Judiciário decidiu por garantir impunidade à violência policial que interrompeu os sonhos de Thiago Flausino, uma criança de apenas 13 anos na Cidade de Deus. Mãe acusa desrespeito e injustiça por parte do poder judiciário.
João Herbella | Rio de Janeiro
BRASIL – Nos dias 10 e 11 de fevereiro, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro realizou um Júri Popular para decidir sobre os fatos ocorridos na madrugada de 7 de agosto de 2023. Na ocasião, os policiais Diego Leal e Aslan Wagner sentaram no banco dos réus. Eles foram acusados de, durante uma operação ilegal, utilizarem um carro particular descaracterizado e com insulfilm para efetuar disparos contra o jovem Thiago e seu amigo Marcos Vinícius. Os dois passeavam de moto pela Cidade de Deus e já tinham caído do veículo no momento em que o crime aconteceu.
Thiago foi morto com um tiro nas costas. Marcos Vinícius foi baleado na mão, mas conseguiu escapar. Para tentar se livrar da punição, os policiais implantaram uma arma ao lado do corpo de Thiago, o que foi descoberto em uma investigação de fraude processual.
Mais de dois anos após a execução de Thiago, aconteceu o julgamento dos responsáveis. Foram dois dias cansativos de audiência. A defesa dos policiais tentou, de forma insistente, associar a vítima ao crime organizado.
A estratégia buscava “justificar” o assassinato e levantar dúvidas nos jurados. Os advogados sugeriram a possibilidade de troca de tiros, mesmo sem apresentar qualquer prova. Em um dos momentos mais absurdos, a defesa dos policiais afirmou que uma foto do menino Thiago fazendo um coração com a mão representaria um “C” de Comando Vermelho e questionou as músicas de funk que ele escutava.
Quem era Thiago?
Em casos como esse, além de lidar com a dor da perda, os familiares também são obrigados a defender a honra e a memória das vítimas. É o que Priscila Menezes, mãe de Thiago, relata. “Ali quem foi julgado não foram os policiais. Foi o Thiago. Naquele tribunal, a justiça não foi feita pra nós de comunidade, nós que somos pretos e somos favelados. Ali nós somos desrespeitados e marginalizados. Mas eu, a família e os amigos sabemos quem realmente era o Thiago e eles não vão poder mudar a história dele.”
Thiago Menezes Flausino, um jovem negro de apenas 13 anos tinha o sonho de ser jogador de futebol. Jogava em dois clubes na Cidade de Deus. Ele tinha 91% de presença na escola e chegou a ter o caderno reconhecido pela letra mais bonita da turma.
Junto a outras 242 crianças e adolescentes, foi vítima da violência policial em 2023 no Brasil. Casos como o de Thiago continuam acontecendo. Em fevereiro de 2026, Leonardo Lobo, estudante da UERJ, foi assassinado pela PMERJ na saída do jogo do Flamengo.
Quando o Estado mata, quem se responsabiliza?
É claro que esses crimes não são casos isolados. A verdade é que isso faz parte de uma política pública do Estado Brasileiro de promover o genocídio da juventude negra e conta com a Justiça Burguesa para garantir sua impunidade. Mesmo mentindo em seus depoimentos, os policiais foram absolvidos pela morte de Thiago e tentativa de assassinato de Marcos pelo Juri Popular que encerrou com placar de 4×3.
Depois do resultado, a mãe do menino desabafou em entrevista ao Jornal A Verdade. “Sentimento de tristeza, de revolta. Até porque dá mais munição para eles virem fazer o que eles fazem na favela: matam e incriminam. E quando chega lá, quando conseguimos levá-los ao banco dos réus, vão lá e absolvem. É muito triste, a realidade é muito triste, estou muito infeliz. É desesperador. Tinha todas as provas. Eles mudaram de versão três vezes, eles implantaram uma arma e foi provado isso. Realmente esse júri não vive a nossa realidade e nesse tribunal não existe justiça para nós.”, afirma.
Justiça por Thiago!
Apesar da absurda decisão, a família de Thiago, apoiadores, militantes da UP e da Frente Negra Revolucionária e familiares de outras vítimas de violência policial, saíram de cabeça erguida do TJRJ com gritos de “Thiago Presente!” e “Justiça!”. Como se não bastasse o resultado do julgamento, duas viaturas do Batalhão de Choque aguardavam na saída do tribunal, em uma tentativa de intimidar os familiares da vítima.
Todos os que estavam lá saíram com a certeza de que a luta por justiça não termina com a sentença de um tribunal. Ela segue na denúncia permanente, na organização popular e na exigência de mudanças profundas que coloquem a vida acima de qualquer interesse econômico ou político.
Somente com uma transformação radical da sociedade, que confronte o racismo estrutural e a exploração do capitalismo será possível impedir que vidas jovens sejam tratadas como descartáveis. Enquanto prevalecer um modelo que coloca o lucro acima da dignidade humana e naturaliza a violência nas periferias, casos como o de Thiago continuarão se repetindo.