“Quem luta, conquista”: a palavra de ordem MLB ganha força com a nova sede da Escola Eliana Silva e a resistência da Ocupação Maria do Arraial.
Edinho Vieira | Belo Horizonte (MG)
LUTA POPULAR – A luta do MLB deu um grandioso passo recentemente: a conquista da sede da Escola Nacional de Formação Eliana Silva, em Brasília. Desde que foi criada, em 2018, a Escola Elina Silva já reuniu diversas turmas e acumula experiências em todo país.
A luta por moradia não se limita apenas a quatro paredes e um teto, pois é preciso ter dignidade para viver. A luta das ocupações urbanas nos mostra que a casa é só o primeiro passo, uma verdadeira escola na luta por nossos direitos.
A própria ocupação já traz impactos significativos para a vida daqueles que lutam por um teto, o alívio no estresse e na ansiedade causada por conta das dívidas com aluguel e alimentação já são um resultado imediato; a dupla e tripla jornada de trabalho para que o dinheiro dê para todas às contas já não são tão necessárias e, com algum tempo livre, os pais e mães podem ficar mais com os filhos, realizar passeios em famílias e momentos de lazer.
Ler e escrever
Na ocupação Maria do Arraial, no centro de Belo Horizonte (MG), um conjunto de moradores dedicaram esse tempo aos estudos. Antes, as rotinas eram extremamente pesadas e cansativas; gastavam em média duas horas de deslocamento entre a antiga casa de aluguel e o trabalho. Hoje, gastam cerca de quinze minutos a pé até o trabalho. Ao voltarem para casa, podem tranquilamente fazer suas refeições na cozinha coletiva da ocupação e sabem que suas crianças foram bem cuidadas na creche. Agora, com mais tempo e menos preocupações, podem enfim acessar um direito que por todos esses motivos sempre lhes foi negado: a educação.
Tudo começou ainda em 2023, bem no início da ocupação, com professores do projeto “Doar Educa” e da Escola Nacional Eliana Silva, que deram o primeiro passo, ensinando jovens e adultos a ler e escrever. “Para mim foi muito importante, pois sempre quis estudar e nunca consegui antes. Os meus filhos estudam e eu não conseguia ajudar eles no dever de casa. Hoje eu posso ajudar um pouco mais”, relata Aureni, dona de casa de 33 anos, que mora na ocupação com seu marido e os 4 filhos.
Gleiciane Gomes, de 39 anos, dona do lar, também relata que a iniciativa foi muito importante em sua vida: “Eu finalmente aprendi a ler e escrever quando completei esse processo, que havia iniciado quando criança, mas não cheguei a concluir”.
Segundo André Lucas Magalhães, professor e educador popular, “o projeto de alfabetização é muito simbólico, vem de como o MLB vê o ser humano e seus direitos. Antes, iniciamos uma turma na ocupação Paulo Freire, e o êxito foi grande; logo nos primeiros meses da ocupação Maria do Arraial iniciamos uma turma lá também, com iniciação ao letramento e numerações, contas básicas que pudessem dar maior independência e confiança aos alunos”, explica.
Após o processo de alfabetização, os alunos ganharam confiança. Era hora de um novo passo. Se matricularam na Escola Municipal Paulo Mendes Campos, a três quarteirões de casa, e deram início ao ensino regular formal.
Luta pelo direito de estudar
Em 2025, uma nova luta: a prefeitura de Álvaro Damião (União Brasil) ameaça a escola e a educação em Belo Horizonte com o projeto de fim do ensino em tempo integral e o fechamento da escola. O Movimento Luta de Classes (MLC), junto aos trabalhadores da escola, organiza lutas contra esse ataque. Logo, alunos e pais se somaram a esta mobilização. A ocupação Maria do Arraial, é claro, não ficou de fora.
“Foi luta. Tivemos de fechar a rua, não poderíamos perder nossa escola. Somos alunos, mas nossas crianças também estudam lá”, lembra Aureni.
Reinilson Câmara, da coordenação do MLC, acredita que a ocupação foi determinante na vitória desta luta. “A escola corria risco de fechamento total, e a participação da ocupação foi decisiva, abriu suas portas para as reuniões de preparação da luta e ajudou na mobilização da comunidade escolar”, afirma. Após a luta, com a força do poder popular, a Prefeitura recuou e desistiu de fechar a escola.
No momento, a Ocupação Maria do Arraial enfrenta uma ameaça de despejo. O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) quer tirar o lar das mais de 50 famílias que hoje ocupam o prédio que antes não cumpria nenhuma função social. Várias tentativas de negociação e propostas foram feitas, mas o Senac insiste unicamente no despejo sem nenhuma alternativa para as famílias.
“A ocupação mudou muito a minha vida e de minha família, primeiro porque sai do aluguel e hoje, com esse dinheiro a mais, podemos comprar coisas para nossos filhos, dar uma alimentação melhor, roupas e outras coisas que antes faltavam por conta do aluguel. Morar no centro pra mim foi outra coisa muito importante, pois antes eu precisava pegar três ônibus para ir ao médico fazer o acompanhamento; hoje eu não pego nenhum, é tudo perto”, conta Aureni.
Despejos não destroem apenas paredes e tetos; destroem vidas, dignidade e sonhos. Tiram direitos fundamentais muito além da moradia. As famílias da Maria do Arraial não desistirão, pois sabem que “quem luta conquista”.
Matéria publicada na edição impressa Nº 328 do jornal A Verdade