O Movimento de Mulheres Olga Benario realizou mais de 30 atos em todo o Brasil para marcar o Dia Internacional de Luta pelo Fim da Violência contra as Mulheres (25). De ocupações em prefeituras a intervenções em portas de fábricas, a jornada de lutas exigiu políticas públicas reais, centros de referência e o fim da opressão de gênero.
Larissa Mayumi | Movimento Olga Benario
MULHERES – Dia 25 de novembro é o dia internacional de luta pelo fim da violência contra as mulheres. Assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou relatório feito com dados de 168 países recolhidos entre 2000 e 2023. Só no último ano, 316 milhões de mulheres sofreram violência física ou sexual. 840 milhões de mulheres em todo o mundo, ou seja, uma em cada três já sofreu violência física ou sexual ao longo de sua vida.
Entre os principais fatores para essa realidade, a OMS aponta os cortes no financiamento de políticas de prevenção da violência contra as mulheres. Em 2022, apenas 0,2% da ajuda ao desenvolvimento global foi destinado a estas ações, mesmo a violência contra as mulheres sendo considerada um dos principais problemas de saúde pública no mundo. O reflexo disso é uma melhora muito aquém do necessário, com diminuição de 0,2% nas taxas de violência mundiais por ano.
Outro dado apresentado é o de que 21% das adolescentes entre 15 e 19 anos de idade já sofreram violência física ou sexual por seus parceiros íntimos. E 23% das mulheres com 65 anos ou mais também já sofreram este tipo de agressão.
A OMS também especificou a alta taxa de violência cometida por parceiros nos países que falam a língua portuguesa. Sendo Timor-Leste apresentando taxa de 41,7%, Angola com 33,9%, São Tomé e Príncipe com 30,4%, Moçambique, 24,4%, Brasil, 19,3%, e Cabo Verde, 17,3%. Lembrando sempre que a subnotificação é uma realidade quando o assunto é violência de gênero.
Origem da opressão das mulheres
A violência contra a mulher não começou ontem. Há séculos e até milênios a mulher é subjugada na sociedade. A violência física, sexual, psicológica contra a mulher – ou o “direito” de agredir mulheres – está ligada a uma relação de poder na sociedade. É como se determinada parcela da população tivesse o poder de ditar o que a mulher pode ou não fazer e, se ela não se submeter, deve apanhar para colocar-se no seu lugar.
Com o desenvolvimento da sociedade e a produção de excedentes, surgem as bases para a apropriação desses excedentes: a propriedade privada. A propriedade privada, por sua vez, traz outra necessidade: a herança, ou para quem deixar essa propriedade acumulada. Desde então, a mulher passa a ter a função de carregar os herdeiros dessa propriedade acumulada e se torna propriedade igualmente.
O capitalismo potencializa ainda mais essas violências, a partir do momento que transforma tudo em mercadoria, sendo a mulher também tratada como mercadoria, uma vez que se tornou propriedade. Neste tempo de profunda crise do capitalismo, onde as contradições aumentam, aumenta-se também a violência contra as mulheres.
Lutas no Brasil todo
Diante desta realidade de violência, as mulheres não abaixaram a cabeça e, ano após ano, têm construído mais mobilizações, atos, ocupações denunciando o aumento da violência e lutando por delegacias da mulher 24 horas, centros de referência para mulheres, moradia digna, creche e outras políticas fundamentais para prevenir a violência e os feminicídios.
Neste último dia 25, foram mais de 30 atos espalhados pelo Brasil organizados pelo Movimento de Mulheres Olga Benario. Com mobilizações em bairros, nos centros das cidades, panfletagem e agitações com megafone, faixas e cartazes nas portas de fábricas, rodas de conversa para debater violência.
Em Minas Gerais, foi realizada uma ocupação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), inaugurando a Sala de enfrentamento à violência Walkiria Afonso Costa. “Reivindicamos da universidade uma sala de acolhimento qualificado, um formulário para mapeamento da segurança das estudantes dentro da universidade, a melhoria de infraestrutura e iluminação do campus e campanha de conscientização contra o assédio”, afirma Natalia, estudante de psicologia da UFMG.
Em Santa Catarina, onde ocorreram mais de 10 casos de feminicídio somente em novembro, o ato foi no centro de Florianópolis e contou com dezenas de mulheres. “A morte da Catarina [última vítima de feminicídio do estado] não tem a ver com o desejo sexual. Tem a ver com o poder. É uma forma que essa sociedade tem de nos dominar e de colocar medo. E cada uma que tá aqui hoje, tá dizendo que não tem medo. Essa é a única forma de nos organizar e dizer o que a gente precisa! É fazendo greve em fábrica, é se mobilizando na rua, é convidando outras mulheres pra lutar”, afirma Nathalia, do Movimento Olga na manifestação.
Já no Distrito Federal, mais de 300 mil mulheres ocuparam as ruas na Marcha das Mulheres Negras, e o Movimento Olga também esteve presente. E, em Recife, o ato contou com cerca de 200 mulheres ocupando as ruas para denunciar a violência e os feminicídios.
Em Natal, no Rio Grande do Norte, o Movimento ocupou a prefeitura e em resposta a Guarda Municipal usou de violência contra as mulheres. “Nós estamos ocupando a prefeitura para denunciar que ela não investe em políticas públicas para as mulheres. A Delegacia da Mulher tá fechada há cinco anos, o Centro de referência está precarizado”, denunciam as mulheres em jogral na ocupação. Elas se mantiveram firmes, e fruto da mobilização, conquistaram reunião com o gabinete da Prefeitura para poder apresentar as demandas das mulheres da cidade. Já em Belém do Pará, o ato foi em frente à Delegacia Estadual de Atendimento às Mulheres (Deam).
Além disso, ocorreram várias ações em portas de fábricas, como Alsco, Poliestampo, BRF e Tupy, onde o Movimento de Mulheres Olga Benario realizou panfletagens e denunciou os casos de assédio e violência aos quais as operárias estão submetidas, as intervenções resultaram no interesse de diversas trabalhadoras em se organizar.
Essas ações demonstram que as mulheres não abaixam a cabeça diante desse cenário de violência e de norte a sul do país, construíram mobilizações capazes de alcançar mais mulheres dispostas a lutar em defesa das suas vidas e de todas nós. Agora, devemos continuar as mobilizações, realizar reuniões com as mulheres que conheceram o Olga a partir dessas ações para debater como dar seguimento à luta por políticas de enfrentamento à violência, seguindo unidas e em luta até eliminarmos essa sociedade baseada na propriedade privada, a verdadeira raiz da opressão às mulheres!
Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade.