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Chico César: “Quero dar minha contribuição”

Chico César é um exemplo de amor pela música, e de persistência. Natural de Catolé do Rocha, Alto Sertão Paraibano, aos 10 anos de idade, já participava de festivais de música na região. Quando questionado por parentes e amigos o que queria ser quando crescesse, ele respondia: “vou viver de música”. Se alguém procurava chamar-lhe a atenção para as dificuldades desse mercado em nosso país, respondia convicto: “vocês vão ver”.

Mudou-se para João Pessoa, onde cursou jornalismo e integrou o grupo poético-musical de vanguarda, Jaguaribe Carne. Aos 21 anos de idade, mudou-se para São Paulo. Trabalhou como revisor e continuou fazendo música e se apresentando para pequeno público até abrir espaço e “viver de música”, como prometia na infância.

Chico César descreve bem na entrevista a motivação, a inspiração, o conteúdo do seu trabalho que tem, de fato, um caráter popular, regional e universal, num entrelaçamento dialético. Com um jeito todo próprio, como ele autoavalia, de falar de coisas duras com um jeito bem-humorado.

Atualmente, já na maturidade (46 anos), ele também é gestor público, na função de diretor executivo da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope). Como gestor, faz a diferença ao negar o paternalismo e estimular os artistas e as pessoas, em geral, a participar cada vez mais e não ficar só esperando pelos governos.

Em certa ocasião, numa entrevista a um canal de televisão, Chico César declarava não aspirar a ser estrela de primeira grandeza. Queria apenas um lugarzinho nessa constelação chamada MPB. Pois bem, com sete CDs lançados e vários sucessos, ele não é apenas um dos principais nomes da chamada nova MPB, como, a meu ver, está ao lado dos que compõem a plêiade dessa constelação.

Em relação à consciência social do artista, que ele tem e se preocupa em desenvolver nos novos, gostaria de destacar uma caracterização magistral que ele faz na música MPB’s: “…de alma proletária e o motor pequeno-burguês”.

É isto. No mais, leiam com atenção a entrevista concedida ao jornalista Rafael Freire, em João Pessoa, especial para A Verdade e procurem conhecer toda a obra do pequeno-grande Chico César. Vale a pena! (Luiz Alves, advogado, participou, como concorrente de Chico César, em festivais de música no sertão paraibano nos anos 70).

A Verdade – Chico, todo artista persegue alguns objetivos na carreira e busca passar ao público uma mensagem. Quais os seus?

Chico César
 – Gilberto Gil tem uma música que diz: “Não se meta a exigir do poeta que ele explique o conteúdo de sua lata”. Na verdade, ele está falando sobre o conteúdo da obra do artista. A impressão que eu tenho é que o artista é um pouco diferente dos outros profissionais. Muito do que ele colhe tem a ver com o acaso. No meu caso, a minha música já me levou muito mais longe do que eu imaginava ou desejava. Antes de lançar disco, eu achava que meu público seria de estudantes universitários. Quando lancei o meu primeiro, o público era de estudantes secundaristas, e eu me surpreendi muito. Mas na arte às vezes é isso: você atira no que vê e mata o que não vê.

Quando cheguei a São Paulo, eu achava que o meu público seria o pessoal do movimento alternativo, que curtia Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, o público do Lira Paulistana. Pouco depois de quando eu cheguei lá, em maio de 95, o Lira Paulistana acabou, e o público já estava indo pra outras coisas. Quando lancei o primeiro disco, que fiz o primeiro show depois, aí só vi gente com cara de 16 anos e, ao levar meu disco pra casa, conseguiram uma conexão com os pais, porque os pais talvez estivessem mais ligados em uma música com certo engajamento, com raízes brasileiras, que tinha a ver com a música dos anos 70, com a música de Caetano, Gil, Chico, Vandré, Tarancón. Então, isso para mim foi muito surpreendente.

Eu, que desejava conquistar o público underground, conquistei um público à parte do underground e, depois, um público mais massificado com o segundo disco; eu via que poderia cantar uma canção que diz “Já fui mulher, eu sei”, em Mossoró, no Rio Grande do Norte, com um monte de homens que trabalham na roça, e vê-los cantando. Aí eu pensei que estava iludido com aquele negócio de underground. A minha música tem uma matriz muito popular, porque eu trabalhei em loja de disco, ouvi muito rádio, e o que eu tenho para dizer com a minha música está inevitavelmente contagiado disso. Há uma identificação natural com a pessoa mais simples, que não frequentou a universidade. Houve várias conexões que fugiram ao meu controle.

