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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Resistência indígena marca COP 30 em Belém

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A Cúpula dos Povos reuniu 70 mil pessoas na capital paraense para denunciar o capitalismo como causa da emergência ambiental e defender a organização popular como a única via real para a justiça climática.

Ronni Souza e Belle Leite | Belém (PA)


BRASIL – A Conferência do Clima (COP 30) ocorreu em Belém do Pará, entre 10 e 22 de novembro. As atenções se voltaram para o debate sobre a emergência climática. Entretanto, a COP 30 se encerrou sem apresentar soluções reais para os problemas ligados à destruição da natureza, frustrando ambientalistas, cientistas e representantes de diversos países.

Os “Mapas do Caminho”, propostos pelo Governo Lula, que tratam sobre desmatamento e combustíveis fósseis, sequer foram citados nos documentos finais do encontro. Outro ponto importante era o aumento do financiamento de ações voltadas para a adaptação de países em desenvolvimento às consequências das mudanças climáticas. O prazo para o investimento era pensado para 2030, mas foi aprovado para 2035, sem parâmetros bem definidos.

No fim das contas, a COP 30 comprovou a incapacidade dos “líderes mundiais” de apresentarem caminhos para solucionar os problemas ambientais e climáticos que vivenciamos. Isso porque, no capitalismo, os primeiros interesses são sempre aqueles ligados ao lucro, deixando a população à mercê dos efeitos do crescimento econômico desenfreado causado pelas grandes empresas multinacionais.

Resistência Indígena

Ainda no primeiro dia da COP 30, a liderança indígena Auricelia Arapiun se levantou em protesto contra o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), que estava assinando um contrato entre o Governo do Estado e a Hydro – mineradora responsável por contaminação ambiental, vazamento de rejeitos tóxicos e problemas de saúde nos moradores de Barcarena (PA). “Mais um projeto que derrota as terras indígenas no Estado do Pará! O Helder Barbalho é uma farsa!” denunciou.

Foi nesse espírito de luta que os povos indígenas ocuparam, pela primeira vez, a Zona Azul (espaço restrito aos empresários e chefes de Estado) para colocar suas demandas e dizer que não existe solução para a crise climática sem a participação popular. No dia 14, indígenas do povo Munduruku bloquearam o acesso à Zona Azul da COP 30, reivindicando participação nas decisões da Conferência e uma reunião com o Presidente Lula.

Em entrevista ao jornal A Verdade, Alessandra Munduruku, liderança de seu povo, falou o motivo do protesto. “O próprio presidente Lula viola nossos direitos, o próprio presidente Lula está negociando sem nos ouvir. Tudo que se viu, nos últimos anos, foram acordos e negociações com nossas terras sem consultas prévias e informadas aos povos indígenas”, denuncia.

A principal reivindicação dos povos indígenas é a revogação do Decreto nº 12.600/2025, documento que institui o Plano Nacional de Hidrovias que inclui os rios Tapajós, Tocantins e Madeira como eixos prioritários para o transporte de cargas. Diz a carta do Movimento Munduruku Ipereg Ayu entregue às lideranças da COP 30: “O decreto abre a porteira para novas dragagens, derrocamento de pedras sagradas e a expansão acelerada de portos privados. Este decreto ameaça exterminar o nosso modo de vida porque transforma o rio em estrada de soja”.

Após as manifestações e os protestos indígenas, o Governo Federal anunciou avanços na demarcação de duas terras indígenas: Sawré Muybu e Sawré Ba’pim. Apesar desses avanços, os povos indígenas reivindicam o cancelamento da Ferrogrão (ferrovia que vai ligar o Mato Grosso ao Pará para escoamento de grãos), o fim de projetos de crédito de carbono no território (implementados sem consulta prévia) e proteção contra grandes empreendimentos.

A Cúpula dos Povos

Em paralelo à COP, ocorreu a Cúpula dos Povos, evento de caráter popular, que reuniu mais de 70 mil pessoas. A Cúpula tinha como objetivo contrapor a COP 30 e seus espaços fechados de deliberações. O evento construiu coletivamente várias oficinas, debates, aulas públicas, seminários e palestras que discutiram soluções para as crises socioeconômica e climática.

No dia 15, ocorreu a Marcha Global dos Povos pelo Clima, manifestação histórica na cidade de Belém, que reuniu mais de 50 mil pessoas nas ruas para lutar por justiça climática e dizer que a verdadeira solução está na classe trabalhadora e nos povos do mundo.

Em sua declaração final, A Cúpula dos Povos apontou que “o modo de produção capitalista é a causa principal da crise climática”, além de acusar que a transição energética está sendo implementada sob a lógica do capital, pois acabou se configurando como um novo espaço de acumulação de riqueza.

A resistência indígena marcou o período da Conferência do Clima e da Cúpula dos Povos, mesmo que a grande mídia tenha tentado abafar as manifestações, os povos indígenas se apresentaram como os melhores exemplos de luta e de resistência. Suas ações em defesa de seus direitos e territórios deixam claro que com povo organizado o poder popular real não apenas é possível, mas representa uma força capaz de vencer a ganância do capital e transformar radicalmente essa sociedade.

Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade

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