Surgido nas redes sociais e ganhando cada vez mais espaço entre os setores mais reacionários da sociedade, o movimento ‘redpill’ representa o momento de violência contra as mulheres de todo o mundo. E é preciso aprofundar aquilo que tem por trás de tudo isso.
Júlia Lisboa| Paraíba
MULHERES- A ideologia conhecida como redpill (do inglês, “pílula vermelha”) não pode ser compreendida como um fenômeno distante, restrito a bolhas extremistas na internet. Ela está incorporada ao cotidiano, manifestando-se nos algoritmos das redes digitais, nos grupos de mensagens através dos quais conteúdos de podcasts de teor misógino são disseminados, e nos discursos de ódio que se popularizam sob a desculpa da opinião impopular ou das verdades inconvenientes.
O aspecto mais preocupante desse movimento é sua capacidade de capturar a vulnerabilidade de jovens em situação de desorientação afetiva e social, canalizando suas inseguranças para um projeto de segregação e controle político. O princípio dessa subcultura reside em uma estratégia semântica inteligente, mas oportunamente distorcida. A metáfora da pílula vermelha é extraída do filme Matrix, das irmãs Wachowski, e representava a escolha corajosa de enfrentar uma realidade dolorosa em vez de permanecer em uma simulação confortável.
Na versão redpill, o jovem que acumula rejeições românticas e não consegue estabelecer vínculos relacionais é colocado na condição de iluminado. Ele seria o único capaz de enxergar a verdade que a sociedade, supostamente hipnotizada pelo feminismo e pelo progresso social, tentaria ocultar: a de que as mulheres constituem inimigas naturais, de que o feminismo destruiu uma ordem correta e biológica das coisas, e de que os homens heterossexuais seriam as verdadeiras vítimas da contemporaneidade.
A psicanalista Sabrina Arini já assinalou como essa estratégia de negociar e distorcer a realidade é frequentemente utilizada pela extrema-direita global. São construídos universos paralelos nos quais os sofrimentos concretos de um jovem, como desemprego, dificuldade de comunicação e solidão afetiva são validados, mas imediatamente canalizados para um culpado específico. Esse inimigo possui nome, rosto e gênero.
Em vez de permitir que esse jovem compreenda as estruturas econômicas que precarizam o trabalho (o capitalismo), ou os estigmas do próprio patriarcado que também impedem os homens de expressar sentimentos de forma saudável, a narrativa redpill oferece um atalho cognitivo: a culpa é das mulheres.
Trata-se de uma transferência de responsabilidade que alivia o peso do fracasso pessoal, porém condena o indivíduo a um estado de vigilância e hostilidade permanentes. Com essa visão de mundo há uma redução sistemática da mulher à condição de objeto. Nesses círculos, o valor feminino é mensurado por critérios como juventude, aparência física e capacidade reprodutiva, o que denominam, em jargão pseudotécnico, valor de mercado sexual. A lógica do mercado é transferida para as relações entre pessoas de forma explícita e desumanizadora.
Esse fenômeno encontra respaldo no que Simone de Beauvoir identificou como a construção do outro em O segundo sexo. Para a filósofa francesa, a mulher sempre foi definida em relação ao homem, como o inessencial diante do essencial. Não se nasce mulher, torna-se mulher, escreveu Beauvoir, indicando que não há um destino biológico, mas sim uma construção cultural que define os papéis de gênero.
O que a ideologia redpill promove é uma distorção radical dessa percepção: em vez de buscar a superação da condição de outro imposta às mulheres, ela busca cristalizá-la, transformando a diferença em hierarquia e a hierarquia em hostilidade. Essa narrativa oferece o que teses acadêmicas recentes denominam utopia regressiva: a promessa de retorno a um passado que nunca existiu de fato, uma ordem antiga e mítica onde os homens eram provedores inquestionáveis e as mulheres conheciam seu lugar. Trata-se de uma fantasia de controle num cenário de incertezas econômicas brutais e fragmentação dos laços sociais.