A Verdade – Muitas das suas composições têm uma clara influência das coisas da terra, da Paraíba, da sua vivência como nordestino. Essa é a sua principal fonte de inspiração?

Chico César 
 Eu me inspiro muito pelo estranhamento. Pela coisa de uma pessoa que nasceu no interior da Paraíba e que ali mesmo já entrou em contato com a poesia de Zé Limeira, de João Cabral de Melo Neto, de Oswald de Andrade, de Mário de Andrade, de Maiakovski, com a literatura de José Lins do Rego, de Guimarães Rosa, com os cordéis. Essa raiz é uma referência natural que já está dentro de mim. Eu nunca fiz pesquisa sobre música negra, indígena, nordestina. Eu sinto que a terra serve mais de mola para mim do que de âncora. Ela me impulsiona em direção ao universal. Ela não me prende. E também sou muito atraído pelo que eu não sou. Porque o que eu sou já me preenche e nunca vai deixar de ser, de ser um cara do Nordeste, nascido em Catolé do Rocha, que fez jornalismo em João Pessoa. Isso está na minha base.

A Verdade – Outro elemento forte é a questão do negro, do elemento racial, seja valorizando essa identidade seja fazendo uma denúncia do preconceito, como nas composições Mama África, Respeitem meus cabelos, brancos, Filá, Mand’ela. Você sente necessidade de falar sobre esse assunto?

Chico César 
 Sinto sim. Não sei se eu fosse um dinamarquês eu iria fazer músicas valorizando o fato de ser branco e louro. Mas o fato de ser descendente de negros e índios nordestinos me serve como inspiração, porque sinto falta desses modelos, sinto falta da presença, na mídia, do descendente do índio, do negro. E muitas vezes os papéis sociais que eles representam são ainda caricatos: é o artista (no meu caso, por exemplo), é o jogador de futebol. Por outro lado, ainda temos poucos geógrafos negros, historiadores, psicanalistas, ministros. Trazer essa presença para a música, ajuda as pessoas a lembrar. E eu faço isso de um jeito mais leve, nunca de um jeito ranzinza, porque é da minha personalidade dizer coisas duras de um jeito bem-humorado, utilizando a metáfora, com a possibilidade do riso, sem, no entanto, perder a força.

A Verdade – Hoje você se encontra como gestor cultural, na condição de diretor executivo da Funjope. O que o levou a buscar esse novo espaço? Quais os desafios encontrados diante de tanta burocracia do Estado brasileiro?

Chico César 
 Eu acho que, quando o então prefeito Ricardo Coutinho me chamou para a Funjope, ele o fez porque me conhecia como militante da cena cultural de João Pessoa na década de 80. Fizemos várias coisas naquela época, como o Movimento Fala Bairros, o movimento de cineclubes, o movimento de escritores independentes etc., e não tínhamos dinheiro, não estávamos no governo, éramos contra o governo, e, mesmo assim, conseguíamos fazer as coisas. Acho que o fato de eu ser uma pessoa oriunda desse meio, acostumado a lidar com privações, e também de ter conseguido uma visibilidade e uma viabilidade como artista, me potencializava para esse trabalho. Aí, ao receber o convite, achei bacana e disse “quero ir lá, quero, depois de 25 anos, reaprender a cidade, dar minha contribuição”. E quanto à burocracia, acho que tão ruim quanto ela é a visão paternalista que alguns artistas têm em relação ao poder público, de achar que política pública de cultura é só para artistas. Na verdade, toda política pública é para a sociedade. Essa política pode até também ser feita com os artistas, através de conselhos, fóruns, conferências, da mesma forma como a política de saúde deve ser feita com os profissionais da área. A política do Ministério de Cultura, em âmbito federal, trabalha de forma mais republicana, com editais, valorizando os conselhos, as gestões coparticipativas. Então esse é um momento muito rico, porque ainda está sendo construído no Brasil todo. Se fosse para trabalhar na política do pires na mão, em que você beneficia as pessoas que têm simpatia pela sua política, pelo seu governo, talvez fosse mais fácil, mas eu acho que eu nem saberia trabalhar assim. Temos que estimular as pessoas cada vez mais a participar, a não ficar só esperando pelos governos. Quando cheguei aqui, eu quis despachar nos bairros. Levei um computador, a chefe de gabinete, e fomos aproveitando os espaços do Orçamento Democrático. A partir daí, conheci vários grupos novos de teatro, de jovens que mexem com o grafite, com o hip-hop, são novos artistas plásticos, mexem com dança, com a palavra, com a música. A cidade de João Pessoa é muito diferente daquela cidade que eu deixei há 25 anos. Ele tem novos desafios e precisa de um novo olhar. Se eu fosse olhar a capital com o mesmo olhar de 25 anos atrás, seria algo enviesado. Nós queremos dar mais condições de mercado aos artistas, mas não apenas isso. É muito importante também que os artistas tenham uma consciência social.

