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sábado, 31 de janeiro de 2026

Mercado Público de Água Fria, no Recife, é sinônimo de abandono

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Situado na Zona Norte do Recife, o Mercado de Água Fria é uma referência histórica para os moradores do bairro. O problema é que o espaço vem sofrendo com o abandono por parte do poder público. 

Gustavo Gusmão| Recife


LUTA POPULAR- O Mercado Público de Água Fria, Zona Norte do Recife, tem suas raízes em um comércio espontâneo, a feira de Água Fria, que antecede a sua construção oficial. Apesar dos registros datarem sua abertura em 1954, a memória afetiva dos moradores remonta a um tempo anterior, quando as ruas próximas já fervilhavam com vendedores ambulantes. O mercado surgiu como resposta a essa movimentação popular; sua história se confunde com a identidade do bairro.

Hoje, sob gestão da CONVIVA/CSURB e da prefeitura de João Campos (PSB), tanto o mercado quanto a Feira Nova estão abandonados. Observamos isso nas condições em que se encontram: Estrutura sucateada, goteiras, falta d’água constante, insegurança, problemas elétricos, saneamento precário, ratos, pombos, baratas. Apesar das más condições, os trabalhadores são obrigados a arcar com altas taxas de locação para utilizar o espaço.

A maioria dos comerciantes é formada por pequenos empreendedores familiares, que resistem há décadas. Enfrentam a concorrência das grandes redes monopolistas, mas sobrevivem graças à fidelidade da clientela e à qualidade dos produtos.

Lixo a céu aberto

“O caminhão do lixo passa aqui ao meio-dia, bem no horário em que os restaurantes estão abertos e há clientes almoçando. Eles esmagam o lixo e a catinga vai toda para dentro do mercado. Assim não tem condições das pessoas almoçarem direito”. Relata um morador e cliente do mercado ao Jornal A Verdade.

Além do horário inadequado, a coleta deveria ser diária, mas acontece apenas três vezes por semana. Sem local apropriado para descarte, o mercado acumula entulhos, restos de comida, ossos e até animais mortos.

Falta d’água

“Passamos o Natal e o Ano Novo sem água, até hoje buscamos em baldes no poço que tem na ocupação atrás do mercado. Como não temos certeza da qualidade dessa água, estamos comprando dois garrafões de água mineral por dia para poder cozinhar”. Conta Amaro, comerciante.

Os relatos de falta d’água são constantes, os banheiros estão sempre fechados, sem condições para uso: “Tem dia que passo o dia todo sem ir no banheiro, quando preciso mesmo peço para usar o comercio vizinho. É uma situação horrível, principalmente para as mulheres. Isso afasta as a clientela feminina e pode até causar uma infecção urinária”, relata Lélia.

Taxas abusivas e cobranças indevidas

Em novembro de 2025 os comerciantes foram surpreendidos com a cobrança de taxas de locação e de água referentes ao período da pandemia. Quando o mercado estava fechado e não houve consumo de água ou uso dos boxes.

“A gente tá pagando para trabalhar. Esse mês paguei três boletos: um de dezembro, e dois da pandemia, paguei 250 reais. Fui na CONVIVA negociar, reclamei muito, mas não teve jeito; vou ficar pagando dobrado até o final de 2026”, diz Luiza.

Gestão de fachada

Esses problemas não são um fato acidental, mas um projeto de apagamento das feiras livres dos bairros periféricos. Enquanto mercados como o da Madalena, Encruzilhada e Boa Vista receberam reformas e hoje são pontos turísticos, o de Água Fria segue esquecido.

“Antigamente todo final de semana vinha um caminhão-pipa, lavar o mercado com água e sabão. Faz anos que não temos nem isso”, lembra seu Júlio.

“Desde 2002 estou no mercado e nunca vi uma reforma sequer, no máximo uma pintura. A administração só se preocupa em verificar se o locatário abriu a loja. Antes havia valorização: aniversários, café da manhã para os comerciantes. Hoje recebemos multa por tentar deixar o mercado mais vivo”, denuncia outro trabalhador.

No fim de 2025, a fachada recebeu uma pintura nova, mas dentro nada mudou: paredes rachadas, telhas soltas e infiltrações continuam. Para os trabalhadores, a gestão da CONVIVA mostra sua verdadeira face: uma gestão de fachada, que não os ouve e não faz o mínimo para cuidar do mercado.

Mobilização popular

Diante dos relatos, a Unidade Popular pelo Socialismo e o Jornal A Verdade, vem apoiando as mobilizações dos trabalhadores do Mercado, onde promoveram um abaixo-assinado e realizaram assembleias para denunciar os problemas vividos pelo mercado, pela feira e pelos entornos e dialogar com os moradores.

Entramos em contato com a CSURB, que reconheceu os problemas, mas não demostrou interesse em dialogar com os comerciantes.

A saída passa por uma grande mobilização popular. Não podemos viver de promessas de campanha de políticos profissionais que vivem de iludir o povo e que, em todas as eleições prometem, uma reforma no mercado.

As denúncias e indignação dos feirantes e moradores que frequentam o local ganharam outro contorno com as brigadas do jornal A Verdade promovidas pelo núcleo da Unidade Popular. Foi por meio das brigadas, das panfletagens e do contato com os trabalhadores que as denúncias encontraram quem realmente se importasse. Um espaço histórico e mantido pela população local tem que ser voltada para a comunidade e não esquecido pelas autoridades.

Assembleia no Mercado de Água Fria. A Unidade Popular e o Jornal A Verdade tem sido importantes no debate junto aos trabalhadores do Mercado. Foto: JAV-PE.

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