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terça-feira, 31 de março de 2026

“O que acontece nas nossas escolas hoje é um projeto político de desmonte da educação”

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Para tratar sobre o movimento estudantil e a situação das escolas públicas no Brasil, o jornal A Verdade entrevistou a estudante Yasmin Farias, militante da União da Juventude Rebelião (UJR) e diretora da Associação dos Estudantes Secundaristas do Estado do Rio de Janeiro (Aerj) e candidata à presidência da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes).


A Verdade – Fazer movimento estudantil significa, para muitos jovens, o primeiro passo para lutar pelos interesses coletivos. Como você enxerga isso?

Yasmin Farias – Os problemas que marcam a educação e as dificuldades enfrentadas pelos jovens hoje não são questões individuais. Não se trata simplesmente de “falta de esforço” ou de “falta de mérito”. Objetivamente, estamos numa realidade em que milhões de estudantes frequentam escolas em que não há professores para todas as disciplinas, em que muitos residem em áreas de conflitos armados entre facções, milícia e polícia. 

Vejamos, por exemplo, a falta de vagas no ensino superior. Para podermos entrar numa universidade pública, não basta tirar uma boa nota. É preciso tirar uma nota maior do que a dos outros. Mesmo que todos estudantes forem muito bem na prova do Enem, se o número de vagas continuar o mesmo, a maioria dos inscritos não conseguirá uma vaga. Em 2025, foram quase 5 milhões de inscritos disputando 275 mil vagas.

Acreditamos na luta coletiva porque foi assim que todos os direitos estudantis que temos hoje foram conquistados. Temos que correr atrás, conquistar através da organização, das manifestações, da pressão sobre os governos. Hoje, em algumas escolas, encontramos merenda de qualidade, ar-condicionado nas salas e quadras esportivas. Na maioria dos casos, por trás disso há uma manifestação, um abaixo-assinado ou outra forma de reivindicação dos estudantes.

Em diversas edições, o jornal A Verdade tem denunciado a situação das escolas públicas no Brasil. O que os estudantes encontram do portão para dentro?

Diversos problemas são comuns em todo o país. Os principais são a falta de professores em diversas disciplinas, laboratórios abandonados por falta de equipamentos, bibliotecas fechadas, quadras poliesportivas sem cobertura para o sol e a chuva, a merenda ruim e não nutritiva (o famoso suco aguado com biscoito murcho). Os banheiros, muitas vezes, não têm portas, sabonete ou papel higiênico.

O que acontece nas nossas escolas hoje é um projeto político de desmonte da educação. Enquanto faltam investimentos na educação básica, vemos bilhões de reais sendo destinados a bancos, grandes empresas e privilégios políticos. Isso mostra quais são as prioridades de quem está no poder. Não é falta de dinheiro ou incompetência, é escolha.

É nesse cenário que você se apresenta como candidata à presidência da Ubes. Qual é o objetivo dessa candidatura?

Primeiro, importante registrar que a Juventude Rebelião e o Movimento Rebele-se defendem que só mudar a educação não é suficiente. Os jovens sempre foram uma importante força transformadora da sociedade e, por isso, defendemos a necessidade de acabar com o capitalismo e construir uma sociedade socialista.

O socialismo inverte a lógica da sociedade: no lugar das guerras imperialistas, solidariedade entre os povos trabalhadores de todo mundo; no lugar do lucro exorbitante de meia dúzia de bilionários, condições dignas de vida para todos. As riquezas produzidas pelo conjunto dos trabalhadores de uma sociedade devem ser usufruídas pelos próprios trabalhadores, e não servir para enriquecer a burguesia.

Segundo, entendemos que o movimento estudantil no Brasil é muito rico em experiências de lutas e conquistas. Queremos que a principal entidade do movimento secundarista, a Ubes, expresse isso. Queremos que a entidade expresse a revolta, a indignação que encontramos entre os estudantes em cada escola que visitamos. Não aceitamos mais o trabalho burocrático que está impregnado na atual gestão, apagando o legado da entidade. Nossa proposta é a Ubes organizar a luta incansavelmente até que as escolas contem com tudo que os estudantes precisam para ter uma educação de qualidade. 

O Movimento Rebele-se, do qual você faz parte, tem denunciado que o processo de eleição da Diretoria da Ubes é antidemocrático. Por que afirmam isso?

Há várias décadas, estão à frente da Ubes setores que chamamos de imobilistas. Eles atuam para se manter no controle da entidade, e não para organizar a luta pela educação. Por isso, esses grupos organizam diversas fraudes no processo eleitoral do Congresso. Credenciam grêmios estudantis que só existem no papel, fraudam documentos de identidades para que qualquer um possa votar como delegado no Congresso, mesmo sem ter sido eleito ou ser estudante secundarista. 

Também manipulam o calendário eleitoral como podem para diminuir a participação democrática. Em várias escolas, o processo eleitoral foi anunciado às 10 horas do dia 23 de fevereiro, e as inscrições de chapa se encerraram no mesmo dia, poucas horas depois. Estudantes que estão de fato organizados, lutando por merenda de qualidade, passe-livre e estrutura nas escolas, muitas vezes enfrentam dificuldades para se credenciar.

Chamamos os estudantes secundaristas mais combativos a construir uma grande bancada de oposição ao imobilismo na Ubes para que a entidade, de fato, represente milhões de estudantes no Brasil!

Matéria publicada na edição impressao nº 329 do jornal A Verdade

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