Em dezembro de 2025, 2 mil operários da construção civil da montadora chinesa BYD, em Camaçari, na Bahia, realizaram uma histórica greve de oito dias contra a superexploração e o regime de trabalho degradante.
Redação Bahia
TRABALHADOR UNIDO – Durante oito dias, em dezembro passado, cerca de 2 mil operários da construção civil da montadora chinesa de automóveis BYD, em Camaçari (BA), realizaram uma greve contra os abusos e explorações que sofriam diariamente. A paralisação fez parte de uma jornada nacional de lutas contra a escala 6×1 que se desenvolveu ao longo de todo o ano de 2025 e teve na greve da BYD seu ponto máximo.
Os trabalhadores denunciaram a falta de acesso à água potável e refrigerada, relatando episódios em que precisaram utilizar seus equipamentos de proteção individual (EPIs) para beber água quente. Entre as violações relatadas, destaca-se a ausência de banheiros químicos limpos, uma vez que existiam apenas seis unidades para os milhares de operários utilizarem diariamente. Operários apontam que as empresas terceirizadas responsáveis pelas obras do canteiro mantêm um regime de trabalho degradante, agravado pela ausência de estudos técnicos sobre as condições ambientais do local. A falta dessa perícia impede o recebimento do adicional de insalubridade. Os trabalhadores ainda enfrentam o descumprimento de prazos para o pagamento de salários e benefícios.
Enquanto isso, a BYD alcançou, em 2025, o posto de maior fabricante de veículos elétricos do mundo, superando a marca Tesla, do bilionário fascista Elon Musk. Somente no Brasil, a empresa superou o faturamento de R$ 17,5 bilhões, um aumento de 30% comparado ao ano anterior. O que não se expõe é a superexploração que os trabalhadores da fábrica são submetidos para que esse montante de lucro seja alcançado.
Denúncias como essa dos trabalhadores da construção civil não são novas. Ao final de 2024, o Ministério Público do Trabalho (MPT) denunciou a BYD pela manutenção de 163 trabalhadores chineses em regime análogo à escravidão. Em 26 de dezembro de 2025, enquanto a nova greve ainda repercutia, o MPT-BA fechou um acordo de R$ 40 milhões com a BYD e suas empreiteiras para encerrar a ação civil pública do caso anterior.
“Se nós não fizermos algo, nada será feito. Se não construirmos, eles não vão a lugar nenhum! A gente quer trabalhar, suar, construir, porque todo mundo que está aqui está lutando por uma causa justa e quer voltar para casa com mais dignidade”, afirmou o operário Paulo Henrique Bispo durante a greve.
Organização sindical
A greve dos operários da construção civil em Camaçari marca também um novo capítulo da organização sindical dos trabalhadores na região. Desde o início da paralisação, o antigo sindicato que deveria representar os interesses dos trabalhadores afirmava não reconhecer a justeza da greve. Somente no terceiro dia de paralisações, os diretores desse sindicato apareceram, mas não para prestar apoio, e sim na tentativa de desmobilizar os trabalhadores. No entanto, foram rechaçados pela categoria mobilizada.
A insatisfação com a direção pelega do sindicato fez nascer a necessidade de uma nova entidade que pudesse, de fato, representar os operários e suas denúncias impulsionando sua luta. Em assembleia durante a greve, os trabalhadores decidiram fundar o Sindicato Livre dos Trabalhadores da Construção Civil, Montagem e Manutenção Industrial de Camaçari e Região.
“A greve dos trabalhadores da construção civil foi um passo muito importante na organização da categoria. Antes da greve, os trabalhadores estavam reféns da direção pelega do sindicato, que tem uma postura alinhada aos interesses do Governo Estadual e das empresas. Por isso, eles se isentaram das lutas até mesmo diante das denúncias de trabalho análogo a escravidão dentro da obra”, declarou Willian Santos, presidente na diretoria eleita pelos trabalhadores para compor o Sindicato Livre.
Como uma forma de desmoralizar a organização dos trabalhadores, o monopólio chinês entrou com um processo judicial contra os operários e organizações políticas que construíram a paralisação. Além disso, dezenas de trabalhadores foram demitidos, incluindo os membros do Sindicato Livre que estavam concorrendo à Comissão de Prevenção Interna de Acidentes e Assédio (Cipa), que, pela lei, garante estabilidade aos candidatos.
A contradição do Governo Estadual comandado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) diante da greve dos operários na BYD é grande: ao mesmo tempo em que celebram o investimento chinês de R$ 5,5 bilhões na Bahia, fecham os olhos para as condições degradantes às quais os trabalhadores que constroem essa fábrica são submetidos.
Como uma tentativa de conter a revolta dos operários, o Governo comandou uma operação com a tropa de choque para desmobilizar a greve, usando bombas de efeito moral e balas de borracha. Esta repressão mostra que, sob a lógica do capitalismo, um suposto progresso deve ser financiado pela barbárie contra a classe trabalhadora, usando de violência e exploração para sugar o máximo de lucro.
Greve como escola do socialismo
Para Ramon Marcos dos Santos, operário demitido pela empresa Falcão Construções, que presta serviços à BYD, a greve foi um grande divisor de águas para todos que a construíram.
“A empresa não pode obrigar goela abaixo a pessoa a trabalhar em condições insalubres, como era meu caso. Então temos que continuar a luta contra as empresas que tratam os funcionários como escravos, obrigando a trabalhar a semana inteira sem folga nem descanso, sem banheiro ou um lugar adequado para se vestir”, declara Ramon. “A organização do Sindicato Livre nos ajudou a entender muito do que estava acontecendo. Abriu nossos olhos para o que estava acontecendo”, completa.
Como disse Lênin: “As greves ensinam os operários a unirem-se; mostram-lhes que só juntos podem lutar contra os capitalistas; ensinam os operários a pensar na luta de toda a classe operária contra toda a classe dos fabricantes e contra o governo arbitrário e policial” (V. I. Lênin, Sobre as Greves).
Por esse motivo, as greves cumprem um papel fundamental de escola dos operários na luta pelo socialismo. A greve dos operários da construção civil da BYD fez parte de um processo contínuo de brigadas operárias com o nosso jornal, iniciadas em fevereiro de 2025. Essa experiência nos provou, mais uma vez, que é possível avançar a consciência do proletariado a partir de um trabalho sistemático, diário e contínuo. Isso cria uma união inquebrantável entre os operários para conquistar as vitórias na luta.
Cada vez mais devemos construir junto com a classe trabalhadora e todo o povo a saída definitiva para as crises desse sistema de opressão e exploração que é o capitalismo, reconhecendo a classe operária como a vanguarda da revolução socialista.
Somente no socialismo os trabalhadores poderão desfrutar, livres da ganância capitalista, as riquezas que eles mesmos produzem.
Matéria publicada na edição impressa Nº 327 do jornal A Verdade