A Verdade – Falando sobre essa questão do mercado: existe uma barreira entre o interesse do artista de chegar até o público e as reais condições de esse público ter acesso a uma produção de qualidade, porque no meio disso está a indústria fonográfica e vários outros interesses capitalistas envolvidos. Como você vê essa questão?

Chico César 
 O consumo de bens culturais vive uma crise que também interfere na própria produção desses bens. Mas isso não é necessariamente ruim, porque toda grande crise antecede um momento novo, que não sabemos ainda no que vai dar. Eu acho primeiramente que falta uma política de educação que traga para dentro da escola a discussão sobre a cultura, não apenas cultura como entretenimento, como algo que você vai comprar num shopping, mas como algo que está ligado ao dia a dia das pessoas. É preciso levar às escolas um Mestre Carboreto, uma Vó Mera, e reconhecê-los como patrimônio vivo, e não para dar a eles um dinheirinho todo mês. E isso não significa que eu imagine que toda a sociedade vá ficar fazendo só reizado. É para que as pessoas possam potencializar a expressão delas no momento. Um dos movimentos mais significativos dos últimos tempos nas artes nordestinas, o Manguebeat, fez isso espontaneamente. Foram beber na fonte de Mestre Salustiano para fazer sua música. E não foi pra fazer grupo folclórico. Foi para potencializar a expressão da música urbana deles. E aí foram também nos figurinos. O cinema foi atrás disso. Uma parte da população jovem do Recife, de Pernambuco, do Nordeste, passou a ter referências próprias e a se questionar “qual é o nosso passado?”, “pra onde é que a gente pode ir?”. Isso foi um exemplo muito interessante.

Chico César  Existe uma quantidade enorme de artistas que se dizem referenciados na obra de Jackson do Pandeiro, mas os grandes meios de comunicação não valorizam suas músicas. Por quê?

Chico César 
 Com certeza. Rádio é concessão pública. Só que, na hora em que o empresário ganha a concessão, ele se esquece disso e começa a fazer daquilo um negócio próprio. Acontece também com a televisão, que também é concessão pública. E aí, muitas vezes, são deputados que já querem lançar o filho, a filha, o cunhado, criando um novo tipo de coronelismo. O Nordeste padece muito disso. A gente vai dar entrevista numa rádio dessas, e eles perguntam: “Você foi discriminado em São Paulo por ser nordestino?”. E eu respondo: “Meu amigo, ainda bem que existiu São Paulo no meu caminho, porque se eu dependesse de vocês, eu não estaria em lugar nenhum, porque vocês estariam tocando outro tipo de música. Aqui na sua rádio não tem espaço para os artistas daqui da Paraíba. Vocês não tocam Adeildo Vieira, Escurinho, Cátia de França”. Uma vez na vida tocam uma música minha, de Zé e Elba Ramalho, mas teriam que tocar mais Jackson do Pandeiro, Livardo Alves, Pinto do Acordeom. Aqui na Paraíba você ainda tem uma única rádio pública, a Tabajara, que faz um trabalho ainda incipiente nesse sentido. Essa rádio teria que dar o exemplo, valorizar ainda mais a produção local dos novos e dos eternos (Jackson, Sivuca etc.), criar conexões disso com a cultura popular, com o coco, o reizado, os cambindas, e reforçar essa necessidade, porque se depender dessas comerciais aí está perdido. Muitas vezes eles dizem: “A programação vem em rede de São Paulo”. A emissora de lá, por sua vez, já é uma cópia, só toca Lady Gaga, Madonna, Beyoncé, uma dupla sertaneja, um grupo de pagode, e só. Por isso que falo novamente na escola: lá é preciso mostrar aos alunos a música brasileira, tocar na difusora na hora do intervalo. É preciso haver um resgate do sentido real de educação, porque se isso ficar a cargo só da internet, da televisão, a coisa vira uma espécie de barbárie cultural. É preciso encarar com muita vontade essa questão. As pessoas são bombardeadas o tempo todo por vários assuntos como religião, sexualidade, música, pela maneira de se vestir e, no geral, o que existe é uma dificuldade de leitura por parte das pessoas sobre essa realidade. Um governo que se diga responsável deve imediatamente pensar a educação e traçar um plano para a consolidação de uma formação humanista nos jovens.

Rafael Freire, Paraíba

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