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Burkina Faso: “Nosso desafio é avançar o processo revolucionário”

Burkina CapaCom uma população de 17 milhões de habitantes e considerado pela ONU um dos países mais pobres do mundo, Burkina Faso vive sob uma ditadura há 27 anos.

Desde o fim de outubro, o país passou a ocupar as páginas da imprensa internacional depois que a população, após inúmeras manifestações e levantes, que culminaram com o incêndio do prédio do Congresso Nacional, da Câmara Municipal da capital e da sede do partido governista, derrubou o ditador Blaise Compaore.

Apesar disso, e porque as massas não estavam suficientemente organizadas, o chefe das Forças Armadas, general Honoré Traoré, promoveu outro golpe de Estado, dissolveu o Parlamento e anunciou “12 meses de transição para a convocação de eleições”.

Hoje, o país  é presidido pelo ex-ministro de Relações Estrangeiras do governo anterior a Compaore e ex-embaixador na ONU, Michel Kafando, conhecido por suas ligações com os interesses norte-americanos no país, e pelo primeiro-ministro Isaac Zida, um dos chefes militares golpistas.

A Verdade entrevistou com exclusividade um dos principais dirigentes do Partido Comunista Revolucionário Voltaico (PCRV), que por motivos de segurança não pode ter seu nome divulgado. O PCRV é a principal organização de esquerda do país e se mantém na clandestinidade desde sua fundação, em 1978. Confira a entrevista, realizada na Turquia durante as comemorações dos 20 anos da Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxista-Leninistas (CIPOML).

Marcos Villela, Rio de Janeiro.

A Verdade – O que levou a população a derrubar a ditadura?

PCRV – O estopim de tudo foi a tentativa do ditador Compaore de ficar mais cinco anos no poder, o que contraria a Constituição, aprovada por ele mesmo em 1991.

Mas um novo golpe reacionário foi realizado…

O povo é contra o golpe, contra os militares. O movimento camponês e as organizações sindicais, de mulheres, estudantis e de direitos humanos, que em sua maioria são organizadas pelo Partido, se posicionaram contra o golpe. A burguesia do país e o imperialismo se organizaram para transformar o golpe em uma nova transição, dizendo que é para realizar eleições daqui a um ano.

Depois de idas e vindas dos militares, foi indicado para assumir o governo de transição o ex-ministro das Relações Exteriores e diplomata, Michel Kafando. No entanto, o primeiro-ministro é Isaac Zida, tenente-coronel do Exército, sempre utilizado pelos governos franceses para traficar armas e organizar golpes na Nigéria, Serra Leoa, Mali e Angola, países ricos em minerais como ouro, urânio, petróleo e gás, etc.

O golpe é uma tentativa do imperialismo e da burguesia reacionária do país de impedir a luta popular pelas transformações econômicas, sociais e democráticas, e também impedir o processo revolucionário em curso.

Há décadas que o povo burquinense luta por liberdades democráticas. Como o Partido participa dessas lutas?

A luta é especialmente democrática e popular, não armada. O Partido tem uma linha política que explica a necessidade de construir a luta armada, mas depende da condição subjetiva, ou seja, depende de preparar o povo para se incorporar a ela, pois a situação não permite ainda a organização de um braço armado. Apesar disso, o Partido vem discutindo a melhor tática para sua construção.

O PCRV e a CIPOML afirmam que Burkina Faso é um dos elos fracos da cadeia de exploração do imperialismo.

Há alguns anos, o Partido analisou que a conjuntura no país poderia mudar e chegar a uma situação revolucionária e que nós deveríamos nos preparar para isso, explicando aos militantes e ao povo que tínhamos de nos organizar para uma insurreição popular e armada pelo poder.

Essa foi apenas a primeira experiência insurrecional do povo. Nosso desafio agora é avançar o processo revolucionário para uma nova e mais bem preparada insurreição popular.

Mas vocês consideram que o nível de organização do povo já está consolidado?