É preciso compreender que a defesa de papéis de gênero fixos não é uma novidade, nem uma invenção da ideologia redpill. Pesquisas sobre movimentos antifeministas contemporâneos revelam como perfis de mulheres nas redes sociais ensinam, pedagogicamente, que a mulher feminina é a principal responsável por “edificar” seu relacionamento, ressignificando o conceito de empoderamento para, convenientemente, significar submissão e silenciamento.
A hashtag “mulher de valor” frequentemente aparece associada à ideia de que o feminismo está destruindo a “família tradicional”, gerando o que estudiosos chamam de pânico moral e mobilizando setores sociais em torno de retrocessos nas políticas de igualdade.
Beauvoir já antecipava esse movimento ao analisar como as mulheres eram aprisionadas ao papel de mãe e esposa, sendo a alternativa apenas o convento. A filósofa rompeu com esse destino ao fazer de sua vida algo completamente diferente do esperado, mas a resistência a essa ruptura persiste. A redpill, ao prometer a restauração de uma ordem hierárquica, oferece uma resposta sedutora para aqueles que se sentem deslocados em um mundo de transformações: a certeza simplificadora de que o problema não está nas estruturas sociais complexas, mas na autonomia feminina.
O aspecto mais irônico dessa subcultura é que, ao reduzir a mulher à condição de objeto, os adeptos da redpill acabam construindo entre si laços de solidariedade masculina particularmente intensos. Os fóruns, canais de Discord e podcasts tornam-se espaços de sociabilidade quase exclusivamente masculina, onde mulheres ingressam apenas como tema de escárnio ou análise técnica.
É nesses ambientes, protegidos por telas, que compartilham dores, inseguranças e frustrações, algo que não se permitem fazer presencialmente. Unem-se não em torno de um projeto de vida positivo, mas em torno do medo e da hostilidade ao feminino. Formam uma comunidade afetiva baseada estritamente na exclusão do outro. Este fenômeno revela uma contradição profunda: ao mesmo tempo que professam a independência masculina, necessitam intensamente da aprovação do grupo para sustentar sua visão de mundo.
Esta construção de ressentimento produz consequências concretas e mensuráveis. O Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número desde a tipificação do crime, em 2015. São quatro mulheres mortas por dia, assassinadas dentro de suas próprias casas, por parceiros ou ex-parceiros, em crimes facilmente evitáveis. Em dez anos, mais de 13 mil mulheres tiveram suas vidas interrompidas, exclusivamente por sua condição de gênero.
A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, é direta ao apontar a responsabilidade do poder público: se os números continuam subindo, isso representa uma omissão do Estado, um crime anunciado que não é evitado porque as políticas de proteção simplesmente não chegam.
Ao mesmo tempo, o ódio transborda para o ambiente digital. As denúncias de misoginia na internet cresceram 224,9% em 2025, segundo a SaferNet Brasil, saltando de 2.686 para 8.728 casos. São ameaças, discursos de incitação à violência, conteúdos que tratam mulheres como inimigas a serem combatidas. A Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia no ano passado, um aumento de 17% em relação a 2024, e recebeu mais de 1 milhão de novos casos de violência doméstica. Vê-se, portanto: julgar não basta diante deste cenário de números crescentes. É preciso confrontar as raízes culturais do fenômeno.
A redpill, portanto, não é um desvio inofensivo de jovens confusos. Ela é uma estratégia ideológica de um sistema que mata. É a justificativa ignorante para que homens se sintam no direito de desumanizar mulheres. O discurso de que a mulher é adversária, de que o feminismo destruiu a ordem natural, de que a autonomia feminina é ameaça, encontra seu desfecho lógico nas delegacias, nos Institutos Médicos Legais, nas valas. Não se trata de coincidência. Trata-se de causa e efeito. E a cumplicidade silenciosa de quem acha que misoginia é só conversa de internet é tão grave quanto. Não há mais espaço para diálogo com quem escolhe o ódio. O que há é a necessidade de lutar. De ocupar as ruas. De exigir políticas públicas. De proteger umas às outras. De questionar a quem beneficia a manutenção dessa dinâmica sistemática. E, sobretudo, radicalizar-se e se organizar.