Uniex, fábrica na região do Brás, na capital Paulista, é denunciada por trabalhadores e trabalhadoras pelas condições humilhantes de trabalho, e pressão das operárias, apoiadas pelo MLC e UP, conquista melhorias
Redação SP
TRABALHADOR UNIDO – Logo nas primeiras horas do dia 4 de março, centenas de militantes do Movimento Luta de Classes (MLC) e da Unidade Popular (UP) estavam em frente à fábrica Uniex, na região do Brás, capital paulista, para apoiar a paralisação das trabalhadoras contra a escala 6×1 e as condições degradantes de trabalho.
Antes mesmo do horário de entrada, o dono da empresa chegou ao local junto com várias viaturas da polícia militar para reprimir o direito do povo a fazer greve. Além da violência policial contra os militantes, o patrão coagiu as operárias a entrarem no trabalho, chegando a empurrá-las para dentro da empresa e dizendo: “se vocês quiserem entrar, é agora”.
Há várias semanas antes do dia da greve, o MLC na capital de São Paulo organizou uma série de panfletagens e brigadas do jornal A Verdade no bairro Brás, denunciando a escala 6×1, conversando com centenas de operários da região, ouvindo relatos e convidando a se somar na luta pela redução da jornada de trabalho.
Exploração na Uniex
A Uniex foi uma das empresas que mais recebeu reclamações. Além da escala 6×1, houve relatos de assédio dos patrões, desvios de função, metas irrealizáveis, falta de equipamentos de proteção individual (EPIs), falta do adicional de insalubridade, calor intenso dentro de alguns setores por causa das máquinas, proibição de sentar durante todo o expediente, pouco tempo de horário de almoço, falta de vale refeição, entre diversos outros.
Houveram também relatos sobre a atuação do sindicato, expondo que no ano passado algumas trabalhadoras foram demitidas por terem procurado a entidade para denunciar as condições de trabalho, sendo todas “entregues” ao dono e demitidas.
Um trabalhador que conversou com o movimento relatou: “principalmente na parte das máquinas, que fazem mais de 200 graus e as de laser, que jogam gases tóxico na hora da queima do tecido pro corte, o único EPI que eu vi lá na vida foi aquelas borrachinhas para ouvido que sinceramente é bem irrisório, o ideal seria aqueles fones abafadores mesmo cobrindo o ouvido todo”.
E continua: “Rola desvio de função lá ‘a rodo’ vire e mexe, se falta gente em um setor eles pegam de outro sem treinamento para mexer nas máquinas, o que 5 minutos de uma pessoa explicando como funciona não pode ser considerado um treinamento, né?”.
Organização dos trabalhadores é o pesadelo dos patrões
Ao sentir o espírito de revolta que começava a acender nas trabalhadoras, o patrão organizou uma reunião com todas as pessoas da fábrica, de todos os turnos, parando a produção por meia hora para aterrorizar as operárias, ameaçando com demissão qualquer uma que mencionasse qualquer coisa sobre greve, que deveria sair quem não estivesse satisfeito e perguntando o que elas iriam fazer com um sábado de folga, relataram algumas trabalhadoras.
Numa escalada do medo da organização do povo, o dono da empresa atacou militantes do MLC que estavam fazendo agitação em frente à fábrica, quebrando um celular e a mesa com os materiais, além de agredir um militante. Em seguida, demitiu três trabalhadoras da fábrica acusando ao menos uma delas de estar envolvida com o movimento.
A Uniex é uma fábrica têxtil do bairro Brás, de pequeno porte, que fabrica e comercializa roupas esportivas, principalmente, empregando cerca de 250 funcionários, na sua maioria mulheres. Mesmo não tendo divulgado abertamente sua taxa de lucro, é possível estimar que possa chegar até 500 mil reais anualmente, com as operárias não tendo nenhuma participação nos ganhos, mesmo sendo elas quem produzem todas as mercadorias da empresa.
As conquistas da luta
Após a ação do dia 4, uma comissão formada por militantes do MLC e UP, junto com uma das trabalhadoras demitidas, foi até o Ministério Público do Trabalho (MPT) levar as diversas denúncias das operárias e da reação violenta do patrão naquele mesmo dia. A comissão foi recebida imediatamente e foram protocoladas todas as queixas.
“Nós cozinhávamos vivas lá dentro, você sabe como é cozinhar vivo? É muito quente lá no setor, e não tem ventilação, as pessoas passam mal. O meu setor tem uma placa de ‘proibido sentar’, nós temos que passar mais de 8 horas em pé”, disse a operária durante a audiência no MPT.
Poucos dias depois, uma série de trabalhadores pediram demissão, não aguentando as condições degradantes de trabalho e a escala sanguinária do 6×1. Ao mesmo tempo, fruto da pressão da organização dos trabalhadores, melhorias pontuais foram realizadas, como o ajuste do contrato de trabalhadores como operadores de máquinas ao invés de ajudantes gerais, como ocorria antes, a entrega de EPIs para todos do setor da produção e a compra de equipamentos para primeiro socorros, como maca e cadeira de rodas.
A luta do dia 4 de março foi parte de uma jornada nacional de greves pelo fim da escala 6×1 e redução da jornada de trabalho, organizada pelo MLC e pela UP, paralisando dezenas de fábricas em todo o país e mobilizando milhares de trabalhadores para lutar por melhores condições de vida.