Em audiência pública sem a participação dos usuários, a proposta de privatização do metrô do Recife foi apresentada. Sem dialogar com os servidores nem com a população, governo federal apoia iniciativa por meio do BNDES, mesmo Luta tendo prometido não privatizar o metrô.
Redação Pernambuco
TRABALHADOR UNIDO- A Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) anunciou a chegada de seis trens usados vindo da Trensurb, do Rio Grande do Sul, esses trens são do modelo série 100, construídos no início dos anos 80 e reformados no início dos anos 2000. Ou seja, máquinas com mais de 40 anos, sem ar-condicionado e que chegam ‘emprestados’ com o aval do ministério das cidades.
Assinado pelo presidente Lula e com a presença da governadora do estado e do prefeito da capital João Campos, essa troca de responsabilidade vai de encontro ao que prometeu Lula na campanha de 2022, onde ele prometeu não privatizar o metrô, que era uma proposta do governo Bolsonaro e cobiçado pela extrema direita e os empresários pernambucanos há um tempo. Os últimos concursos para a CBTU/Metrorec foram em 2013. O metrô de Recife transporta 180 mil pessoas por dia, possui 37 estações e mantém 3 grandes cidades e regiões da região metropolitana como o Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes.
Na contramão
Esses trens “seminovos”, como foram chamados pelos BNDES, vem de um acordo entre o governo do estado e o governo federal, que destinou R$ 150 milhões da União em dezembro de 2025 para “socorrer” o sistema de forma emergencial. O acordo com o governo federal gira em torno de R$ 4 bilhões para reformar o metrô do Recife.
O problema é que, depois de toda essa reforma, feita com dinheiro público, o serviço vai ser entregue para a iniciativa privada por cerca de trinta anos, o que eles chamam de ‘concessão’, uma forma educada de chamar a privatização. Os estudos para viabilizar tal proposta foi conduzida pelo BNDES, que programou o leilão para privatização em dezembro desse ano, mesmo com pesquisas provando que a privatização do metrô não melhorou em nada o serviço, como denunciou o caso da CPTM em SP a edição 329 do jornal a verdade.
Audiência pública não escuta os usuários nem funcionários do metrô
No último dia 05 de março, uma audiência pública foi convocada pelo BNDES e governo do estado para “apresentar” a proposta de privatização do serviço. Como era de se esperar, a audiência sequer foi divulgada, marcada para um dia (quinta feira) e horário que impossibilitava a participação dos usuários de um modo geral, além de ser convocada para o Centro de Convenções, em Olinda, que é de difícil acesso.
Com representantes do governo federal e estadual, técnicos do BNDES e do ministério das cidades e da casa civil, os presentes na audiência viram uma apresentação enfadonha, técnica e burocrática às vésperas do almoço, para maquiar a notícia de que o metrô está sendo privatizado e pronto. Não foi uma escuta. E sim um aviso.
Denunciado pelo sindicato dos metroviários, movimentos sociais e usuários da rede presente, a audiência mostrou o contrassenso trazido por essa conciliação defendida pelo governo federal, chegando ao ponto do secretário adjunto de Estrutura Social Urbana do Programa de Parcerias de Investimentos da Casa Civil, Manoel Machado, dizer que “o governo federal coloca R$ 800 milhões por ano no metrô do Recife, e não conseguimos investir para melhorar a qualidade do serviço”.
Falando pela Unidade Popular, Thiago Santos destacou as denúncias envolvendo o metrô de São Paulo e BH, além da política neoliberal adotada pelo governo federal, a mesma política utilizada por Bolsonaro, Fernando Collor e o atual governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

O que diz a categoria?
O jornal A Verdade entrevistou Thiago Mendes, Vice-presidente do Sindmetro PE e Luiz Soares, presidente do Sindicato dos Metroviários de Pernambuco sobre o processo de privatização e as próximas lutas.
Jornal A Verdade- Qual a impressão do sindicato sobre essa audiência pública, e como a categoria recebeu essa questão da privatização do Metrô já posta aqui?
Thiago Mendes- Nós fizemos um questionamento, inclusive, do ponto de vista jurídico, sobre a realização desta audiência pública. Fizemos várias solicitações ao Governo Federal. Primeiro: Que antes de discutir qualquer processo de concessão, discutíssemos a requalificação do sistema. Segundo: Que, se houvesse essa discussão, o conjunto da população fosse chamado ao debate. Terceiro: Que os documentos fossem apresentados previamente, com tempo hábil para estudo. São mais de 5 mil páginas sobre o tema e tivemos apenas cerca de 20 dias para avaliarmos. É impossível dar conta de tudo.
O que vimos aqui foi mais uma apresentação do projeto de privatização do que um debate com a sociedade civil sobre o serviço do metrô. Houve alguma discussão prévia com o sindicato ou com a categoria sobre esse projeto?
Thiago Mendes- O processo possui gigantescas falhas em relação a como se comportará a tarifa. Ficou muito claro que quem fiscalizará essa empresa, caso o processo de concessão ocorra, será uma empresa contratada pela própria concessionária, o que é um escárnio — ela nunca dirá que o serviço está ruim. Outra coisa: Se a demanda de usuários não for a esperada, quem completará isso será o dinheiro da classe trabalhadora do Estado. Ou seja, nosso dinheiro, o dinheiro que sai dos nossos bolsos, continuará sustentando o sistema. Só que, agora, sustentará a partir de outra perspectiva: o lucro do empresário. Aqui ficou escancarada essa falácia de que o governo federal não tem dinheiro para melhorar o serviço do metrô. Vamos organizar nossa categoria para fazer este processo de resistência. Não acredito que a luta acabou; muito pelo contrário, continuaremos resistindo até o processo caminhar propriamente dito.
