Estudantes fizeram histórica vaia contra Zema no Mineirão em evento que virou caos e expôs projeto de militarização da escolas. No dia 19 de novembro de 2025, o governador reuniu 30 mil secundaristas no estádio para tentar quebrar recorde mundial de “maior aulão”, mas a mobilização da AMES-BH distribuiu 5 mil panfletos denunciando as contradições de um governo que gasta fortunas em marketing enquanto corta R$ 1 bilhão do orçamento educacional e tenta impor escolas cívico-militares.
Cacau dos Anjos | Belo Horizonte (MG)
No dia 19 de Novembro de 2025, o governador Romeu Zema junto da Secretária de Educação de Minas Gerais (SEE-MG) reuniu 200 escolas estaduais da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com uma estimativa de 30 mil estudantes presentes no Mineirão (Estádio Governador Magalhães Pinto, maior do estado) para tentar quebrar um recorde do Guinness Book ao fazer o “maior aulão do mundo”, com o intuito de “ensinar” jovens a utilizar Inteligência Artificial. Evento esse que era uma parceria com a empresa bilionária Google.
Como tudo começou?
Duas semanas antes, as diretorias escolares começaram uma mobilização intensa nas salas de aula a fim de garantir uma grande participação dos alunos. Todos os dias passavam pessoas da coordenação para fazer o controle dos bilhetes, recolher justificativa dos estudantes que não queriam ir e repetir o mesmo recado sobre o quão importante era a presença de todos.
Claro que esse esforço só aconteceu por uma intimação vinda da SEE-MG, pois o governo de MG gastou rios de dinheiro para que o evento acontecesse. Estrutura de som, palco, fretagem de ônibus com uma média de 6 por escola, alimentação e etc.
Imediatamente, os estudantes perceberam a contradição que se apresentava nesse evento. Afinal, a situação das escolas é essa: a merenda acaba no meio da fila (como no IEMG); as salas de aula vivem sem climatização e estrutura; os banheiros sem tranca, papel higiênico e sabonete; quadras em risco de desabamento (como na EE Prof. Pedro Aleixo), com materiais decadentes e antigos; enfim, uma situação preocupante; porém ao mesmo tempo, se tem dinheiro para aumentar o salário do Zema em 300%, promover um evento gigantesco e ainda sim, cortar 1 bilhão de reais do orçamento das escolas.
A mobilização dos estudantes
Mesmo sem saber quantas escolas estariam presentes por se tratar de um evento fechado do governo, a Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas da Grande Belo Horizonte (AMES-BH) organizou um panfletaço clandestino com os estudantes mais dispostos a derrotar o discurso do fascista Romeu Zema. Foram cerca de 5 mil panfletos distribuídos, mesmo com diversas investidas da SEE-MG para barrar a ação.
Apesar da ameaça de revista, que poderia impedir os panfletos de entrarem no estádio, os estudantes não desistiram. Esconderam os papéis no sutiã, calcinha, cueca, bolsos, blusa, na meia, tênis… Tudo isso graças ao convencimento de que a causa era justa.
“Quando chegamos no Mineirão, na prática não teve revista. Só olharam o QR Code que tínhamos no nosso crachá e foda-se. A gente passou pela entrada e foi ótimo porque nesse momento a gente começou a entregar os panfletos de forma mais discreta. Mas depois que a gente entrou de fato na arquibancada e vimos que era possível, a gente levantou e começou a distribuir abertamente. E foi nesse momento que começou a dar alguns problemas. Eu vi segurança pegando panfleto da mão de estudante, vi professores tomando os panfletos, repreendendo os alunos por estarem pegando. E aí a gente deu um norte desses alunos pegarem esses panfletos e fazerem aviãozinho depois que eles lessem para entregar para mais pessoas. Teve um momento que eu e o Cacau ficamos tão nervosos que eu rasguei a minha calça completamente, que estava por baixo do uniforme, porque alguns panfletos ficaram presos na minha panturrilha e não dava pra tirar de maneira normal. Então pegamos uma chave, uma chave de casa mesmo, furamos minha legging e rasgamos como se não houvesse amanhã, só para entregar mais panfletos.
Foi uma experiência extremamente intensa, interessante, porque a gente conseguiu o que a gente queria, que foi os alunos vaiando o Zema, mas também foi bem desesperadora.
Levamos alguns esporros dos nossos professores, mas em nenhum momento a gente negou que faria de novo. E é um fato que faríamos de novo. Muitos alunos ali não tinham nunca nem visto falar sobre o projeto cívico-militar que foi proposto pelo Zema. Tinha alunos que nem sabiam o que eles estavam fazendo ali e justamente por isso começou a briga. E, cara, foi de fato uma experiência maravilhosa.” relatou a estudante Bianca Santos, diretora de mulheres do Grêmio Livre Estudantil Cajá da EE Olegário Maciel.
A mobilização estudantil tomou uma proporção inesperada: muitas pessoas procuraram depois a entidade para conhecer melhor, convidar para ir na escola e parabenizar pela ação ousada, que impactou a Secretária de Educação.