Sim, está próximo, mas o nível de organização dos camponeses ainda não é bom. Nas cidades, os trabalhadores estão bem organizados, porém a população em Burkina é constituída por 80% de camponeses. Nesta insurreição, as 40 províncias do país participaram, mas os camponeses, por não terem uma organização nacional, atuaram de forma dispersa. Eles têm organizações regionais, pequenas, e nós trabalhamos pela criação de uma organização nacional através da CGTB (Central Geral dos Trabalhadores de Burkina Faso), que dirige a luta dos trabalhadores no país.

Houve alguma influência da chamada “Primavera Árabe” sobre Burkina Faso?

Sim, claro! Na Tunísia o povo gritava “Fora Ben Ali”, e aqui “Fora Compaore”. Principalmente a juventude, e isso foi muito bom para acelerar nossa luta.

Existe hoje uma frente política no país para congregar todas as forças da revolução, ou o Partido realiza essa luta sozinho?

Existe uma coalizão de mais de 60 organizações democráticas e revolucionárias chamada “Coalizão Contra a Carestia da Vida”, fundada em 2003, e que deve ser preparada para se transformar numa Frente Popular Revolucionária. Essa coalizão atua, inclusive, no campo.

Qual é a situação da economia do país?

A economia de Burkina Faso é neocolonial, agrícola e atrasada, pré-capitalista. O maquinário moderno é utilizado em pequena parte do campo, estando a maioria da produção agrícola submetida à tração animal, aos mecanismos mais tradicionais e à força do homem, apesar de ser principalmente para exportação.

Qual a situação do povo de Burkina?

Existe uma grande miséria. Sabemos que a miséria é resultado da exploração imperialista, porque existem recursos agrícolas e minerais. Depois de África do Sul, Gana e Mali, Burkina Faso é o maior produtor de ouro do mundo, por exemplo. Essa riqueza é toda exportada para Canadá, França, Austrália e Estados Unidos, ficando apenas 10% do recurso obtido no caixa nacional, que vai para o bolso da burguesia local, suas famílias e amigos, nada restando para o país e o povo.

A consequência disso é que em algumas regiões as pessoas são obrigadas a andar 10 km para buscar água, a mortalidade infantil é de 79 mortes para cada 1.000 nascimentos, o analfabetismo atinge 70% da população e a expectativa de vida é de apenas 46 anos. Não há hospitais na maioria das províncias, a cólera e a malária são epidêmicas e estão fora de controle. Não bastasse, até o dinheiro recebido da ONU para o combate ao HIV é controlado pelo ditador.

Como o Partido está se preparando para uma nova onda revolucionária?

O PCRV está na clandestinidade desde sua fundação, em outubro de 1978. No início, começamos pela organização de sindicatos e da juventude. Hoje, dirigimos a principal central sindical do país, a CGTB, e temos importante atuação na saúde, educação, minério, etc.

No movimento estudantil atuamos na União Geral Estudantil de Burkina Fasso, que reúne estudantes universitários e secundaristas.

Além disso, o Partido está à frente de uma organização de Direitos Humanos presente em todas as 40 províncias do país, além de também organizar o movimento de mulheres camponesas, operárias e intelectuais.

Graças à luta popular, todas as organizações de massas foram legalizadas, e apenas o Partido continua proibido de atuar livremente.

Em todas as eleições atuamos por meio da agitação e propaganda para esclarecer o povo de qual o caminho para derrotar o governo e organizar manifestações, greves, etc.

Nos últimos anos já havíamos identificado uma situação pré-revolucionária de crise política, econômica e militar. A juventude crescendo suas lutas, exigindo vida digna, o fim da fome e da miséria, água potável para beber, etc.

O Partido, percebendo essa disposição de luta, desenvolveu uma política de unidade popular através da “Coalizão Contra a Carestia da Vida”. A partir daí a luta cresceu e em algumas partes do país a luta se transformava em insurreição contra o poder. Esta situação nos levou a explicar ao povo a necessidade de uma organização revolucionária para liquidar o sistema neocolonial, pois os partidos da burguesia lutam contra o governo, mas não contra o sistema. O resultado disso foi a derrubado da ditadura de Compaore. Agora estamos trabalhando para derrotar o novo golpe e conquistar um país realmente soberano e democrático.

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