×1 ou melhores trabalhos, mas que a classe trabalhadora como um todo tenha pleno poder político, em vez de somente ter para si as migalhas dos ricos.
O Movimento Luta de Classes (MLC) e a Unidade Popular (UP) buscam construir na luta uma alternativa a essa realidade. A disputa pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e a formação de núcleos de base são estratégias essenciais para retomar os sindicatos para as mãos dos trabalhadores, uma vez que estes devem ser instrumentos de agitação e de conquista de direitos, e não balcões de negócios com o patronato. A presença da militância combativa nas portas das empresas, vendendo o jornal A Verdade e conversando com os trabalhadores é o principal motor para o crescimento desse trabalho dentro do call center e de qualquer categoria.
A organização através do MLC e da UP é o caminho para transformar a dor individual em força coletiva. Histórias de trabalhadores e trabalhadoras como Ariane Martins devem ser honradas através da luta incessante pelo socialismo, onde o trabalho deixará de ser um instrumento de alienação para tornar-se a base da realização plena do ser humano.
Matéria publicada na edição impressa nº 331 do jornal A Verdade