O jornal A Verdade entrevistou Ahmed Mulay Ali Hamadi representante da Frente Polisário no Brasil. Porta-voz da luta do povo saarauí, Ahmed falou do enfrentamento ao colonialismo espanhol e marroquino (este, há 50 anos) e contra os interesses imperialistas franceses, estadunidenses e israelenses no Saara Ocidental, no Norte da África. A Frente Polisário (Frente Popular para a Libertação de Saguia el-Hamra e do Rio de Ouro) atua na luta armada pela emancipação do povo saarauí e reconhecimento da República Árabe Saarauí Democrática (RASD) desde 1973.
Em recente resolução, a Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas (CIPOML), afirmou “seu apoio ao povo saaraui em sua luta e à sua justa e legítima aspiração à autodeterminação, incluindo a libertação completa de seu território e o estabelecimento de seu Estado-nação”.
Vinicius Lima | Brasília (DF)
A Verdade – Você é embaixador da Frente Polisário no Brasil, uma organização que representa uma luta tão importante, mas ainda pouco reconhecida. Qual o papel dessa organização?
Ahmed – A Frente Polisário é a Frente de Libertação de Saguía el Hamra e Río de Oro. Saguía el Hamra e Río de Oro são os dois territórios que compõem a República Árabe Saarauí Democrática, que no total tem 266.000 km². A Frente Polisário foi fundada em 10 de maio de 1973, pegando em armas na luta contra o colonialismo espanhol. Mas uma coisa precisa ser dita: antes de recorrer às armas, o povo saarauí tentou negociar com a Espanha para que o colonialismo espanhol concedesse ao povo saarauí a sua independência. No entanto, a Espanha recusou. A Espanha descobriu que nós possuíamos muita riqueza. Portanto, queriam fazer do nosso país a 53ª província do Estado espanhol. Dez dias depois, em 20 de maio, a Frente Polisário travou sua primeira batalha contra o exército espanhol e iniciou a luta armada. Em 1975, a Espanha começou a concordar em negociar, em conversar. Acreditávamos que iríamos chegar a um acordo, mas nesse momento apareceu outro fator: a França. Ela não queria um Estado saarauí nacionalista, não capitalista, e então apoiou o Marrocos e a Mauritânia. Em 1979, conseguimos vencer a Mauritânia e continuamos a luta contra Marrocos.
Qual o histórico do povo saarauí na região antes da colonização europeia e marroquina?
O povo saarauí já existia antes do colonialismo espanhol. Era um conjunto de tribos formadas por uma mistura de africanos, árabes e berberes. Elas estavam em paz porque havia uma assembleia de chefes que administrava o Saara Ocidental. Marrocos e Mauritânia tentaram pressionar a Espanha para que não fosse aplicado o direito à autodeterminação do povo saarauí. Esses dois países apresentaram uma queixa em Haia, no Tribunal Internacional de Justiça, na qual alegaram que o território lhes pertencia e que o povo saarauí não existia antes da chegada da Espanha. Após o estudo e a análise dos documentos do Marrocos, da Mauritânia e da Espanha, chegou a uma conclusão, que qualquer pessoa pode consultar no site de Haia. Ela afirma três coisas. Primeira: nunca houve soberania da Mauritânia e de Marrocos sobre o Saara; segunda: quando a Espanha colonizou o Saara, um povo já existia; e terceira: nada impede a aplicação da Carta da ONU no Saara Ocidental. O povo saarauí deve exercer a autodeterminação e decidir por si mesmo. Quando Marrocos e Mauritânia perderam na justiça, foi quando invadiram militarmente.
Como acontece essa opressão nacional, política e econômica do Marrocos sobre a população do Saara Ocidental?
O povo saarauí é um povo pequeno. Somos um milhão de pessoas. Mas nós sempre dizemos, provérbios saarauís: “A unidade forte de cinco pessoas, vence mil pessoas”. Então, a união forte e a resistência de um milhão vencem 100 milhões. É por isso que sabemos que vamos vencer Marrocos. Marrocos usou vários métodos contra nós. Um deles foi a colonização com marroquinos, ou seja, qualquer marroquino que quisesse ir para o Saara não pagava impostos e ganhava um salário alto. Eles também abriram nossas riquezas para estrangeiros. Empresas francesas, empresas norte-americanas e, o mais perigoso, empresas israelenses interessadas em nosso gás. Portanto, Marrocos usou tudo juntamente com uma política de tortura e desaparecimentos no território ocupado. Há mais de 650 pessoas desaparecidas. Há centenas nas prisões marroquinas, alguns enfrentando prisão perpétua. Marrocos ainda tenta, com toda sua opressão, fazer com que os saarauís se adaptem à cultura marroquina, mas os saarauís mantêm a sua cultura e mantêm as suas tradições.
Você poderia falar um pouco mais a decisão da Frente Polisário em retomar a luta armada contra o colonizador?