Sabemos e acreditamos nesse impacto porque as próprias direções dos estudantes que distribuíram panfletos colocaram que receberam ameaças diretas da SEE-MG, para que a panfletagem se encerrasse, que os alunos fossem expulsos e todo tipo de absurdo que já conhecemos para censurar o movimento estudantil livre e autônomo.
O dia do evento: vaia, protesto e violência
Existiam alguns critérios para serem cumpridos para que a aula batesse esse recorde do Guinness Book: quando tocasse o sinal, todos tinham que ficar sentados e calados (simulando mesmo uma sala de aula). Quando o sinal tocou, vários estudantes se levantaram ao mesmo tempo e em protesto ao evento.
No meio da gritaria que se iniciou com isso, alguns alunos atingiram outros com garrafinhas de água abertas (que estavam sendo distribuídas em fardos pelo próprio evento) e isso se transformou numa enorme confusão. Alunos se machucaram ao serem atingidos, brigas se iniciaram e se espalharam por todo o estádio, muitos estudantes começaram a passar mal pelo calor e a terem crises de ansiedade, e não existia nenhuma equipe preparada para lidar com essa situação lá dentro do estádio. Quem socorreu os estudantes que ficaram mais vulneráveis foram as próprias coordenações e professores das escolas. Em alguns casos, nem isso.
“Quando a gente entrou, as escolas estavam sentadas uma do lado da outra, sendo que existem escolas rivais, todo mundo sabe disso, isso não é nada novo para ninguém. Além disso, começaram perguntando, numa tentativa de animar a galera, sobre o Atlético e o Cruzeiro. Sendo que todo mundo sabe que mexer com time não é uma coisa legal e tinha muita gente lá que era de torcida organizada. Quando começou a briga e as agressões, não tentaram tirar os alunos do local, pelo contrário, estavam falando para os alunos permanecerem todos sentados. Mas depois que a confusão começou, começaram a mandar seguranças, né? E só chegaram quando já tinham tudo se dissipado, sabe?
Quem vive essa realidade todos os dias dentro da escola, sendo aluno, sendo professor, sabe que não está nada bem e que falta verba para tudo, sendo que no início do ano ele (Zema) aumentou o salário dele em mais de 300%. E eu acho isso muito engraçado, porque o dinheiro para reformar a nossa escola, para mandar o lanche, ele não tem. E o dinheiro para aumentar o salário dele, Minas tem.
Quando a gente estava distribuindo esses panfletos, falando sobre a realidade de Minas Gerais, eles simplesmente tentaram nos barrar. Como se o problema enfrentado lá dentro fosse realmente esse. Na minha opinião, foi toda uma estratégia para justamente colocar os alunos de escola pública nesse lugar de pessoas violentas, né? Pessoas que não conseguem se controlar. E para implementar a cívico-militarização das escolas, que é um projeto que tanto o Zema quanto o Secretário da Educação estão tentando implementar dentro das escolas. E eu acho que isso é só uma justificativa. Isso tudo foi bem planejado por eles.” relatou Ana Beatriz, secretária-geral do Grêmio Livre Estudantil Cajá da EE Olegário Maciel.
A cívico-militarização: o verdadeiro objetivo
A ameaça da cívico-militarização ainda ronda sobre nossas cabeças, apesar do projeto estar agarrado no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Ao assumir a gestão, o Secretário de Educação de MG, Rossieli Soares (atualmente sem filiação partidária), prometeu retomar com o projeto e implementar ele a qualquer custo.
No mesmo dia, quando o evento já havia se encerrado, começaram a sair vídeos e relatos de “sobrevivência” nas redes sociais e jornais da região mostrando a “guerra” que se iniciou, como os próprios estudantes chamaram. E muitas pessoas, tomadas pela ilusão criada pelo fascista do Zema, começaram a atacar os secundaristas e não a estrutura e preparação insuficiente desse evento mau-caráter e sem sentido, dizendo que a solução era “militarizar tudo mesmo”.
Esse evento escancarou a ferida aberta do neoliberalismo e da extrema-direita na gestão da educação e dos governos: tudo que se encontra é o caos e a ganância pelo lucro. Zema chegou lá só para fazer um discurso bonito e tirar uma foto, mas saiu desmoralizado pela maioria do estádio que vive na pele as contradições e a precarização do cotidiano e sabe melhor que qualquer panfleto da AMES-BH a necessidade de transformar a educação no nosso país. O panfleto foi só a cereja do bolo para despertar a revolta contra as figuras presentes no evento, que rotineiramente sucateiam a vida do povo mineiro.
Zema terminará o seu mandato no ano de 2026 para iniciar a campanha rumo à Presidência do Brasil com um lema tatuado pelas costas: inimigo do povo e dos estudantes de Minas Gerais. E junto disso, uma certeza que vai persegui-lo para sempre: a de nunca mexer com o movimento estudantil secundarista!