A história da população LGBTI+, em especial de travestis e pessoas trans, é marcada pela violência, pela exclusão e pelo extermínio impostos a corpos negros e trabalhadores, revelando que não há saída possível dentro das instituições burguesas — apenas na luta organizada contra o capitalismo.
Marcela Bigonha | Brasília
A história da população LGBTI+, e em especial da parcela trans e travesti, é uma história de resistência contra um sistema que nos empurra para as margens, que nos caça nas ruas, que nos empurra para a prostituição como única forma de sobrevivência e que transforma nossa existência em alvo permanente de violência. Não é possível compreender a realidade LGBTI+ sem compreender também a realidade da classe trabalhadora e da população negra, que compõem a imensa maioria das pessoas expulsas da família, excluídas do trabalho formal e assassinadas todos os anos no Brasil. A luta contra a LGBTIfobia não é um debate abstrato sobre “representatividade”: é luta de classes, é luta contra a estrutura capitalista que produz os nossos corpos como descartáveis e extermináveis.
A burguesia tenta reduzir a pauta LGBTI+ a um marketing vazio, ao consumismo, à presença de uma ou duas pessoas “incluídas” nas estruturas de poder, como se isso fosse vitória coletiva. Mas a verdade é simples: não queremos uma travesti no topo, queremos destruir o topo. Não queremos integrar o povo LGBTI+ ao mesmo sistema que nos mata; queremos construir um novo mundo para todes que sempre viveram na base, na margem, nas vielas, nos becos, nas ocupações, nas periferias. Nossa luta não é por migalhas: é por tudo que o mundo pode nos oferecer, por todas as potencialidades humanas que podem florescer.
A experiência concreta da vida trans revela a profundidade dessa contradição. Travestis e mulheres trans são perseguidas pela polícia, estigmatizadas pelo Estado e empurradas para a violência cotidiana de um sistema que se sustenta justamente na superexploração dos corpos dissidentes. O capitalismo precisa dessa marginalização para seguir existindo: ele precisa expulsar, criminalizar, destruir e invisibilizar. Por isso, a luta trans é, em sua essência, anticapitalista. A existência trans desafia a normatividade que sustenta a ordem burguesa e, por isso, sempre foi tratada como ameaça.
Não existe luta LGBTI+ real se ela não enfrentar frontalmente as estruturas de classe e de raça. Não existe transformação possível enquanto o Brasil seguir como o país que mais assassina pessoas trans no mundo, com um genocídio silencioso que já dura décadas. Não aguentamos mais enterrar companheiras, irmãs, de ver nossos corpos marcados pela violência, de ver o Estado fingir que não vê, de assistir à mídia reproduzindo o ódio, de ver governos, inclusive ditos progressistas recuarem diante da pressão conservadora.
A cada travesti assassinada, a cada jovem LGBTI+ expulsa de casa, a cada pessoa negra e pobre que tem negado o direito de existir, fica evidente que não haverá solução dentro das instituições burguesas. O parlamento não vai nos salvar; o judiciário não vai nos proteger; o Estado burguês, que é estruturado para reprimir a classe trabalhadora, nunca reconhecerá plenamente nossa humanidade. É por isso que a luta LGBTI+ se quiser ser verdadeira, precisa assumir caráter revolucionário, precisa compreender que “inclusão” sem transformação estrutural é só uma nova forma de controle.
A grande tarefa diante de nós é organizar a rebelião que já pulsa nas ruas, nos coletivos, nos movimentos de moradia, nos centros acadêmicos, nas escolas, nos territórios onde a população LGBTI+ constrói suas próprias redes de sobrevivência. Essa rebelião precisa ser canalizada para o projeto político capaz de destruir as bases materiais dessa violência: o projeto da revolução socialista brasileira.
Somente uma sociedade socialista, construída pela classe trabalhadora organizada, pode garantir que nenhuma pessoa seja tratada como sobra, que nenhuma travesti seja assassinada, que nenhuma lésbica seja estuprada como “correção”, que nenhum jovem LGBTI+ seja expulso de casa, que nenhum corpo seja impedido de existir. Somente uma revolução que destrua as estruturas que nos oprimem poderá abrir caminho para uma nova sociedade, onde a liberdade de gênero e sexualidade não seja apenas tolerada, mas celebrada como parte da grande libertação humana.
O movimento LGBTI+ precisa abandonar de vez a ilusão liberal da representatividade vazia e assumir sua vocação histórica: ser parte da luta pela derrubada do capitalismo e pela construção do socialismo. Somos filhes da classe trabalhadora, vítimas de um sistema que nos mata e sobreviventes de uma violência que já dura gerações. E, por isso mesmo, somos parte indispensável da revolução que está por vir.
Porque o capitalismo só nos oferece violência, miséria e morte. Portanto, não temos nada a perder com a revolução – apenas as correntes que nos aprisionam.