Se você estudar a história do povo do Vietnã, que derrotou os Estados Unidos e a França, do povo da África do Sul contra o apartheid, do povo argelino contra o colonialismo francês, do povo angolano contra Portugal, você chegará à mesma conclusão: só o povo pode vencer e alcançar a vitória. Ninguém vai lhes dar nada. Assim, desde o início, tínhamos dois provérbios muito claros. O primeiro é “com o fuzil, arrebataremos nossa liberdade” e o segundo, “toda a pátria, ou o martírio”. Esse é o nosso caminho. Para o povo saarauí, pegar em armas novamente não é novidade. Agora a guerra é um pouco diferente porque não estamos lutando somente contra Marrocos, mas também contra Israel, que fornece sobretudo drones para Marrocos usar contra o nosso exército, mas isso não irá frear a luta do povo saarauí.
Como você vê o papel do imperialismo francês e estadunidense na continuidade do conflito e qual o interesse deles em manter o Saara sob o jugo marroquino?
Primeiro, precisamos entender a história da França na África. Ao norte, onde nós ficamos, estão o Marrocos, a Argélia, a Tunísia, a Mauritânia, que foram todas colônias francesas. Portanto, existem muitos interesses culturais e econômicos de empresas francesas lá. Os argelinos lutaram para alcançar a verdadeira independência, já a independência do Marrocos e da Mauritânia foi concedida. Agora, estamos descobrindo nos arquivos que estão sendo divulgados que Marrocos, na realidade, comprou sua independência para continuar funcionando como uma força policial da política francesa. Na França, eles queriam que a riqueza e o território saarauís permanecessem com Marrocos para que Marrocos tivesse o poder econômico para enfrentar a Argélia.
Agora, Israel está intervindo. Por quê? Por causa do mesmo problema, que é o que está acontecendo na Palestina. Israel ocupa a Palestina ilegalmente. Eles querem eliminar os palestinos, para ficar com seu território e sua riqueza. É a mesma política que Marrocos faz, eliminar os povos árabes para ficar com sua riqueza. Agora eles são aliados, apoiam-se mutuamente. há evidências, de que Israel fornece a Marrocos: drones, tanques, equipamentos e, acima de tudo, o trabalho do Mossad (1), que apoia o rei (marroquino). A Palestina está ocupada, parte do Saara está ocupada por Marrocos. A Palestina tem desaparecidos e mortos, a mesma situação nossa com Marrocos. A Palestina tem muros, Marrocos tem muros no Saara.
Trump quer derrubar o Governo da Venezuela para ficar com o petróleo venezuelano. A pressão que eles vêm exercendo sobre Cuba há anos, por quê? Porque esses são países que não entregam sua riqueza ao capitalismo, algo que o capitalismo não aceita.
Quais são os caminhos que a Frente Polisário considera viáveis para a resolução do conflito e a realização do direito à autodeterminação do povo saarauí?
A Frente Polisário apresentou um projeto ao secretário-geral da ONU [António Guterres]. Nele é dito que nós estamos dispostos a sentar à mesa com Marrocos para chegar a um acordo sobre uma solução com base no direito internacional. Embora não acreditemos que isso vá adiantar em nada porque, segundo nossas informações, Trump e Macron estão por trás disso. Para os dois, neste momento, não importa o direito internacional, não importa a Carta da ONU. O que lhes importa são seus próprios interesses. Veremos o que o Conselho de Segurança aprova em 30 de outubro (2). Mas nós, saarauís, temos certeza de que existem apenas dois caminhos. Um deles é sentar-se, negociar, aplicar a lei, respeitar o povo saarauí, e conceder seu direito à autodeterminação. Inclusive, a Frente Polisário declarou que, se o povo saarauí quiser ser marroquino, será bem-vindo. Se quiser retornar à Espanha, será bem-vindo. Se quiser a independência, será bem-vindo, mas devemos respeitar o que o povo saarauí decidir nas urnas. O outro caminho, que também consideramos claro e existente é a luta armada, e é por isso que decidimos continuar com armas em punho.
Qual é a importância do reconhecimento brasileiro da República Árabe Saaraui Democrática?
Até agora, 84 países reconheceram a República Saarauí. Quanto mais reconhecimento de países importantes como o Brasil, isso poderia ajudar e dar um impulso à ONU, e até mesmo ajudar Marrocos a entender que o melhor caminho é o da negociação e não o da guerra. O reconhecimento da Palestina por Lula foi histórico. E é isso que todos os países devem fazer: reconhecer a República da Palestina. É por isso que também acreditamos que o presidente Lula deve reconhecer a República Saarauí, porque é a mesma história da Palestina.
- Mossad: Agência de Inteligência de Israel.
- O Conselho Segurança da ONU apoiou, sob influência do imperialismo estadunidense e europeu, o plano de autonomia do Marrocos para o Saara Ocidental.
Matéria publicada na edição impressa Nº 327 do jornal A Verdade