Em relação a esses trens que estão vindo para ajudar o funcionamento do sistema aqui no estado? Tem trens vindos do Rio Grande do Sul, mas também tem outros trens vindo de Minas, não é?
Thiago Mendes- Estamos denunciando a aquisição dos trens. São sucatas. Para você ter uma ideia, o sistema foi vendido em Belo Horizonte por pouco mais de 20 milhões, e a CBTU está comprando apenas 6 trens de lá, o que já totaliza 60 milhões. Ou seja, a Comporte comprou por 20% e está ganhando 60% com o lucro já realizado. Agora, imagine na concretização do que eles chamam de escopo, se a Comporte ganhar: ela reabilita todos os trens que vendeu. É um laboratório do caos com requintes claros de corrupção.
Existe uma preocupação da categoria em relação a perda dos empregos. Como está esse diálogo com relação ao governo federal?
Thiago Mendes- Isso é um acordo que se baseia muito no que foi feito com a Infraero. Só que, na época em que foi elaborado este acordo da Infraero, era permitido ter uma duração maior nos acordos coletivos. Após a Reforma Trabalhista, só é limitado a dois anos. Então, em tese, teríamos que renovar este acordo a cada dois anos. Este processo de transição que eles colocaram — passar do metrô público para a iniciativa privada — é o que consideram de operação assistida, sendo um processo transitório. Este processo transicional já não teria cobertura de garantia de empregos. Porque se nosso acordo vence em outubro e a concessão é em dezembro, a categoria já estaria desamparada. Não tendo nada garantido, é demissão.
Qual a perspectiva da categoria após essa audiência, o que o sindicato pretende fazer daqui em diante?
Luiz Soares- Primeiro essa audiência é mais uma falácia, né? Não vai apurar nada do que foi denunciado. É mais um artifício legal para poder tocar a privatização. A gente está aqui para justamente denunciar o que vem acontecendo com o metrô do Recife. Nós estamos contra a privatização e, além disso, uma denúncia gravíssima que é a compra desses trens que estão vendendo de BH, porque o metrô todo foi vendido por R$ 26 milhões, de “sucata” para estar sendo vendida por R$ 2 milhões, e estão sendo vendidos agora no metrô do Recife por R$ 60 milhões. Isso é um absurdo. É uma farra com dinheiro.
Anunciaram que chegariam esses trens, depois falaram que haveria um atraso, e agora foi confirmado que os primeiros trens que vem do Rio Grande do Sul tem mais de 40 anos de uso, além de não terem nem ar-condicionado. Como é que os servidores do metrô vão fazer com esse tipo de serviço que tem tudo pra prejudicar ainda mais o serviço? Esses trens usados vão resolver a demanda do metrô do Recife?
Luiz Soares- Vamos continuar denunciando tudo isso que está acontecendo com o metrô do Recife, com a farra com dinheiro público. Somos defensores de que o sistema tem que ser um sistema público, de qualidade, sob controle do Governo Federal, e que a gente tenha um aporte para garantir o sistema funcional. Outra coisa é que as privatizações no mundo e no Brasil não deram certo, nem vão dar aqui em Pernambuco.
O sindicato pensa em discutir greve junto à categoria? Na última greve, vimos que a população ficou ao lado da categoria e defendia a paralisação. Há algum debate em relação a isso?
Luiz Soares- A gente vai fazer um chamado através de assembleia. Vamos preparar isso depois dessa audiência. Vamos analisar isso dentro da direção para poder, a partir daí, a gente tirar os encaminhamentos, chamar a categoria e aí ser um momento de denúncia. Se possível, paralisar o sistema, porque a gente não vai admitir que mais incidentes aconteçam no sistema, colocando em risco a população pernambucana. Porque isso que está acontecendo é um verdadeiro descaso com o povo pernambucano e o metrô.
Infelizmente nós estamos vendo que esse processo de privatização está sendo conduzido pelo BNDES, ou seja, com apoio do governo federal, apesar do Lula ter prometido na campanha que não iria privatizar o metrô. Qual a opinião do sindicato com relação a essa questão do BNDES?
Luiz Soares- A posição do BNDES é uma posição de privatização, discordamos totalmente disso. Não fez um estudo apurado, fez um estudo em cima de algumas informações apenas, contratou empresas envolvidas com denúncias de fraudes, uma delas é a CIS, e mesmo assim deixou essa empresa continuar a fazer os estudos do metrô do Recife. É mais uma denúncia que a gente está fazendo sobre a forma e o modelo que o BNDES está tratando com o metrô do Recife. O modelo errado, totalmente equivocado, além das empresas que eles contrataram, como é o caso da SYSTRA, que foi denunciada e tem processo na justiça. Nós fizemos denúncias no Ministério Público sobre tudo isso. Tentamos inclusive adiar o processo dessa audiência na justiça. A gente não conseguiu, a nossa liminar foi derrubada pelo Poder Judiciário. Mas iremos continuar denunciando, iremos entrar com várias ações, estamos estudando toda a documentação, buscando as brechas para poder intervir e barrar esse retrocesso.