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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Quem trabalha demais e ganha de menos: a realidade das mulheres negras nos supermercados

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Nos supermercados, setor que tem crescido enormemente nos últimos anos, a realidade das mulheres trabalhadores mostra o quanto o capitalismo explora ainda mais as mulheres negras. 

Adriana Farias | Recife- PE


MULHERES- Quando se é mais novo, aprende-se que trabalhar duro é sinônimo de vencer na vida. Porém, na prática, a realidade da classe trabalhadora é o oposto: quanto mais se trabalha, menos se tem. Essa contradição se expressa cotidianamente nos supermercados, onde mulheres negras passam horas em pé, recebem salários baixos e sustentam, com seus corpos, o lucro das grandes redes.

Segundo a revista Times Brasil, em 2024 o faturamento do setor supermercadista chegou a 1 trilhão de reais. Os destaques vão para as redes Carrefour, Assaí Atacadista e Grupo Mateus que lideram esse processo de expansão. No terceiro trimestre de 2025, por exemplo, o Grupo Mateus alcançou a marca de 10,7 bilhões de reais em faturamento. No entanto, esse crescimento econômico não se reflete em melhorias reais na vida da classe trabalhadora, pelo contrário: quanto maior o lucro das empresas, maior tem sido a precarização da mão de obra.

Essa realidade se materializa de forma concreta nas denúncias feitas por trabalhadores do Mix Mateus Santo Amaro, em Recife, para o Jornal A Verdade. Ou seja, mesmo diante do faturamento crescente das empresas, em muitos casos, a remuneração recebida não é suficiente para as necessidades básicas dos trabalhadores do país.

Recai, portanto, para pessoas negras (a mão de obra mais barata dentro do capitalismo) a maior parte das ocupadas em jornadas acima de 44 horas semanais, representando 54,3%, sendo que as mulheres negras são 17,6% dessa parcela, conforme artigo 14 do Dossiê Fim da Escala 6×1 e Redução da Jornada de Trabalho do CESIT (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho). Há ainda que se destacar que muitas dessas mulheres chefiam suas casas, sendo responsáveis pelo provimento da alimentação e cuidados da casa.

Esse processo está diretamente ligado à lógica do sistema capitalista, que não tem objetivo garantir dignidade no trabalho, mas maximizar lucros. Nessa perspectiva, os trabalhadores passam a acumular mais funções, trabalhar praticamente todos os dias da semana e sem ter tempo para os estudos ou o convívio social. Para as mulheres pretas ou pardas, o trabalho dedicado a cuidado de pessoas e afazeres domésticos somam 22 horas semanais comparadas com 20,4 horas das mulheres brancas, conforme Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2022. Além de serem maioria chefiando as casas, são responsáveis por carregar o peso do trabalho doméstico.

Isso passa por um processo histórico em que o trabalho na América Latina já se estrutura a partir da precarização. No entanto, ao observar a formação social brasileira, é impossível ignorar que a mulher negra foi a primeira trabalhadora explorada no país. Durante o período escravocrata, a mulher negra realizava trabalhos forçados nos engenhos, nas casas-grandes e nos espaços de reprodução da vida, sendo sistematicamente desvalorizada, inclusive em relação aos homens negros escravizados, segundo Cartilha do Movimento Olga Benario (2025).

Nesse sentido, discutir a realidade das mulheres negras hoje nos supermercados é retomar um processo histórico e estrutural. Ainda que o mundo do trabalho passe por transformações como a automação, a ampliação das redes e a modernização dos espaços laborais, essas mudanças não rompem com as marcas da escravidão. Pelo contrário, os locais de trabalho continuam reproduzindo a lógica de exploração racializada e generificada (dividida por gênero), relegando às mulheres negras os postos mais precarizados, mal remunerados e socialmente desvalorizados. Trata-se de uma herança histórica que se atualiza sob novas formas, mas mantém a mesma estrutura de dominação.

Em Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto narra a trajetória dos retirantes nordestinos que, empurrados pela seca, pela fome e pela falta de perspectivas no interior, migram em busca de uma vida mais digna na Região Metropolitana do Recife. A promessa de mudança, no entanto, rapidamente se transforma em frustração. Ao chegar à cidade, esses trabalhadores encontram novas formas de precariedade, agora organizadas pelo espaço urbano e pelo mercado de trabalho. A obra expõe que o problema não é apenas a pobreza, mas um modelo de desenvolvimento que produz exclusão e transforma a sobrevivência em luta diária.

Trazendo essa reflexão para a realidade concreta do Nordeste, é possível perceber que essas desigualdades não são fruto do acaso ou de falhas do desenvolvimento. Elas fazem parte de um projeto histórico que se sustenta pela exploração da força de trabalho nordestina. É de se apontar que, conforme dado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2022, as mulheres nordestinas se dedicam ao trabalho doméstico mais do que o observado na média nacional, são 23,5 horas comparada com 18,9 horas de mulheres do centro-oeste.

Portanto, como aponta Francisco de Oliveira, o subdesenvolvimento brasileiro não foi um erro, mas uma escolha consciente das classes dominantes, que organizaram a divisão do trabalho de forma a preservar a dominação social, mesmo que isso mantivesse o país em uma posição subordinada no cenário internacional.

É nesse contexto que se insere o trabalho das mulheres negras nos supermercados. Assim como os retirantes de João Cabral, essas trabalhadoras ocupam hoje os postos mais precarizados do mercado de trabalho urbano. Nos corredores, nos caixas e nos estoques, seus corpos sustentam o funcionamento cotidiano das grandes redes varejistas ao mesmo tempo em que enfrentam baixos salários, jornadas exaustivas e a negação de direitos. A permanência dessas mulheres nesses espaços revela como a herança histórica da exploração no Nordeste se atualiza no presente, agora sob a lógica do capital moderno, mantendo velhas desigualdades com novas roupagens.

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